sábado, 1 de agosto de 2020

JNB Conciliar os opostos!

Um é do ANC , outro do Partido Democrata - ambos luso-sulafricanos.




Campanha eleitoral na Casa da Madeira - JNB




Pe MÁRIO DUAS versões

Em fins de 1968, conheci Doutor Mário Lajes em Paris, onde era um dos bolseiros residentes na "Casa de Portugal" da Cidade Universitária, tal como eu própria. É sobre esse tempo que escreverei breves linhas, apenas notas soltas, circunstanciais, recolhidas de entre as memórias (as boas memórias!) que de então ficaram.
Primeira impressão, que iria confirmar: ali estava o mais erudito de todos nós, embora fosse absolutamente natural e despretensioso, muito comunicativo, mas sempre discreto. E saliento estes seus traços, em particular, porque foram, a meu ver, determinantes no papel central assumido no círculo de amigos que rapidamente iria ganhar contornos naquele lugar, recriando uma espécie de fronteira intangível do nosso país,que se fazia presente connosco - uma geração nova, expectante e desejosa de mudanças. Expatriados por período certo, com objectivo muito concreto de completar estudos…

Sabemos, todos, o trabalho que, nas décadas seguintes, preencheu a sua vida, como sacerdote, professor, investigador, cidadão empenhado nas questões sociais, no mundo da cultura, capaz de conjugar uma multiplicidade de dons e qualidades em acções admiráveis e em missões sempre marcadas pela generosidade.
Esse futuro já então de algum modo se podia predizer…

O Padre Mário (como sempre, até hoje, lhe chamei) foi, de facto, aí, onde era mais fácil e fraterna a aproximação entre “emigrados”, o suporte da pequena “comunidade” (mais uma, no infinito rol das comunidades portuguesas espalhadas, transitória ou duradouramente, pelo globo…) nascida, assim, de forma espontânea, sem precedência de qualquer manifesto propósito de agir no campo político ou social – em boa verdade, sem outra intenção inicial que não fosse a de um puro e simples convivência e entreajuda.
A primeira foto de grupo foi tirada (quem diria?) à volta de um enorme boneco de neve, no Parque Montsouris - do outro lado do Boulevard Jourdan, que é uma das fronteiras da "Cité. Irresistível, pelo visto, assinalar a alegria de "gente do sul" perante aquela alvíssima beleza do primeiro dos nevões do inverno parisienses. E lá está, entre muitos rostos sorridentes, o Padre Mário, que, se bem me lembro, foi dos que mais bolas de neve jogaram para os restantes retratados…
A data: Novembro de 68. Éramos ainda, na quase totalidade, recém-chegados a Paris e, apesar disso, o “colectivo” já estava formado, com praticamente os mesmos componentes que o haviam de constituir, sem cisões nem conflitos, ao longo de dois anos académicos. O que, sem dúvida, atribuo a uma amável liderança não imposta, não declarada e nem sequer assumida, mas nem por isso menos influente, do núcleo central, onde se distinguia (não querendo distinguir-se!) o Padre Mário.
Superior cultura, simpatia, disponibilidade, bom conselho - tudo dado a todos, igualmente – contribuíram para o transformar em elo de ligação no meio de um complexo heterogéneo de especialistas com diversos estatutos e interesses nos mais variados domínios das ciências, letras e artes. A boa disposição e sentido de humor, eram comuns a todos os oriundos desses múltiplos ramos do saber - e abundavam… a começar pelo próprio Padre Mário. Na conversa que fluía, nas divagações de natureza intelectual, nas inquietações de ordem social ou moral, ele era invariavelmente o mais importante dos interlocutores, Porém,os seus ensinamentos estendiam-se, também, a matérias de ordem muito prática, como a indicação de livrarias onde os estudantes tinham descontos, as últimas novidades bibliográficas, os livros a ler - devo-lhe a introdução do que viria a ser um dos meus autores favoritos, P.G. Wodehouse - os filmes a ver, os mais agradáveis (e económicos) restaurantes do "Quartier Latin" … Ao fim-de-semana, não raras vezes, organizava passeios de "turismo cultural" - visitávamos catedrais, igrejas, museus. Tudo se tornou mais fácil, à medida que alguns foram comprando carros e dando boleia aos outros.
O Padre Mário escolheu um ágil "Austin mini". O que ninguém anteviu foi a sua transformação ao volante… Do ponderado e sereno doutorando não se esperava que fosse, mas era, um dos mais velozes e ousados, e também dos mais hábeis – felizmente! – automobilistas, daqueles que vertiginosamente serpenteavam ao longo das medonhos filas de transito da cidade. Em diversas ocasiões deixou à distância, quando não perdeu definitivamente, até ao destino final, quem o tentava seguir, em caravana, conforme plano bem delineado (et pour cause..) para os passeios dominicais.
A rodagem do automóvel (coisa que os mais novos ignoram para que servia...) iniciava-se, quase sempre, numa viagem aos Países Baixos. Amesterdão ficava à distância ideal, por boa estrada. O Padre Mário não fugiu à regra. À entrada de Amesterdão deparou com um local muito pitoresco, uma ponte graciosa sobre um estreito braço de água. Achou que não teria dificuldade em o situar e saiu ali, logo, apressado, para ver a cidade a pé, com os seus companheiros de jornada. É certo que foram atravessando mais e mais lugares pitorescos, todos muito semelhantes ao primeiro, mas não se preocuparam com o facto. Depois, na hora de voltar, é que surgiu o problema: em qual dos infindáveis canais do extenso burgo, todos aparentemente idênticos, estaria o "Mini"? Foram horas de busca!
Esta sua faceta de "sábio distraído" foi uma das que depressa aprendemos a reconhecer. Não era propriamente defeito que se lhe apontasse, mas podia ter inconvenientes, sempre, porém, resolvidos com optimismo e alegria…
Outro improvável domínio em que foi, para muitos de nós, um verdadeiro mestre: a fotografia, incluindo a revelação dos filmes, em "laboratório". A "Cité" dispunha, embora isso não fosse do conhecimento geral, instalações e estúdios modestos mas funcionais que, graças a ele, pudemos utilizar. E tão bem com ele aprendemos a arte, que as provas, aí reveladas, por nossas mãos de aprendizes, ainda hoje conservam a nitidez original. Até Nadir Afonso beneficiou do talento de “Mário Lages – fotógrafo de arte”, a quem se deve o registo iconográfico do seu magnífico livro de pinturas editado em Paris.

Havia também "Mário Lages - o desportista". O fim das manhãs de domingo, depois da missa na Igreja de Gentilly, quando a meteorologia o permitia, era, às vezes, passado colectivamente (um colectivo reduzido, claro...) no campo de jogos, que ficava mesmo em frente da portaria da Casa de Portugal. Era sair, dar dois passos e estávamos no estádio, que convidava a umas saudáveis corridas. Também aí o Padre Mário era dos mais rápidos…

Provou-o naquele 14 de Julho de 1969, que se tornou o dia mais perigoso das nossas vidas em Paris. Sintetizando: estávamos em paz e sossego, como era nosso timbre, tomando um café na esplanada de uma estreita rua do “Quartier Latin”, povoada de festivos cafés e restaurantes, sem ver nem ouvir o que quer que fosse de suspeito, quando a polícia irrompeu lá do alto, "varrendo" à bastonada as esplanadas. Engrossou a multidão em fuga, em que nos vimos envolvidos, correndo - não por mero desporto, dessa vez, e não sem que alguns fossem vítimas da kafkiana violência, de vitupérios racistas e da desordem geral, promovida, unilateralmente, pelas forças da ordem. Uma espécie de Maio 68, com os actores trocando de papel... Por sorte, os mais desafortunados sofreram apenas ligeiros hematomas na cabeça - ou "galos" na linguagem popular.
Era Paris logo depois da “revolução” de Maio… Na rua, a polícia de choque era ainda presença muito visível, mas as escaramuças poucas e, quase sempre, mais fáceis de adivinhar do que as desse “14 Juillet”… Na Cidade Universitária, pelo contrário, a paz foi, no pós Maio 68,raramente perturbada, e nunca à nossa volta. Era a nossa “cidade dentro da cidade”, onde o convívio quotidiano logo dera lugar à amizade. Muito por causa do Padre Mário e de outros sacerdotes, que, residindo ou não na “Cité”, connosco reuniam, nos tempos livres, vimo-nos rotulados como “grupo de católicos progressistas”… Na realidade, alguns eram, e outros não, católicos praticantes, e a maioria não tinha qualquer forma de envolvimento político - acho que nos unia, sim, a crença nos valores do cristianismo e da democracia, uma certa forma de de estar na vida e de olhar o futuro. Recordo os infindos debates e conversas nas salas da Casa de Portugal, enquanto íamos tomando o café arménio do Padre Mário, feito de acordo com receita tradicional, numa cafeteira étnica, (oferta dos seus colegas de Estudos Arménios) de sólido metal, base alargada, para, após a fervura, permitir que se deposite o pó, que um ligeiro agitar com colher deixa em suspenso, no líquido saborosamente mais espesso...

O regresso a Portugal significou a inevitável dispersão. Em 4 décadas, poucas foram as oportunidades de reencontro. Mas a amizade perdura. E esta é a hora de dizer ao Padre Mário que o primeiro ensinamento que me ficou de Paris foi o seu modelo de relacionamento com os outros. Inspirador, para seguirmos a nossa caminhada pela vida fora, procurando – não necessariamente conseguindo… - agir com o mesmo espírito de tolerância, a mesma sensibilidade para os problemas de cada sociedade e de cada pessoa, em cada tempo novo.
Obrigada, Padre Mário, por ser como é.

ANTERIOR


Em fins de 1968, conheci Doutor Mário Lajes em Paris, onde era um dos bolseiros residentes na "Casa de Portugal" da Cidade Universitária, tal como eu própria. É sobre esse tempo que escreverei breves linhas, apenas notas soltas, circunstanciais, recolhidas de entre as memórias (as boas memórias!) que de então ficaram.
O Padre Mário já era, como é, erudito, mas despretensioso, natural e comunicativo, mas sempre discreto. E saliento estes seus atributos, em particular, porque foram, a meu ver, determinantes no papel central assumido no círculo de amigos que rapidamente iria traçar contornos naquela residência de estudantes, recriando uma espécie de fronteira intangível do nosso país, ali presente connosco - uma geração nova, expectante e desejosa de mudanças. Expatriados por período certo, com objectivo muito concreto…

Sabemos, todos, o trabalho que, nas décadas seguintes, preencheu a sua vida, como sacerdote, professor, investigador, cidadão empenhado nas questões sociais, no mundo da cultura, capaz de conjugar uma multiplicidade de dons e qualidades em acções admiráveis e em missões sempre marcadas pela generosidade.
Esse futuro já então de algum modo se podia predizer…

O Padre Mário (como sempre, até hoje, lhe chamei) foi, de facto, aí, onde era mais fácil e fraterna a aproximação entre “emigrados”, o suporte da pequena “comunidade” (mais uma, no infinito rol das comunidades portuguesas espalhadas, transitória ou duradouramente, pelo globo…) nascida, assim, de forma espontânea, sem precedência de qualquer manifesto propósito de agir no campo político ou social – em boa verdade, sem outra intenção inicial que não fosse a de um puro e simples convivência e entreajuda.
A primeira foto de grupo foi tirada (quem diria?) à volta de um enorme boneco de neve, no Parque Montsouris - do outro lado do Boulevard Jourdan, que é uma das fronteiras da "Cité. Irresistível, pelo visto, assinalar a alegria de "gente do sul" perante aquela alvíssima beleza do primeiro dos nevões do inverno parisienses. E lá está, entre muitos rostos sorridentes, o Padre Mário, que, se bem me lembro, foi dos que mais bolas de neve jogaram para os restantes retratados…
A data: Novembro de 68. Éramos ainda, na quase totalidade, recém-chegados a Paris e, apesar disso, o “colectivo” já estava formado, com praticamente os mesmos componentes que o haviam de constituir, sem cisões nem conflitos, ao longo de dois anos académicos. O que, sem dúvida, atribuo à capacidade de liderança não imposta, não declarada e nem sequer assumida, mas nem por isso menos influente, do núcleo central, onde se distinguia (não querendo distinguir-se!) o Padre Mário!
Cultura superior, simpatia, disponibilidade, bom conselho - tudo dado a todos, igualmente – contribuíram para o transformar num "líder" imprevisto, mas consensual e ficaz, no meio de um complexo heterogéneo de especialistas nos mais variados domínios das ciências, letras e artes. A boa disposição e sentido de humor, eram comuns a todos os ramos do saber e abundavam… a começar pelo próprio Padre Mário. Na conversa que fluía, nas divagações de natureza intelectual, nas inquietações de ordem social ou moral, ele era invariavelmente o mais importante dos interlocutores, Porém,os seus ensinamentos estendiam-se, também, a matérias de ordem muito prática e concreta, como a indicação de livrarias onde os estudantes tinham descontos, as últimas novidades bibliográficas, os livros a ler - devo-lhe a introdução do que viria a ser um dos meus autores favoritos, P.G. Wodehouse - os filmes a ver, os mais agradáveis (e económicos) restaurantes do "Quartier Latin" … Ao fim-de-semana, não raras vezes, organizava passeios de "turismo cultural", por Paris e arredores - visitávamos catedrais, igrejas, museus. Tudo se tornou mais fácil, à medida que alguns foram comprando carros e dando boleia aos outros.
O Padre Mário escolheu um ágil "Austin mini". O que ninguém anteviu foi a sua transformação ao volante… Do ponderado e sereno doutorando não se esperava que fosse um dos mais velozes e ousados, e também dos mais hábeis – felizmente! – autombilistas, daqueles que vertiginosamente serpenteavam ao longo das medonhos filas de transito da cidade. Mas era! Em diversas ocasiões deixou à distância, quando não perdeu definitivamente, até ao destino final, quem o tentava seguir, em caravana, conforme plano bem delineado (et pour cause..) para os passeios dominicais".
A rodagem do automóvel (coisa que os mais novos ignoram para que servia...) começava, quase sempre, numa viagem aos Países Baixos. Amesterdão ficava à distância ideal, por boa estrada. O Padre Mário não fugiu à regra. À entrada a Amesterdão deparou com um local muito pitoresco, uma ponte graciosa sobre um estreito braço de água. Achou que não teria dificuldade em o situar e saiu ali, logo, apressado, para ver a cidade a pé, com os seus companheiros de jornada. É certo que foram atravessando mais e mais lugares pitorescos, todos muito semelhantes ao primeiro, mas não se preocuparam com o facto. Depois, na hora de voltar, é que surgiu o problema: em qual dos infindáveis canais de Amesterdão, todos aparentemente idênticos, estaria o "Mini"? Foram horas de busca!
Esta sua faceta de "sábio distraído" foi uma das que depressa aprendemos a reconhecer. Não era propriamente defeito que se lhe apontasse, mas podia ter inconvenientes, sempre, porém, resolvidos com optimismo…
Outro improvável domínio em que foi, para muitos de nós, um verdadeiro mestre: a fotografia, incluindo a revelação dos filmes, em "laboratório". A "Cité" dispunha, embora isso não fosse do conhecimento geral, instalações e estúdios modestos mas funcionais que, graças a ele, pudemos utilizar. E tão bem com ele aprendemos a arte, que as provas, aí reveladas, por nossas mãos de aprendizes, ainda hoje conservam a nitidez original. Até Nadir Afonso beneficiou do talento do “Padre Mário – fotógrafo de arte”, pois foi ele que lhe compôs a iconografia para um magnífico livro de pinturas!

O fim das manhãs de domingo, depois da missa na Igreja de Gentilly, quando a meteorologia o permitia, era, às vezes, dedicado ao desporto - no campo de jogos que ficava justamente em frente da portaria da Casa de Portugal. Era só sair, dar dois passos e estávamos no estádio, tão convidativo para umas saudáveis corridas. Também aí o Padre Mário era dos mais rápidos…

Provou-o naquele 14 de Julho de 1969, que se tornou o dia mais perigoso das nossas vidas em Paris. Sintetizando: estávamos em paz e sossego, como era nosso timbre, tomando um café na festiva esplanada de uma ruela do “Quartier Latin”, sem ver nem ouvir o que quer que fosse de suspeito, quando a polícia irrompeu do cimo da rua, "varrendo" à bastonada as esplanadas, de alto a baixo. Engrossou a multidão em fuga, em que nos vimos envolvidos, correndo - não por mero desporto, dessa vez, e não sem que alguns fossem vítimas da kafkiana violência, de vitupérios racistas e da desordem geral, promovida, unilateralmente, pelas forças da ordem. Uma espécie de Maio 68, com os actores trocando de papel... Por sorte, os mais desafortunados sofreram apenas ligeiros hematomas na cabeça - ou "galos" na linguagem popular.
Era Paris logo depois da “revolução” de Maio…
Na rua, a polícia de choque era ainda presença muito visível, mas as escaramuças poucas e, quase sempre, mais previsíveis do que a desse 14 Juillet…
Na televisão vimos, por exemplo, o General De Gaulle fazer o seu último discurso Eddi Merkxs ganhar o Tour, o homem marchar sobre a lua, Amílcar Cabral e o General Spínola (a falarem sobre a guerra da Guiné- Bissau), Spínola impressionando os franceses com o seu monóculo...
Mas não víamos demasiadamente a tv – para além dos noticiários. Depois do jantar na cantina, ou dos nossos jantares em grupo, nos salões da “Residência” (que os disponibilizava, graciosamente, a pedido de qualquer um de nós) a regra era ficarmos à conversa, tomando o café arménio, que o Padre Mário fazia de acordo com a receita tradicional, numa cafeteira étnica, (oferta dos seus colegas de Estudos Arménios). Uma cafeteira de metal, base alargada, onde, após a fervura, se deposita o pó, que um ligeiro agitar com colher deixa em suspenso, para se bebido no líquido, ao qual dá uma espessura exótica. E falávamos de Portugal, da França, de sociedade, tão cheias de contradições e de impasses. Da Europa, a que queríamos pertencer por bons motivos para além dos da geografia e da história antiga - com expectativas diversas que sobre as mutações que começam apenas a desenhar-se entre nós.
Estávamos, todos, em fase de procura de valorização académica, de vontade de compreensão, de reflexão de espera e antevisão e do que nos caberia fazer no futuro
O convívio quotidiano logo dera lugar à amizade, à partilha de ideias, de experiências, de preocupações sociais, de planos e iniciativas, numa forma dinâmica de relacionamento, num grupo que as circunstâncias, de algum modo, fechavam ao exterior, reforçando-o no interior.
Muito por causa do Padre Mário e de outros sacerdotes, que, residindo ou não na “Cité”, connosco reuniam nos tempos livres, passamos a ser rotulados como “grupo de católicos progressistas”… Na realidade, alguns eram, e outros não, católicos praticantes, e a maioria não tinha aquela forma de envolvimento político que a referência a "progressismo" fazia antever. Em todo o caso, acho que se pode ir ao ponto de afirmar que nos unia a crença nos valores do cristianismo e da democracia

Centenário a República em Espinho (notícia)

Em Espinho, o centenário é para comemorar, ao longo de todo o ano. Na execução do programa cultural da Câmara, decidimos associar, sempre que possível, as diversas iniciativas, à rememoração dessa efeméride. Queremos ir além da mera celebração simbólica da fundação do regime, com actos solenes e palavras encomiásticas, e olhar para trás, para 1910, revivendo os modos de pensar e de estar, então, na sociedade e na política. E, olhar, também, em frente, para o “futuro do passado”, o caminho percorrido a partir de 1910. Ou seja, empreender o balanço possível das transformações que operou, de facto, uma revolução portadora de esperanças e de promessas, umas cumpridas, outras não. Vamos, por exemplo, promover um ciclo de palestras sobre os últimos “cem anos”, em vários domínios. “Cem anos de poesia” (organizada pela Biblioteca Municipal),” Cem anos de”: Direitos humanos; Direitos das mulheres; Municipalismo; Laicismo; Migrações portuguesas; “Cartoons”; Cinema e desporto em Espinho; ... Uma visão diacrónica do século até à actualidade, com as perspectivas que hoje se nos abrem. A intenção é envolver as pessoas, despertando o seu interesse pelos factos históricos e sua projecção ao longo dos tempos, em diálogo, sem sentimentos passadistas e sem preconceitos. Se houver resposta favorável dos munícipes, dos parceiros, como esperamos, muitos dos Festivais que se tornaram tradicionais em Espinho, integrarão esta componente “extra”, em alguns dos espectáculos – caso do “Tu cá, tu lá”; do concurso de “estátuas vivas”(com um prémio especial, previsto para a melhor estátua de um dos protagonistas de 1910); do Festival Internacional de Folclore, durante o qual queremos levar a cabo a reconstituição das festas populares e de um “comício republicano”, no Largo da Câmara. Em preparação está uma edição fac-similada dos jornais de Espinho, no período da revolução, que poderá, a par de outros eventos, mobilizar os jovens para a participação num concurso sobre o tema: “o meu diário da República”.
A 5 de Outubro, o Museu Municipal inaugura uma exposição sobre “Os Rostos da República” e organiza um colóquio sobre os movimentos feministas republicanos. Em simultâneo, o Arquivo Municipal promove a recomposição de uma sala de aula de 1910 e, também, trabalhos dos alunos sobre os períodos da Monarquia Constitucional e da República.
E mais haverá, com certeza, pois apoiaremos quaisquer projectos viáveis, que esta dinâmica propicie.






Em fins de 1968, o Padre Mário Lages era um dos bolseiros que residia na "Casa de Portugal" da Cidade Universitária de Paris.
É sobre esse tempo que escreverei algumas linhas - sobre o jovem Padre estudioso, erudito e comunicativo que então conheci e que se tornaria figura central do grupo de amigos que rapidamente ganhou contornos e existência definida naquele espaço de um Portugal transplantado, com alguns dos seus males e muitas das suas virtudes.
Outros falarão do professor, do investigador, do sacerdote, do cidadão empenhado nas questões sociais, no mundo da cultura, que tão bem soube conjugar essa multiplicidade de talentos nas missões que levou a bom termo.
Para mim, o Padre Mário Lages foi, ali, onde era mais necessária e também mais natural a aproximação entre "expatriados", um dos grandes construtores de uma singular comunidade em que integramos espontâneamento, sem uma intenção subjacente , de agir social e policamente, de influir nos destinos daquela "Casa" ou da "Cité".
O convívio quotidiano deu lugar à amizade, à vontade de entreajuda, à troca de ideias, ao aconselhamento e partilha de preocupações, de nível individual ou social -à semelhança do que acontece numa família alargada ou num pequeno círculo que as circunstância, sejam quais forem, de algum modo, fecham ao seu exterior, reforçando-o no interior. Ali, os estrangeiros que eramos se reencontravam com o melhor da "pátria", como espaço de costumes e modos de estar bem portugueses, em terra onde as liberdades que em Portugal se coartavam, eram coisa comum, ainda por cima exponenciadas nos confrontos de ideologias e projectos do pós Maio de 68. Portugueses à procura de um valorização académica, e igualmente desejosos de aproveitar as experiências da sociedade em que estávamos, no centro de uma Europa a que queríamos pertencer por bons motivos para além dos da geografia. Com uma grande ediversidade de formações, de sensibilidades, que mais tarde se haveriam de desenvolver no País, creio que o primeiro traço que nos unia era a crença na democracia e nos herança cristã de Portugal - ainda que o "rótulo" que nos colocaram de "católicos progressistas", não se basease em mais do que isso... Na verdade, alguns eram e outros não eram católicos praticantes, e a maioria não tinha aquela forma de envolvimeto político que a referência a "progressismo" fazia antever. Foi mais uma fase de reflexão, de preparação, de espera, de vontade de compreensão desse tempo e da nossa sociedade, tão cheia de contradições e de impasses.





Tópicos

1 Parque Montsouris foto grupo
2 cinema, livrarias,jantar
3 livrarias com desconto
4 PG WOdehouse
5 Austin mini velocidade - perdia os sguidores... 5 vd vinda ed para port
6 Amsterdão
7 Cafe armenio cateteira
8 Workshops foto
9 Fotos Nadir
10 14 de julho
11 desporto
12 Ideias, debate cívico, alheamento das plíticas da Casa - dori d'affichage
13 tv francesa - guerra colonial - homem na lua
14 vida normal de bolseiros: jantar nas cantinas, passeios no parque - jantares naCasa do grupo em festejos
15 vistos do exterior como um grupo de católiocos progressistas - cimento do grupo - valores, mundivisão, fundo cultural, aherança cristã e humanista, mais do que a vivência relidiosa ou política

16 1969/70 - por razões q nos eram alheis, pois todos se candidataram à residência, a DISPERSÃO forçada( Brasil, Irão, Arg...) . A Casa continua a ser ponto de ecopntro, graças ao pequeno reduto que aí permanceu, nomeadamente,o P Mário.
No meu caso, convívio igaul/ harmonioso na Fund. Argentina i na CASA

Natal 2010

Em 2010 queremos um Natal diferente, capaz de dar resposta aos problemas que se colocam concretamente na sociedade em que convivemos. Diferente, porque diferente é também a situação que atravessamos.
O Natal, como sinónimo de nascimento, como símbolo de esperança de mudança e vontade de busca de novos caminhos e novos relacionamentos, parte sempre do ponto em que estamos e vai em direcção a projecto que queremos cumprir. O tempo é de incerteza e de maus presságios na velha Europa, e muito em particular em Portugal. A União Europeia mostra-se desunida, parece prestes a abandonar Estados que a bordejam a sul e a oeste, com risco de comprometer os seus ideais e de se perder como o todo que ainda é. Podemos ver, em breve, submergir economias e assistir à falência dos Estados, e ao dramático empobrecimento dos seus Povos. Desemprego, miséria, emigração, êxodo... De volta parece estar o pior do nosso passado, que se julgava definitivamente vencido, e que, afinal, vem lançar uma sombra de fatalidade sobre os horizontes de futuro.
Há muito não havia um Natal assim. Para mim, para gente da minha geração, para as mais jovens, é, na verdade, uma situação inédita, que, porém, não pode deixar-nos de braços caídos. Bem pelo contrário. É nesta conjuntura, nossa energia, que mais preciso é acreditar... e agir. Descobrir formas de ajudar os outros! Acordar para uma realidade em que temos de dar a medida da nossa solidariedade, do nosso desprendimento das coisas acessórias, e da nossa energia e imaginação.
Há que pôr em prática a mensagem de fraternidade entre os Povos, entre as pessoas, com a esperança de que o seu exemplo se estenda aos Estados. Talvez a Europa ainda consiga reencontrar-se na União. Talvez Portugal consiga acordar forças inertes para fazer reformas profundas na política e na Administração, que permitam retroceder do abismo para onde vai e afrontar a voragem dos mercados.
Talvez os Portugueses aprendam a viver mais uns para os outros.
Talvez este Natal 2010 seja o momento de todos os rencontros e as decisões de vida para a salvação do colectivo e de cada um!
Feliz Natal

sexta-feira, 31 de julho de 2020

ABSTRACT

PORTUGUESE EMIGRATION
THE PRESENCE OF ABSENCE TROUGHOUT THE AGES

For Portuguese expatriates the absence of the national territory traditionally meant the immediate loss of political rights and protection of the State as well as the loss of the nationality, when they became citizens of another State.
Nevertheless they succeeded in being present in the daily life of the country by keeping all kinds of links with the people and the territory, by the constant support of their family, the huge quantities of money they sent home, their many investments and contributions for progress.
Links they also kept abroad trhough the setting up of a countless number of cultural centers, mutuality’s, media, schools, clubs - powerful and long-lasting associations that were and are another form of Portuguese presence in five continents.
After 1974, with the democratization of the country the tendency is to recognize dual citizenship and equal political, social and cultural rights with the residents, as Portugal is seen more as a nation of people scattered all over the world than as a territory.
(resumo Emigração Portuguesa - presença e ausência)

1910 Republican Women

NO WAY TO SUFFRAGE. WHY?

After the revolution won its sudden and unexpected victory in Lisbon, an interim government was invested in power to prepare elections, and a new Constitution was in the making.
It was time to answer to great expectations of the people, men and women, who took part in the birth of the regime - only the second republican revolution in Europe, after the one that changed France and the world.
The main electoral laws, one after the other, excluded all women from the political universe, regardless of their loud (but orderly...) protest and their indignation.
Soon in 1910, the "League" presented a petition for a restricted suffrage for women.
In 1911, after the refusal of their voting, some of the most active members, under the leadership of Ana de Castro Osório, decided to quit the "League" and set up a new independent organization: the Committee on Feminist Propaganda ("Comissão de Propaganda Feminista") open to feminists of all sorts, regardless of their political or religious beliefs...
In 1912, the Senate did approve the vote for women over 25, having concluded university, secondary or special study courses. It was too less, considered the "Comissão" and many feminine voices, united in protest.
But not even that very modest piece of legislation went victoriously through the other Chamber...
In 1913 a proposal to that same scope was presented by Jacinto Nunes and defeated.
Only 21 years old male citizens, who knew how to read and write were electors.
In 1914 the National Council of Portuguese Women was set up - the strongest and the best internationally connected feminine organization, that would endlessly fight for suffrage during the first Republic and that would resist for over 20 years under the dictatorship of the so called New State (Estado Novo) - until it was banned in 1947.
In 1915, Ana Osório's "Committee” made a new petition: the vote just for women graduated by universities (not many, in those days, but even so, no gain of cause obtained...)
Electoral legislation of 1918 and 1919 left the situation unchanged on what concerns women. In between a new petition addressed to President Sidónio Paes got no positive answer.
In 1924, President Teixeira Lopes was present at the first Congress on Feminism and Education, and gave the feminists all his support - as other presidents had done before him.
The Republic was on the verge of collapse - time to provide feminine suffrage would soon come to an end.
In the meantime, almost all countries in Europe, most of them traditional monarchies, had accepted in their Constitutions and laws equal political participation for both genders.
Salazar the supreme antifeminist, antidemocratic, old fashionable conservative politician - to say the least - simply decided to follow the mainstream and in 1931 educated women were given the right to vote.