quarta-feira, 23 de junho de 2021

ENTREVISTA DEFESA DE ESPINHO

1 – O Natal está a aproximar-se e a o coronavírus não se vai embora. Tem vivências de outros tempos tão difíceis e delicados? - Estamos a viver nesta quadra do Natal uma realidade de que não existe memória - nem mesmo há um século, durante a "gripe espanhola", no que respeita à mobilidade e paralisia da vida societária. Parece-nos irreal, como se estivéssemos dentro de um filme de ficção científica, não é? E o filme ainda vai a meio, não temos saída para breve e não podemos fazer, a meio, um pequeno intervalo, para conviver à volta de uma mesa. Se o fizéssemos, para gozar o Natal do costume em família alargada, as consequências seriam terríveis. Os responsáveis têm de dizer isto, sem titubear, em vez do discurso facilitista que faz de nós patetas ou crianças grandes - acenando com a miragem de livres celebrações natalícias se nos "portarmos bem" e baixarmos o número de contágios até ao fim da semana anterior. Melhor seria pensar no que vai acontecer na semana ou semanas seguintes, com mais um provável pico de contaminação! É preciso falar claro aos Portugueses, que têm sabido, bem melhor do que as autoridades, tomar as medidas que o bom senso recomenda. Acho que se pode confiar neles, que não é preciso impor as limitações pela força e controle policial, mas que se deve alertar para os perigos. Se me permite, aqui deixo votos de Feliz Natal para todos os espinhenses, este ano vivido mais em espírito do que em abraços... 2 – Ano velho, ano novo! O ano de 2020 será o fantasma de 2021? A pandemia (com maior ou menor dificuldade) será superada? Ou não será assim tão linear… - Infelizmente, já podemos ter uma certeza: uma parte significativa de 2021 será igual a 2020, com máscaras e distanciamento físico. A vacinação em massa é motivo de esperança, se correr pelo melhor. Um "se" complexo... De qualquer modo, como agora todos estamos convertidos em virologistas amadores, eu permito-me avançar a minha previsão: 2021 será dividido a meio, o primeiro semestre igual a este 2020 e o segundo a anunciar a normalização total de 2022! Que bom poder ir a estádios cheios de gente, a lançamento de livros e a exposições, ao cinema Trindade e aos alfarrabistas do Porto, andar sem máscara na rua e sem álcool-gel na carteira, pegar em criancinhas ao colo e viajar para Lisboa, Londres ou Toronto... A "grande vida", a liberdade! 3 – A culpa é do vírus ou é das pessoas? - Olhando o que se passou ao longo destes últimos 10 meses, eu diria que há culpas repartidas. Não somos culpados pelo súbito aparecimento do vírus (ao menos fora do país onde nasceu e cresceu), mas sê-lo-emos, em parte, pela sua persistência. Para já, ele está aí. Veio para ficar. Quando erguemos barreiras, não consegue espalhar-se. Quando baixamos a guarda , multiplica-se vertiginosamente. Culpa dos governos, em primeira linha, por terem tomado medidas ziguezagueantes e dado sinais confusos, como aconteceu em toda a Europa, e não só cá, mas também dos cidadãos, quando se descuidam, por cansaço e impaciência. As chamadas "vagas" da pandemia não se devem ao vaivém do vírus (que permanece, sem mutações de vulto), mas à alternância dos "confinamentos" e "desconfinamentos" apressados... Nada justificou a excessiva abertura no verão, porque o número de casos continuava muito alto. 4 – Tem saudades dos contactos com os emigrantes? A diáspora lusa ainda é o que era? É verdade que tenho muitas saudades. Desde o início do meu trabalho na emigração, iniciado há exatamente 40 anos, por dever de ofício, no governo e no parlamento, e continuado, até hoje, em "voluntariado", este foi o primeiro ano em que não pude fazer uma só visita a comunidades da emigração! Ia partir, em março, para participar no Dia Internacional da Mulher, organizado pelo jornal "Luso-presse" de Montreal e tive de cancelar a viagem, no último momento. Vou mantendo contactos em debates e entrevistas por "zoom", "facebook", "skype"... São estas novas tecnologias que nos vão valendo! 5 – O que é “ganhou” enquanto secretária de Estado das Comunidades Portuguesas? E o que é ficou por fazer? - Ganhei uma outra visão do nosso País, da nossa gente, do modo como recria espaços de vivência e cultura nos cinco continentes do mundo. Quando dizemos que somos uma "Nação de comunidades", mais Povo do que território, estamos a fazer o retrato de uma realidade, que anda muito esquecida no nosso dia-a-dia, dentro de fronteiras. Raras vezes olhamos esta dimensão, o que ela nos acrescenta e engrandece. Os emigrantes, pelo contrário, são de uma dedicação e solidariedade sem limites para com a terra de origem, e é por isso que a transportam consigo e a recriam, visivelmente, no meio associativo, em manifestações coletivas ... A Diáspora não é uma estatística. Pouco importa, de facto, a quantidade, a mera soma de portugueses radicados numa determinada cidade ou região, o que mais conta é a capacidade de criar estruturas, instituições, e, através delas, assegurar o convívio, as festas, os rituais, os valores identitários, legados aos mais novos. Uma comunidade em sentido sociológico é isto. Não são números, são sentimentos e gestos concretos. Ficou muito por fazer nas ajudas concretas (os meios foram sempre poucos), na mobilização, no estabelecimento de redes de contacto e convívio entre comunidades que se ergueram por si, sem apoio do Estado... Este ano comemora-se o 40º aniversário da criação do Conselho das Comunidades (um projeto de Sá Carneiro, que me coube executar no seu Governo), que prossegue esse objetivo fundamental - promover o reencontro dos emigrantes entre si e com o País. 6 – Ser “portuga” por esse mundo fora enche a alma e dá alento para quem vai à procura de uma vida melhor? - Sim, dá, quase sempre, uma vida melhor! O sucesso dos que partiram incita os outros, família, vizinhos, a seguirem o seu exemplo. Esta é, em síntese, a história da nossa emigração! Os portugueses, aos milhões, ganharam essa aposta, individualmente, o País ganhou uma inesperada e espantosa componente extra-territorial, para além das esperadas e astronómicas remessas, mas continua na cauda da Europa, ao menos no que respeita a desigualdades, baixos salários, trabalho precário, inferiores expetativas de carreira - desfasamentos que são a causa mais eficaz da expatriação secular, imparável, até hoje... Já tenho dito, e repetido, que a revolução de 74 foi a única verdadeira revolução da Liberdade, aquela que veio , enfim, conceder o direito de emigrar, incondicionalmente, e, todavia, mais de quatro décadas depois, os governos ainda não conseguiram dar aos cidadãos o "direito de não emigrar", ou seja, de viver confortavelmente na sua terra... 7 – Já ninguém parte com uma mala de cartão… E nem todos cantam… - Não sei se estou inteiramente de acordo com a afirmação. De facto, embora o que mais chame a atenção seja a chamada "nova emigração" de jovens altamente qualificados (um autêntico "brain drain", que devia arrepiar os nossos governantes...), a maioria ainda é muito parecida à do passado longínquo, a tal da "mala de cartão", símbolo de pobreza e falta de bagagem académica e profissional. Em muitos casos, é apenas um movimento sazonal, como revelam as estatísticas oficiais. A presente crise vai ter consequências neste setor, mas não é fácil prever quais. Pode, suponho, travar, conjunturalmente, novos movimentos, sobretudo nas migrações de perfil tradicional, mas, depois, vai depender do ritmo de recuperação no nosso e nos outros países. Certo é, sim, que os candidatos mais qualificados, os médicos e enfermeiros que agora faltam no SNS, os engenheiros, ou os cientistas, encontrarão sempre menos obstáculos... 8 – Foi também um privilégio ter sido vereadora da Cultura de Espinho? Cidade que lhe diz tanto e que adotou para viver… - Foi uma experiência surpreendente. E eu gosto de surpresas - das boas surpresas, é claro... Nunca imaginei que o "governo local" revelasse potencialidades, que não ficavam atrás do governo central - mesmo para quem, como eu, vinha de um pelouro com ação "planetária", sem fronteiras. Não esperava encontrar tanta competência e tanto entusiasmo nos meus colaboradores - os melhores que tive, depois de ter estado em funções em cinco governos da República. Fiquei, contudo, com a ideia de que não será nada fácil encontrar funcionários de tanta qualidade humana e profissional em serviços municipais similares, de norte a sul do País... Aqui em Espinho, sei que me saiu a sorte grande! Era um verdadeiro prazer reunir com as chefias e pensar, em conjunto, o desenvolvimento dos programas culturais, dando continuidade ao que vinha de trás (não eliminei nada, era tudo válido e de qualidade) e preparando novos projetos, exigidos, desde logo, pela comemoração do centenário da República. Não tínhamos dinheiro para nada, mas não nos faltavam ideias e boa vontade . É incrível o que se conseguiu levar a cabo nessas condições, em 18 meses... Sentávamo-nos à volta da mesa redonda, o debate fluía, quando chegávamos ao fim, os projetos estavam totalmente reformulados e eram de todos -já nem sabíamos quem tinha proposto o quê... Dramático foi, porém, neste ambiente tão caloroso, a morte da Drª Isabel e, depois, da Drª Beatriz, duas grandes senhoras - inesquecíveis! Desse quarteto admirável, só a Drª Idalina e o Dr Bouçon continuam em plena atividade na Câmara. Naquele belo edifício da antiga conserveira, que eu sonhava ocupar com uma diversidade de núcleos de animação, como um museu do violino (o Engª Capela propunha-se montar ali uma autêntica oficina de "luthier"), um clube de jazz (com um grande nome à frente), um café, com vista para o mar... Falo do que não aconteceu. O que aconteceu é sabido. Gostei particularmente de dar uma contribuição para pôr "nomes às coisas", às Galerias Souza Cardoso, à Biblioteca José Marmelo e Silva... Se tivesse estado na Junta de Freguesia, lá teria sugerido que a bela galeria do 1º andar, se chamasse "Conde de Ferreira". Nada mais justo, pois o edifício foi doado por ele (para a escola primária) à cidade de Espinho... Compreende-se a reconversão dos edifícios a outras finalidades, mas não o esquecimento dos beneméritos, que em Portugal é a regra, não a exceção. 9 – Mas também tem orgulho em ser da dita terra do nabo e das nozes? Ainda lá estão as origens… É verdade que sim. Até nisso me sinto identificada com os emigrantes, no duplo sentimento de pertença à terra de origem, Gondomar (onde morei apenas dez anos, mas onde a família materna remonta, nuns ramos, ao século XVI e, noutros, ao século XVIII), e a Espinho, que foi o meu paraíso de férias, desde a infância, e que escolhi para viver há mais de 45 anos. No verão de 1950, meus pais prolongaram a estadia na pequena casa de férias da Rua 7, que, há muito, pertencia aos meus bisavós, e eu cheguei a frequentar, ao longo do 1º trimestre, a Escola da Rua 23 . 10 – Em Gondomar não andaria tanto... e tanto a pé como em Espinho… Tem rio mas não tem mar. E o mar de Espinho o que é que lhe diz? Em Gondomar, nem sequer tinha o Douro à vista, porque sou do centro de São Cosme... Mas nasci e vivi com os meus Pais em casa da Avó materna, um casarão, cercado de dezenas de árvores, de todas as formas e feitios, e com um extenso terreno nas traseiras, onde podíamos correr e brincar à vontade. Éramos terríveis, trepavamos às árvores, como se estivéssemos na nossa "selva" privativa, saltávamos das janelas do 1º andar, por cima de roseiras altas... Milagrosamente, nunca nos magoamos. Mas confesso que o mar me fazia falta. Era sempre uma alegria vir para Espinho no verão, os mergulhos nas ondas altas da praia azul, a natação na piscina, o vaivém na Avenida, os cinemas (60 filmes por mês, com a programação do S. Pedro e do Casino)... Que saudades! 11 – Sendo uma fervorosa adepta do Futebol Clube do Porto, já alguma vez sentiu uma indómita vontade de descer da bancada do antigo estádio das Antas ou do novo estádio do Dragão para entrar no relvado e mudar o “o jogo” ou rematar à baliza? Como me compreende!... Fui uma fanática do futebol, desde pequena. De todos os desportos, mas mais do futebol e do ciclismo, por sinal, os mais populares. Agora, sou mais do género "treinador de bancada" e, em vez de querer entrar em campo, o que me apetecia era mandar para lá alguns dos "imortais" que não têm sucessor, como Baía na baliza, Gomes nos remates certeiros, ou Deco a jogar e a fazer jogar... Ou, se fosse um pouco mais atrás, Pedroto, depois Pavão, a darem jogo, e Jaburu a marcar golos. Jaburu, brasileiro de Minas Gerais, como Yustrich, era uma espécie de cruzamento entre Hulk e Jardel - mais Hulk, porque corria, velozmente, o campo todo... 12 – Jogava à bola quando era mais nova? Era tecnicista ou era bola para a frente? - A partir da 3ª classe, tornei-me aluna do Colégio do Sardão, que parecia um colégio inglês, cheio de recintos desportivos, ginásio,"court" de ténis, campos de basquete, volei, andebol. Pertenci às equipas de todas as modalidades (embora sem atingir o escalão da Graça Guedes que viria, depois, a ser campeã nacional de voleibol em Espinho). Só o futebol era proibido às meninas, mas eu organizava jogos clandestinos. Uma ve, fui apanhada e chamada à Mestra.Geral, com muito receio de apanhar o castigo máximo. Mas não, com muita graça, a normalmente severa e temida senhora disse-me;" Não é jogo próprio de meninas, mas como eu sei que és uma apaixonada, vou abrir uma exceção: tu podes jogar futebol, as outras não".. Como organizadora dos torneios proibidos, eu escolhia a minha posição de "avançado-centro" e marcava muitos golos, As minhas colegas ainda hoje dizem que era ótima, mas eu sei que não. Muita energia e velocidade,tinha!. Técnica ou visão do jogo em campo, não... Era, como diz, "bola para a frente". Às vezes, até me perdia e saía com bola pelo retângulo fora.. Note: não me limitava a adiantar a bola, saia, eu também, com a bola no pé... No andebol, o nosso treinador, Edgar Tamegão (o único homem, para além dos padres, admitido, em funções naquele colégio de Doroteias) fez um teste para guarda-redes, e mandou-me logo para a baliza. Aí, era surpreendentemente eficaz, tinha nascido para aquilo, mas não gostava nada... Sentia-me "confinada", na minha área. Para além de jogar, também fazia relatos imaginários, que entusiasmavam as minhas companheiras nos recreios. Nesses relatos, o FCP ganhava sempre, com inúmeros golos, tão gritados, que a pretensa locutora ficava rouca... E é tão feminista?! - Continuo igual ao que fui, sempre. Sabe, a minha avó materna, Maria Aguiar, cidadã e paroquiana muito interventiva e influente, mas extremamente conservadora, passava o tempo a interditar atividades: "uma menina não faz isso!". Não trepa às árvores, não joga a bola na rua, não anda pendurada nos elétricos... E eu pensava: "Mas porque não? Sou tão capaz como os primos, em qualquer dessas brincadeiras". Assim nasceu o meu feminismo. Não é nada contra os homens, é contra os preconceitos. Pela igualdade. - 13 – A igualdade do género ainda conversa de treta nos tempos de hoje? - Para mim, é uma causa pela qual vale a pena lutar, num tempo em que não só tantas discriminações permanecem, como até se começa a negar a sua existência, ou, ainda pior, num verdadeiro retrocesso civilizacional, a justificá-las como sendo boas. Esse discurso de uma extrema direita agressiva e brutal, que grassa nos EUA de Trump e em outras partes do mundo, e já chegou cá, ainda em miniatura, constitui a maior ameaça ao futuro da democracia. Hoje, na Europa, o perigo vem da extrema direita. Antifeminismo, racismo e xenofobia andam a par, como se constata pelo discurso dessa extrema-direita. E têm de ser combatidos com as mesmas respostas, com os mesmos valores humanistas. O feminismo, como eu o vejo, é uma componente do humanismo perfeito, não é um machismo ao contrário. Apela ao bom entendimento e solidariedade entre os sexos, como entre nacionais e estrangeiros. Com esta visão das coisas, depressa compreendi os problemas centrais da emigração, porque defender os excluídos, os marginalizados, sejam as mulheres, os estrangeiros ou os negros, é missão da mesma natureza. 14 – A violência doméstica é sinal primitivo ou da sociedade que vive de aparências, silenciosa e inativa quando o problema é dos outros e de quem sofre? - Certamente que é um sinal primitivo, embora subsista em sociedades que se consideram avançadas. É sempre um sinal de cobardia exercer a violência sobre os fisicamente mais fracos. E é um comportamento inqualificável, qualquer forma de descaso ou a condescendência da parte de quem pode e deve intervir - o Poder. Quer se trate de mulheres ou homens, crianças ou velhos. O mais chocante e recente caso, em Portugal, foi o assassinato de Ihor, um indefeso estrangeiro por agentes do SEF. Chocante, o silêncio das autoridades neste caso, e a demissão da Diretora Geral só agora, dez meses depois. Não foi violência doméstica, mas foi um crime infame no interior de uma sala escondida e fechada, como são os espaços em que, quase sempre, se exerce a violência doméstica. 15 – A política faz parte da sua vida, ou a sua vida é que faz parte da política? - Vou mais pela primeira, no sentido de que a política pode e deve fazer parte da vida de todos nós - a política enquanto atividade cívica, exercício da cidadania... Tenho uma especial admiração pelos que se envolvem na sua comunidade, quer através de partidos, quer pelo trabalho nas instituições da chamada sociedade civil - dirigentes associativos, bombeiros, voluntários das mais diversas formas de solidariedade, seja na emigração, seja dentro do País. 16 – Era uma deputada respeitada por todas as bancadas na Assembleia da República, fosse à direita, ao centro ou à esquerda. E também havia “fait-divers” e momentos de convivência com outros quadrantes partidários? - Fui educada assim, na minha família, onde sempre conviveram os opostos, primeiro monárquicos e republicanos, depois, democratas e salazaristas, anglófilos e germanófilos durante a guerra, filiados ou simpatizantes de vários partidos, após o 25 de Abril. Depois, estudei em Coimbra, onde era normal a convivência entre colegas de esquerda e direita. Eu tinha quadrante ideológico, era Social democrata "à sueca", como Sá Carneiro, e PPD, desde 74, mas independente, sem filiação partidária. E foi isso que, paradoxalmente, em 1978, me levou a um governo de "independentes", chefiado pelo Doutor Mota Pinto. Por isso, depois de aderir ao PSD, em 1980, mantive, esontaneamente, esse tipo de comportamento, quer no governo, quer na Assembleia da República. Sei que não era muito comum, por exemplo, ser mais amiga de Miguel Urbano Rodrigues, do PCP, ou de Carlos Luíz, do PS-emigração, de Paulo Portas e Anacoreta Correia, do CDS, ou de Natália, do PRD, do que da maioria dos colegas de bancada. No hemiciclo de São Bento, em 1981, os meus primeiros debates foram com um especialista de emigração do PCP, Custódio Gingão, que era extremamente aguerrido. Eu respondia no mesmo tom e os nossos despiques eram tremendos! Até que um dia me lembrei de lhe agradecer, a meio de uma intervenção, dizendo que ele me estava a ajudar imenso no meu "tirocínio parlamentar". Era verdade... A partir daí, ficamos amigos, as discordâncias de fundo mantiveram-se, é óbvio, mas o tom esmoreceu bastante, de parte a parte... Histórias não faltam, falta-me o tempo para as contar... 17 – O filme “Snu” trouxe-lhe gratas recordações? - Vi-o mais do que uma vez, na sala de cinema e, depois, na televisão, Como filme é "assim-assim", não fica na história do cinema português, mas a intenção foi boa, é uma merecida homenagem a Snu, bem interpretada por uma excelente atriz e bem retratada (tanto quanto sei, só estive com ela em encontros breves). Já o Dr. Sá Carneiro é, no capítulo político, sem culpas para o ator, muito mal apresentado... Homem firme, capaz de rupturas, como se sabe, reagia, invariavelmente, como mandava uma esmerada educação: sem levantar a voz, com um perfeito controle de si, em qualquer situação. O tom podia ser frio e cortante, mas era, sobretudo, muito civilizado. Ver no ecrã um Sá Carneiro aos gritos, ou a bater com as portas, é inverossímil, é um disparate! Dele é, assim, dada uma imagem completamente distorcida, e ao gosto dos seus maiores inimigos. Estranhei que ninguém do PSD oficial o dissesse. 18 – Para além de Sá Carneiro, também nutria simpatia pessoal por Mário Soares e por Mota Pinto… E era uma das “mães” de Paulo Portas… Sim, e, para completar o quadro, pode acrescentar o General Ramalho Eanes. Sei que todos estes grandes políticos, que tanto admiro, não se admiravam, necessariamente, entre si... Todos democratas, mas trilhando caminhos diferentes, com diferentes programas, estratégias e "timings" para atingir o mesmo fim - frequentemente, em oposição frontal, uns aos outros. Sá Carneiro tinha mais o sentido da urgência, queria uma democracia "à europeia", no imediato, acreditava na capacidade do Povo para a viver livremente, sem a tutela militar do "Conselho da Revolução". O General Eanes, como Presidente, estava à frente do Estado, das Forças Armadas e do Conselho da Revolução, cuja ação via como fundamental na construção progressiva da arquitetura democrática. Estive convictamente com Sá Carneiro e considero que a História lhe deu razão, porque o Povo estava preparado para a democracia, então tanto como hoje... Mas a História, quatro décadas depois, também mostra o General Eanes como um Português exemplar, que, afinal, queria tudo para o País, não para ele próprio. Não agia com um projeto de poder pessoal. Tivemos muita sorte com a qualidade destes "pais fundadores" da nossa democracia (não esquecendo Freitas do Amaral e Amaro da Costa, no quadrante da democracia cristã, centrista e soidária). Já não há políticos com essa estatura! E talvez nunca mais haja tantos, num mesmo cenário temporal. Foi um autêntico "milagre português". Pessoalmente, sentia por Sá Carneiro verdadeira fascinação, considerava Mota Pinto um homem de inteligência fulgurante e de uma imensa generosidade, e Mário Soares um político perfeito. E todos, incluindo o General, tinham uma virtude, para mim muito importante: o sentido de humor! Muito pessoal, em cambiantes muito diversos, mas no mesmo grau elevadíssimo! Com todos mantive um relacionamento amigo e tão descontraído quanto possível, tratando-se de altas figuras da Pátria e sendo todos mais velhos do que eu... Paulo Portas é outro caso, no sentido de que não é um pai, mas sim um filho, muito precoce, da democracia. Conheci-o, em reuniões do PSD, com 14 ou 15 anos, e logo o achei-o um rapaz super inteligente, vivíssimo, encantador. Não era a única das militantes do partido a pensar assim, e, por isso e, quando fui apresentada à Mãe, a Drª Helena Sacadura, não fiquei admirada com essa frase tão divertida: "Sei muito bem quem é. É uma das mães do Paulo!". Tal como o filho, é encantadora. 20 – Qual era o presente que gostaria de receber no Natal? No Natal confesso que prefiro dar presentes a recebê-los. Este ano, espero oferecer a toda a família e a alguns amigos um livro que está a ser ultimado na gráfica - um blogue, com histórias soltas de várias gerações de Aguiares. Um blogue transposto da internet para o papel... 21 – Figuras nacionais que mais admirou e/ou admira? E estrangeiras? No campo político, as personalidades estrangeiras que mais me marcaram foram John Kennedy, Mandela, Trudeau (o pai do atual). Mais recentemente, Hillary Clinton... Portugueses, os que conheci de perto e de que já falei. Fora da política, onde é mais fácil encontrar grandes mulheres, Agustina, Amália, Natália Correia, Maria Barroso (que foi política também, mas não só). E as nossas feministas de novecentos, como Ana de Castro Osório, Maria Archer, Maria Lamas e as "sufragettes" inglesas, lideradas por Mrs Pankhurst (que nunca conseguiu ser eleita deputada, mas tem a sua estátua em frente ao Parlamento mais famoso da Europa). 22 – Quais são os livros preferidos? E os autores que mais aprecia ou quem melhor se identifica? - Tenho muita dificuldade em responder a esta questão, porque não há, para mim, uma predileção por um género literário que exclua os outros... Gosto de biografias e autobiografias, políticas ou não (li há pouco a de Woody Allen, vou começar a de Obama, sobre a sua presidência, e tenho em lista de espera a de Virginia Woolf, 1927/41). Também sou fã de livros policiais - Agatha Christie, Ruth Rendell, Sara Paretsky e outras -falo, assim, no feminino, porque é uma área hoje, surpreendentemente, dominada pelas mulheres... E de romancistas, os do passado, mais Eça do que Camilo, mais Marmelo e Silva do que Vergílio Ferreira, e os mais recentes, como Mário Cláudio ou a incomparável Agustina. Brasileiros como Luís Montello e Érico Veríssimo, e os da língua inglesa, a minha língua estrangeira favorita. São tantos! Ultimamente, ando entretida a ler Alice Munro, Julian Barnes, Philip Roth... Desde que abriu a Bertrand em Espinho, tenho os cantos da casa cheia de livros novos, em fila, à espera de vez... Comprar também é um prazer! 23 – E quais são os filmes da sua vida? E ainda vai ao cinema, mas sem pipocas… - A minha geração, como a dos meus pais e avós, ainda tem a paixão pelo cinema (e sem pipocas ...). Sou, aqui em Espinho, uma das pessoas mais assíduas nas sessões da tarde do Multimeios. Para dar uma resposta breve, direi que vejo tudo, só evito ficção científica e terror. Tenho muitos"filmes da minha vida"... de Orson Welles, de Ingmar Bergman, da "Nouvelle Vague" da minha juventude, Godard, Truffaut, Agnès Varda... Italianos, também. Revi agora, há pouco, os de Fellini na televisão. Mas o meu género preferido é, definitivamente, a comédia e o realizador Woody Allen... 24 – Quem é ou foi (ou é) o melhor treinador e o melhor futebolista? - Esta é uma pergunta de resposta mais fácil no que respeita a treinador do que a jogadores. Treinador: Yustrich! Venceu o primeiro campeonato da minha vida, em 1956, contra tudo e contra todos, e ficou para sempre no coração dos portistas dessa geração. Eu estava nas Antas, com o meu Pai (éramos ambos sócios), no jogo final e decisivo contra a Académica, que "pôs o autocarro em frente da baliza"! Tinha quase 14 anos... Sofri muitos desgostos, na fase anterior a Pinto da Costa. Jogadores fantásticos, são tantos! Se tenho de indicar um , só pode ser o DECO, o nosso Maradona. Genial

A BOLHA CÍVICA QUE SALVOU O PORTO

A "BOLHA SANITÁRIA" ESPONTÂNEA QUE SALVOU O PORTO Estado de calamidade na democracia Este extraordinário país que é o nosso, não pára de nos surpreender, em tempos de pandemia - ora somos os melhores, ora os piores da Europa (ou do mundo), sem perceber exatamente como nos desviamos, num instante, do caminho virtuoso ou, como, depois de bater no fundo, conseguimos recuperar tão depressa. Uma espécie de "montanha russa" que sobe e desce vertiginosamente, sob impulso de forças misteriosas... Longos meses vivemos em "estado de emergência", demasiadas vezes renovado, transitando, sem respirar os ventos das liberdades constitucionais, para o chamado "estado de calamidade", que em bom português parece coisa pior, mas juridicamente não é. A fundamentação para, deste modo, "suspender" a democracia plena era "salvar vidas" e impedir o colapso dos serviços de saúde. Diziam-nos, até há pouco, autoridades políticas, sanitárias, científicas (e outras que a Covid 19 revelou), que nenhuma dessas fatalidades era doravante provável. Porém, com a emergência de novas variantes e um razoável, ainda que insuficiente, ritmo de vacinação, já alguns políticos ou especialistas começam a vacilar.... O risco ressurge, a espaços, no vaivém de confinamentos radicais e desconfinamentos levianos, e, com ele as restrições, muitas delas sem qualquer lógica ou rigor, o que tem um tremendo significado, em termos juríco-constitucionais e democráticos. A fronteira entre o uso e o abuso do poder de cercear liberdades, direitos e garantias dos cidadãos é delimitada pela racionalidade das medidas, pela procura de uma rigorosa proporção, que assegure a igualdade de tratamento das pessoas e das situações. Apesar de um sem número de exemplos de desnorte e arbitrariedade, em especial da parte da DGS e da Ministra da Saúde, os portugueses tudo foram suportando, com infinita paciência. O principal partido da oposição, por seu lado, escusou-se a denunciar erros e omissões, ou a apontar alternativas, e a elite dos nossos constitucionalistas assistiu, impávida e muda, à "radicalização" da DGS, sem nela vislumbrar ameaça à qualidade da democracia. Talvez por melhor conhecer a matéria, e melhor distinguir o essencial e o supérfluo no combate à crise Covid, foi um médico, académico e especialista de saúde pública, Adalberto Campos Fernandes, antigo Ministro da Saúde de António Costa, e não um homem de Leis, o que primeiro ouvi a alertar para o desgoverno, a ultrapassar a tal fronteira de razoabilidade, e, por isso, a colocar em questão o "Estado de Direito".... Na verdade, exige este a justificação dos normativos e ditames, em bases científica, racional, pragmática, que as autoridades se têm mostrado incapazes de aduzir. No ponto a que chegámos, é crucial, como disse o ilustre ex-Ministro, simplificar medidas, que as pessoas compreendam, e sair de uma espiral de constradições - lembremos as contantes e absurdas alterações dos horários de lojas, restaurantes, espetáculos, discriminação de uns setores face a outros, e até de cidadãos nacionais perante estrangeiros. Vimo-nos emparedados, vigiados, com acesso vedado a igrejas, funerais, cemitérios, areias da praia e vistas de mar (mesmo em dias invernosos), passeios de carro, cafés, recintos desportivos... Na memória das curiosidades do ano louco de 2021 fica o caso de uma senhora multada pela polícia por comer uma sanduíche dentro do seu próprio carro, a proibição de beber água no espaço público, de enfeitar janelas ou montras de lojas e restaurantes, com flores de papel, e de vender vasos de manjerico na véspera do S João (aconteceu em 2020, este ano parece-me que a proibição da festa-convívio, já não se estende a inertes objetos decorativos...). Por sorte para os responsáveis por este "policiamento de costumes, símbolos e imagens", o ridículo não mata! A revolução mental de maio de 2021 A gota de água que despertou no povo a consciência da discriminação inconstitucional e aberrante foi a realização da final da "Champions" no Dragão, com uma assistência de mais de 16.000 ingleses na precisa altura em que 500 portugueses eram proibidos de entrar no Estádio do Jamor, para uma final de râguebi, depois de idêntica interdição ter atingido a disputa da Taça de Portugal de futebol, em Coimbra. Os prenúncios de viragem, contudo, já vinham de trás. Podem datar-se, com precisão, na noite verde e branca, que tumultuou as ruas da capital, em pleno gozo da liberdade de estar ludicamente, à vontade como dantes, no espaço público. Na esfuziante festa do SCP foi muitíssimo mais compacta a multidão de adetos portugueses, do que a dos britânicos no Porto... mais numerosos, também, os desacatos, e mais violenta a repressão policial - brigas de bêbados, é sabido, são rituais lisboetas de celebração de campeonatos, ao contrário da tradição portuense de festejar vitórias em ambiente de São João convivial, que dispensa a vigilância das forças da ordem. Com este gigantesco ensaio de "desconfinamento total" se inaugurou, sem sombra de dúvida, a já chamada 4ª vaga pandémica. Os responsáveis pelo surto aí desencadeado foram, em primeira linha, o Presidente da Câmara de Lisboa, a incontornável DGS a a Ministra que é suposto tutelá-la (difícil é, de facto, saber quem tutela quem...). Porém, os três têm conseguido, com a cumplicidade dos "media" da capital, (sobretudo das televisões), rodear de cúmplice silêncio a sua ação ou omissão no evento de consequências catastróficas, deixando no terreno a arcar com culpas, pelo menos neste caso alheias, o badalado Ministro Cabrita e a polícia. Do acontecido nessa noite só poderão ser inocentados os adeptos sportinguistas, acima de 100.000, que andaram irmanados em cânticos e abraços, pelas ruas, até às 4.00 da madrugada, porque a isso foram encorajados pela agenda autorizada de festejos, que incluiu ecrã gigante para fãs às portas de Alvalade e passeio do autocarro dos campeões por avenidas pejadas de "manifestantes" ( na sua esmagadora maioria muito pacíficos) até às 4.00 da madrugada. O escândalo de Lisboa foi desvalorizado, de mediato, na narrativa oficial e assumiu contornos de coisa menor, caseira, olhada benevolentemente... sem por isso deixar de ser a origem de um "super contágio" (para usar a expressão do sportinguista Paulo Portas), potenciado, nos dias e semanas seguintes por uma juventude à solta, na noite dos bairros populares, já sem qualquer ligação à adrenalina do futebol. A desgraça logo se abateu sobre o turismo, começando com o governo britânico a banir-nos da sua "lista verde". O Algarve e os emigrantes portugueses do Reino Unido foram os primeiros a pagar, assim, o preço dos folguedos consentidos pela DGS e pela edilidade de Lisboa, contra o avisado parecer da polícia. Vem agora, a Srª Merkl chamar a si o julgamento de mais um retrocesso português, atribuindo culpas à UEFA a aos ingleses, como se a final da Champions o tivesse desencadeado. Engana-se a ilustre senhora- ou foi enganada pelas manchetes que, cá dentro, fizeram opinião! Deveria, antes de discursar, ter estudado a cronologia e o mapa geográfico da pandemia nacional. "Facta": o agravamento deu-se logo na segunda metade de maio, não em junho, e com epicentro em Lisboa, a 300 quilómetros do local de ajuntamento de adeptos ingleses. No Porto, onde realmente estiveram, não deixaram rasto da variante nepalesa!... Aqui, a norte, os números não subiram após o 29 de maio, e, decorrido um mês, continuamos a ser a zona que, no continente, melhor resiste à mutação Delta, largamente predominante a sul. É de lá, onde não houve "Champions", que vai, fatalmente, estender-se ao país inteiro! Alguém deveria informar dos factos a chanceler alemã, iludida pela "portofobia" que grassa a sul, e, quicá, levada pela sua própria anglofobia. Assim se somam fobias, preconceitos e demagogia política, que não é exclusiva dos nossos Costas e dos nossos Rios.... Concedo que o Porto foi colocado em risco pelo governo, com o absoluto falhanço da "bolha sanitária", com tanta ligeireza, prometida à cidade. Mas o milagre aconteceu e a cidade não foi contaminada. Não se tratou de milagre divino. O Porto foi salvo pelos portuenses, pela "a bolha cívica" que souberam manter, (sem precisar de conselhos das doutoras Merkl, Freitas e Temido) isolando os ingleses na Ribeira, na Avenida dos Aliados, na inteira urbe - não se misturando com eles, não participando em bebedeiras e desacatos. Em vão, o "Expresso", jornal sulista e elitista e, de vez em quando, sensacionalista, fizera nas vésperas do jogo, notícia com foto grande e manchete de 1ª página, profetizando "confrontos entre "adeptos ingleses e do FC Porto". No interior, dedicara, quase integralmente, a sua página 5 a uma crónica, cujo título sintetiza bem o conteúdo: "Alerta para confrontos entre "casuals" do FCP e hooligans antissemitas". Na edição seguinte, o prestigiado semanário esqueceu-se de referir o admirável comportamento dos portistas e dos portuenses, tal como o dos espectadores britânicos, que emolduraram o retângulo de jogo na grandiosa final. Fora do estádio, a história foi diferente, semelhante à da Albufeira e outros destinos turísticos algarvios - ou seja, muita cerveja consumida na via pública, nada de máscaras, pequenas escaramuças de fãs embriagados. Quanto a antissemistismo, manifestações de extrema direita, rivalidades clubísticas luso-britânicas e outras pragas profetizadas, nada, nada mesmo!... Só ingleses, na sua maioria tranquilos e encantados com a bela cidade e o fantástico feito desportivo. Em suma: chegaram juntos, e juntos partiram, levando consigo o vírus nepalês. Escreveu-se direito por linhas tortas e a maior vitória foi a do Porto, graças ao civismo da sua gente! Proibir, sem mais, ou permitir, com regras, eis a questão... O que mais chocou os portugueses, e desacreditou irremediavelmente, a autoridade irracional e despótica a que temos estado sujeitos, foi o a discriminação dos portugueses, tratados abaixo de estrangeiros no seu próprio país. Um despertar de consciências, um sobressalto cívico, provocado pela dualidade de critérios, que se sentira, ao longo do ano e de toda a época competitiva, discriminando o desporto ao ar livre, e, em especial, o futebol (profissional, amador ,e até o de formação!) em comparação com eventos culturais programados em espaços fechados. A desobediência em massa às regras draconianas postas em vigor, perante a passividade da polícia, tanto em Lisboa como no Porto, estimulou resistências, fomentou a desobediência - tanto ao que é regulamentação excessiva, como ao que é legítimo exigir (uso de máscara e distanciamento físico qb) - neste último aspeto, infelizmente.... E, assim, a lição que fica deste mês de maio 2021, em Portugal, não vem da "guerra fria" de alemães contra ingleses, ou da "guerra sul-norte", com o futebol em fundo, mas do falhanço do "proibir, proibir, proibir", em vez de esclarecer as pessoas, e organizar competentemente a abertura de zonas convívio e lazer (como vai fazendo Rui Moreira...). A Champions foi a prova provada desta verdade elementar! È nteressante que os melhores exemplos tenham vindo do futebol, (o setor mais diabolizado pela DGS): dentro dos estádios, sempre que a título excecional, foi permitida a presença do público, tudo se passou, invariavelmente, na perfeição! O que correu mal, em Lisboa e no Porto, com portugueses ou com ingleses, ocorreu fora, desafiando, impunemente, proibições.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

DANÇA DE CADEIRAS EM ANKARA Uma questão de género, de protocolo e de boa educação 1 - Estas três questões não andam necessariamente entrelaçadas, mas, quando isso acontece, a mistura pode tornar-se explosiva... O chamado "sofagate" é exemplo dessa confluência, que provocou uma tempestade política perfeita. Envolveu, como é universalmente sabido, dois homens e uma mulher - um triângulo formado por Erdogan, muçulmano retrógrado, que, a partir de Ankara, lidera hordas de assalto aos direitos das mulheres (e a outros direitos democráticos), Charles Michel, o Presidente do Conselho Europeu, ex-primeiro ministro belga, (que a ele se aliou, infringindo os tríplices cânones), e Ursula von der Leyen, a primeira mulher a presidir à Comissão Europeia, uma conservadora do PPE, vinda do governo de Angela Merkel. Pormenores relevantes: a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu, têm, precisamente, a mesma categoria protocolar:e, em visitas anteriores, quando os dois altos dirigentes da UE eram do sexo masculino, sempre houve, na sala de reunião, três vistosos cadeirões dourados para os três presidentes da cimeira, e dois modestos sofás paralelos para figuras menores, discretos acompanhantes. Desta feita, o Protocolo de Estado providenciou apenas duas cadeiras de honra, que o sultão turco e o liberal belga se apressaram a ocupar, como fazem os contendores numa dança de cadeiras, deixando Von der Leyen ignorada, solitária, em pé, por alguns momentos, que pareceram uma eternidade e foram difundidos no mundo inteiro. Entre abandonar o encontro, pela porta grande, ou remeter-se a um lugarzinho secundário, ela escolheu acantonar-se no sofá, que, assim, entrou para a história, pelo menos para a "petite histoire".. Nas conversações, talvez muito estivesse em causa, pesando na decisão da senhora - em foco ou na sombra, nomeadamente o tenebroso acordo para a retenção de refugiados do Médio Oriente e Norte de África, em solo turco, pago, a peso de ouro, pela UE, contra a letra e o espírito do Direito humanitário, do Direito de asilo... Coisa inédita, a Presidente Von der Leyen, dirigiu-se, dias depois, aos deputados do Parlamento Europeu e denunciou a discriminação sexista de que tinha sido alvo. Erdogan, tendo atingido, em pleno, os seus objetivos, planeia os próximos passos, numa imparável escalada ditatorial, enquanto o Senhor Michel, aliado de ocasião, se desfez em desculpas esfarrapadas, receando perder a reeleição em 2022 , talvez, como já se aventa para um proeminente socialista português... 2 - O Protocolo lida, em princípio, com a hierarquização institucional - ou, como no caso de Ankara, com a paridade. Por isso, a infração às suas regras ofende, em primeira linha, as instituições, não tanto os seus representantes. Todavia, numa conjuntura marcada pela rompimento turco da Convenção destinada a proteger as mulheres contra todas as formas de violência - j um convite de Erdogan à violência contra as mulheres do seu país - a grosseira discriminação da Drª Von der Leyen assumiu um caráter eminentemente político, misógino e pessoal. Foi um recado para dentro, e um manifesto para fora. E foi, igualmente, um atentado aos nossos valores conviviais e aos princípios da boa educação, que nos mandam dar precedência cerimonial aos mais velhos, às senhoras, a trajetos de vida especiais. Neste plano, o belga conseguiu descer tão baixo quanto o seu parceiro do "sofagate". Um comportamento sem perdão, porque infringiu o protocolo no pior sentido. Um homem muito civilizado é aquele que faz precisamente o contrário, permitindo-se inverter a gradação hierárquica, em benefício das boas maneiras. Há feministas que encaram mal quaisquer gestos de cortesia e, em nome da igualdade, preferem ver um homem passar à sua frente em todo o lado, ou ocupar um assento, enquanto elas aguardam a sua vez, a pé firme. Não perfilho essa doutrina, admitindo, de bom grado, o relacionamento cerimonioso de homens para mulheres, ou dos mais novos para com os mais velhos... É certo que, em atos oficiais, é normal ver reis ou presidentes deixarem as esposas em segundo plano, na sua condição de ungidos ou eleitos. E, neste século XXI, ano 21, ainda causa espanto, se não desconforto, a inversão dos papéis, quando os consortes são do sexo masculino - e isso foi trazido à ribalta, recentemente, por altura do falecimento do Príncipe Filipe (matéria que mereceria comentário desenvolvido, pois, a meu ver, ele desempenhou o papel, de forma, a todos os títulos, paradigmática). Uma admirável exceção à regra de deixar na retaguarda as consortes femininas, a que eu mesma assisti, no hemiciclo do Conselho da Europa, teve por protagonista o Rei Hussein da Jordânia. Era deveras surpreendente, que um monarca daquela região do mundo, para um discurso e debate com deputados da Assembleia, se fizesse acompanhar de sua mulher, a belíssima Rainha Noor. Foi brilhante o discurso que proferiu, mas ler um bom texto está ao alcance de qualquer um... Responder, de improviso, com mestria e profundidade, a perguntas que livremente lhe foram colocadas, já não era para qualquer um... O Rei Hussein foi o melhor orador que ouvi, no Palácio da Europa, ao longo de treze anos de sucessivos mandatos. E mais impressionada do que com o debate, fiquei ainda com o facto de, ao sair do hemiciclo, ter dado precedência à sua Rainha e caminhar um passo atrás dela. 3 - Andou bem Ursula von der Leyen, quando suportou ser destratada pelo protocolo turco? Talvez sim, talvez não... Para avaliar a sua atitude, seria, como disse, necessário saber exatamente o que estava a tratar, em conjunto com o Sr Michel. Falo por experiência própria, porque já me vi numa situação, que, embora sem a mesma visibilidade, teve contornos algo semelhantes... O incidente de que fui vítima aconteceu na capital da Austrália, no ano de 1996. Ali me encontrava como deputada eleita pela emigração, a visitar comunidades portuguesas. Era Embaixador um excelente e amável diplomata de origem goesa, Zózimo da Silva, e estava na ordem do dia a problemática dos refugiados timorenses, recém-chegados a Darwin, e espalhados pelo país, às dezenas de milhares. Português de origens orientais, o Embaixador tinha uma especial sensibilidade para os dramas humanos de uma descolonização, que foi, de todas, a mais sangrenta, (não às mãos do colonizador multissecular, mas do invasor indonésio, reconhecido, como nova potência colonial pelos EUA, pela Austrália e outros países ditos democráticos, que, assim, pactuaram com o verdadeiro genocídio dos resistentes timorenses). Transmitiu-me o Dr Zózimo o convite do Ministro do Interior, que insistia em reunir comigo sobre um bizarro plano seu de reencaminhar para Portugal todos os refugiados, a pretexto de lhes ser, por nós, reconhecida a nacionalidade portuguesa. O Ministro chamava-se Ruddock e era um conhecido líder religioso - se não fanático, pelo menos devoto cristão, não católico. Sempre pronta a bater-me por este povo irmão (tendo sido já peticionária no Comité de Descolonização da ONU, a pedido de uma organização timorense), aceitei o repto. O Embaixador, que mantinha com o Ministro Ruddock um relacionamento difícil, colocou-me a alternativa de ir, ou não, comigo. Ambos concluímos que a sua presença não facilitaria o encontro, para o qual avancei com o nº 2 da Embaixada. Entrei na sala e deparei com o Senhor Ministro, ostensivamente sentado, "grudado" na sua cadeira! Nunca tal me tinha sucedido. Senti a afronta, mais ainda por ser mulher, embora convencida de que aquele australiano rude, ao contrário do déspota turco, faria precisamente o mesmo a um deputado homem... (do mal, o menos!). Em qualquer caso, grande foi a tentação de virar costas e bater com a porta... Por segundos hesitei, mas logo senti que era melhor ficar, dizer o que queria dizer sobre Timor-Leste... e dizê-lo com uma raiva fria e controlada. Aparentemente, Ruddock esperava tudo menos o tipo de agressividade polida e, ainda por cima, feminina, com que encetei a conversa. O meu fio da argumentação não diferia do do Embaixador Zózimo: Portugal, de braços abertos, receberia todos os timorenses, que estavam na Austrália, todos sem exceção, mas por livre vontade de cada um, não por ditames de um governo estrangeiro. A nacionalidade portuguesa não era imposta, antes incondicionalmente atribuída, a pedido, como frisei. Durante mais de meia hora, dissecamos factos históricos e conceitos jurídicos, e a cada minuto decorrido, eu sentia que ganhava pontos, porque a razão e a moral estavam do meu lado - do lado timorense! Não sei, ao certo, quando o ambiente pesado cedeu a uma gradual cordialidade, passando eu a apelar aos valores cristãos do cidadão Ruddock. (não tomei notas, infelizmente, nunca tomava... o jovem diplomata, a meu lado, sim, e essas existirão, ainda, nos arquivos da chancelaria de Camberra). Lembro-me de, à despedida, sorridente, exortando o devoto governante a "ganhar o céu, ajudando os timorenses"!.... Ele, não menos sorridente, levantou-se do seu assento e acompanhou-me à porta, como era sua obrigação.... Uma história com "happy end", sem contornos sexistas, em que um pecado protocolar foi revelado, pelo arrependimento do pecador, e a civilidade acabou por prevalecer. E, mais importante ainda, os direitos dos refugiados, também. Tudo, afinal, nas antípodas do "sofagate", e não só geograficamente!.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Entrevista As A entre as L - na íntegra

Este ano o Encontro da AEMM tem como tema geral "Expressões femininas da cidadania". Que aspectos esperam abordar a partir desse "mote"
As muitas faces femininas da cidadania!
Os direitos e a prática da cidadania, no caso particular das mulheres da Diáspora, têm estado no centro das iniciativas da AEMM, desde o seu início, há 20 anos. Cidadania no sentido mais amplo do conceito. E são as suas formas várias de exercício que consideraremos, ao longo do Encontro, passando da política e do associativismo, para a iniciativa empresarial, ou para a afirmação do “feminino” no espaço da cultura" – onde, aliás, o feminismo nasceu, em Portugal, com o envolvimento de notáveis escritoras e jornalistas. Não as esqueceremos, sobretudo as que foram emigrantes. As primeiras palavras serão  para Maria Lamas, que viveu a dolorosa experiência do exílio, em Paris. Uma cidadã exemplar, que faria neste mês de Outubro, 120 anos.
Sabemos que a emigração feminina, ainda hoje, é muitas vezes tratada num capítulo aparte, como que num pequeno compartimento isolado de uma casa grande. Neste congresso, pelo contrário, queremos olhar a evolução do fenómeno migratório actual a partir da história ou das histórias de vida das mulheres, da sua capacidade de afirmação e de influência nos destinos que partilham com os homens, nas comunidades portuguesas do estrangeiro.
E queremos não só traçar as grandes linhas do movimento, da marcha colectiva para o futuro, mas também revelar os rostos da mudança, as individualidades que se destacam em diferentes domínios. O que poderemos designar por "mulher excepção", com o fenómeno migratório como pano de fundo. Para combater estereótipos ultrapassados ou que é preciso ultrapassar.
Ouviremos, sem dúvida, muitas narrativas de vida mobilizadoras para outras mulheres, para as mais jovens... Mas é importante não tomar a parte pelo todo, a excepção pela regra. Isto é, não esquecer as discriminações que permanecem. para uma maioria..
Provavelmente, em muitos casos se aventará um "e se não fossem emigrantes?". As respostas serão, necessariamente subjectivas, mas nem por isso menos significantes de uma visão do país e da diáspora, num confronto dinâmico... A terra pequena que se deixou pelo espaço largo onde se fez caminho e êxito..."A terra do chiculate" - para citar o título de um livro de Isabel Mateus, que virá de Londres para o Encontro…
  O primeiro tema do debate será "Mulheres Migrantes na política -um princípio de paridade". Há paridade nesta área, ou procuram aqui denunciar a falta dela?
 Paridade não há em Portugal, e poucos são os países onde existe. Digamos que vai havendo, em alguns domínios. O mundo é ainda feito de repúblicas dos homens - veja-se o retrato de uma cimeira europeia ou mundial de governantes, ou a relação dos prémios Nobel, ou a lista dos mais ricos do planeta...
 A paridade é uma utopia …mas temos de acreditar que, um dia, deixará de o ser, usando os meios possíveis para alcançar a igualdade, acompanhando o processo no seu curso, denunciando discriminações, oferecendo paradigmas de direito comparado, aperfeiçoando e fazendo cumprir regras jurídicas… Cuidando das boas práticas
 A emigração tem sido, contra o previsto e o previsível, um factor de mais igualdade entre géneros, pelo menos no caso português. Mas, sem dúvida, mais no campo da cultura do que no da política, ou em qualquer outro – um firme sinal de esperança para mutações profundas da sociedade, que só podem começar neste domínio.
O enfoque na questão cultural não esteve nunca ausente das nossas preocupações, mas tornou-se cada vez mais central, como veio evidenciar o Encontro Mundial da Maia, em 2011. Quando aí ouvi o deputado Paulo Pisco afirmar que nas nossas comunidades a mulher já igualou o homem nesta área, não só concordei, como antevi que nas reuniões seguintes essa “primeira igualdade” seria muito referenciada, como alavanca das demais…
A Lei da Paridade foi uma medida positva para ajudar à igualdade entre os sexos?
A Lei procura cumprir o princípio da Paridade, de uma forma modesta e gradual – garantindo, para já, apenas um mínimo de 1/3de cada um dos sexos nas listas eleitorais.
Num país onde os partidos, são estruturas herméticas – tradicionalmente inacessíveis às mulheres – foram os partidos mais fechados os que mais se opuseram às novas regras… Ninguém ousará desafiar o princípio em abstracto, mas são muitos, no campo conservador, os que contestam os meios de o impor em concreto, por força da lei
O veto do PR à força vinculativa da ordenação “paritária” das listas - foi um primeiro sinal de desconforto...E a relutância dos partidos mais conservadores em a respeitar inteiramente e, mais ainda, em ir além dos mínimos assegurados, é um entrave a uma autêntica paridade. Mas, mesmo assim, a lei tem mostrado eficácia, assegurando uma maior participação das mulheres. É imprescindível que se mantenha.
Alguns criticam-na por "fabricar" artificialmente a igualdade. Eu julgo que os partidos políticos, a começar pelas  organizações da juventude. pelas chamadas "jotas" , é que, de uma forma artificial, sem olhar a  capacidade de trabalho, em regra, promovem os amigos e marginalizam as mulheres...  Por isso, "quotas" não põem em causa o mérito,  antes abrem portas a quem se presume ter méritos iguais aos privilegiados do interior das fortalezas partidárias. As quotas são, assim, uma fenda na muralha... 
 Neste painel do Encontro, os obectivos principais serão os de confrontar experiências de outros países e de conhecer o brilhante trajecto das primeiras portuguesas que fazem carreira política nos países de destino.
 Quem são hoje as mulheres da diáspora?
 Agora, como no passado, mulheres de coragem, e de trabalho, também. O seu papel e a seu relevo no quadro global das migrações não será muito diferente, hoje, do que era na segunda metade do século XX - a percepção que deles se foi ganhando é que é mais ajustada às realidades. Primeiramente, devido a investigação científica, a estudos pioneiros, como, por exemplo, os de Engrácia Leandro, em Paris, na década de 90, depois, também, graças a uma maior atenção por parte dos “media”, dos políticos, das próprias organizações das comunidades - tradicionalmente um espaço de direcção exclusiva de homens.
A emigração revelou-se uma via inesperada de emancipação para um sem número de mulheres portuguesas, no seu trânsito de uma sociedade rural para meios urbanos, onde aproveitam a influência de novos paradigmas de relacionamento familiar e, sobretudo, da autonomia pessoal que lhes dá o acesso a trabalho remunerado ( às vezes mais ou melhor do que o do marido)...
Actualmente dá-se muita visibilidade a um novo perfil de mulheres emigrantes, mais qualificadas e independentes -  as que partem por sua conta e risco e que estão conhecendo o sucesso profissional noutros patamares.
 De todas, das primeiras gerações, aparentemente mais conformistas, e das jovens, em regra, mais audazes e conscientes da sua competência profissional, se faz o mundo da emigração feminina, cada vez mais complexo e heterogéneo.
 Todavia, apesar de progressos que se registam, a esfera da emigração feminina permanece ainda relativamente opaca ou periférica. Daí a preocupação da AEMM de chamar a estas Encontros de âmbito internacional, tanto investigadores universitários, como emigrantes que, elas próprias, pelo seu percurso de vida, combatem os tradicionais estereótipos do “segundo sexo”.
  
Os  problemas da mulheres migrantes são muito diferentes hoje?
No passado, as mulheres saiam para reunificação familiar, agora não necessariamnte. Não em muitos casos .
Mas a história que está a acontecer só vai ser feita dentro de largos anos... Temos, é certo, a lição de experiências concretas, de ciclos sucessivos de grandes êxodos, e podemos, até certo ponto, extrapolar, avançar hipóteses -  mas certezas não há. Até o facto de a emigração, tanto feminina como masculina, ser, em média, mais qualificada, pode degenerar em sentimentos de frustração, se não forem devidamente aproveitadas as capacidades de cada um – ou da cada uma. E esse é um risco a ter em linha de conta para um número significativo de novos emigrantes, ao menos numa primeira fase. Conhecemos muitos casos concretos, embora com a esperança de que consigam fazer valer os seus títulos académicos, ou o seu estatuto profissional, no médio e longo prazo.
Estamos, pois, colocados perante um crescendo avassalador de um fenómeno a que nos habituámos, ao logo de séculos. Mas não nesta dimensão! E não em democracia... Muitos políticos tinham já profetizado o fim dos tempos da nossa  emigração. Enganaram-se...
Este êxodo é  um tremendo  indicativo de descrença no futuro do País, é uma  fuga colectiva ao descalabro em que nos sentimos mergulhados... Vão todos, os mais e os menos qualificados,  tradicionais e  novos perfis da emigração portuguesa, mulheres e homens… Jovens, muitos jovens, que talvez não voltem nunca…Só não se vão ainda mais,  porque não podem, travados por crises alheias - porque a Europa não vive um "boom" económico, como acontecia em sessenta, no tempo do "salto"...
Esperemos que à nova emigração corresponda um novo associativismo, ou uma renovação do antigo. Sem  essas estruturas organizacionais, os emigrantes  dispersar-se-ão e poderemos perde-los para o todo nacional... São problemas, interrogações que tentaremos colocar em agenda, sem conhecer antecipadamente respostas, com o propósito de  saber mais e de ajudar na procura de soluções.

Componente cultural continua a ser uma aposta destes Encontros, especialmente nas Artes plásticas Encontram nesta área em concreto mais necessidade de intervenção?
As iniciativas que a AEMM desenvolve, num ano de comemorações (que é sempre, sobretudo, um ano de especial reflexão, retrospectivamente e prospectivamente) vão continuar a ter um enfoque especial nesta componente – que não sendo a única, é, porventura, a mais marcante – por várias razões, que levaria tempo a enumerar exaustivamente. Refiro apenas algumas: em primeiro lugar, o facto da ligação das comunidades a Portugal se originar e se fortalecer  no seu âmbito, com o ensino da língua e o culto das tradições, das artes, da música, do teatro, da dança, no quadro de um associativismo omnipresente. Depois, a evidencia de que as mulheres estão, quase sempre, à frente dos projectos e acções, neste domínio, directa ou informalmente. E a certeza da importância estratégica do chamar a atenção para esta realidade, reconhecendo o seu mérito e incentivando a sua plena afirmação, aos olhos da comunidade e do País. O que significa não só valorizar o trabalho feito pelas pioneiras, como também abrir portas a outras mulheres, nomeadamente à frente das organizações das comunidades. Fala-se muito em crise no dirigismo associativo e as mulheres podem ser a melhor resposta à falta de voluntários…De preferência, em paridade, que é um apelo à colaboração e ao diálogo de género e de geração -  logo, uma virtude.
Preocupações de sempre....
Já, pelo contrário, o acento nas Artes Plásticas é coisa mais recente, e, faço questão de o salientar, muito fica a dever-se à Drª Nassalete Miranda, que foi a impulsionadora e a comissária da 1ª exposição colectiva de Mulheres, realizada em 2011, durante o Encontro Mundial na Maia.
O lugar cimeiro das artes na nossa Diáspora pertence a grandes nomes femininos – Vieira da Silva, Isabel Meyrelles, Paula Rego… Há que partir à descoberta de mais talentos, de mais Artistas.
Uma nova colectiva será inaugurada durante o Encontro de Lisboa, reunindo pintoras da Diáspora e outras cujas obras têm corrido o mundo.
São iniciadas no EncontroMundial as comemorações dos 20 anos da AEMM. Há outras acções previstas?
Este Encontro de Outubro dá continuidade a um primeiro Colóquio, que teve lugar em fins de Maio, em Espinho, no contexto da II Bienal Internacional “Mulheres d’Artes, com a participação do SECP  Dr. José Cesário. O tema foi “Migrações e artes no feminino” . Nas belíssimas galerias do museu de Espinho, mais de 200 convidados. Para um olhar sobre inter influências culturais, sobre a especificidade (ou não) do feminino na arte, e, também, sobre percursos de vida muito concretos… com inesquecíveis introduções das Professoras Ana Gabriela Macedo, da Universidade do Minho e Isabel Ponce de Leão, da Universidade Fernando Pessoa
Esse colóquio foi seguido, em Agosto, de um Encontro, na mesma Bienal e na mesma linha de análise e diálogo, com estudantes dos cursos de língua portuguesa da Professora Deolinda Adão, nas Universidades de Berkeley e S. José (Califórnia) e de alunos finalistas das Escolas Secundárias de Espinho.  Muito vivo, muito participado!
Ainda este ano esperamos organizar um terceiro Colóquio sobre “As Mulheres na Carreira Diplomática” . No Brasil, abrirá uma nova Delegação da AEMM, por iniciativa da Dr.ª Berta Guedes, que foi candidata à Prefeitura dessa cidade, nas últimas eleições. E, finalmente, em Dezembro, esperamos lançar a publicação das actas do Encontro Mundial.
O que pode adiantar sobre as ASAS, Universidades Seniores?
A criação de Universidades Seniores nas comunidades foi um desafio que a Doutora Graça Guedes lançou em Joanesburgo, em 2008, durante os “Encontros para a Cidadania”, apresentando o exemplo da US de Espinho. Hoje, na África do Sul, por iniciativa da “Liga da Mulher Portuguesa”, as US são uma realidade nas principais comunidades portuguesas do país!
Em 2012, levámos a vários colóquios, na Europa e nas Américas, o projecto de um modelo menos ambicioso, mais próximo da “tertúlia – animação cultural” : as “ASAS” – Academias Seniores de Artes e Saberes.
 Para já, estão em funcionamento, as ASAS em Villa Elisa, (junto a Buenos Aires), com direcção de Violante Martins, fundadora da Mulher Migrante Portuguesa da Argentina, e no Canadá, com a orientação da Profª Manuela Marujo, da Universidade de Toronto, e, ao que me disseram há pouco, também em Wiesbaden, na Alemanha, São processos que levam o seu tempo, dependem de dinâmicas locais...
Mas a ideia que preside às Universidades Seniores, embora com outras designações, tem  inspirado diversas iniciativas muito válidas, destinadas  aos mais velhos em associações e paróquias das comunidades. Por exemplo, no Canadá,  é o caso do "First" de Toronto ou, em Montreal, da Igreja de Santa Cruz, esta com mais de 500 participantes.  Acho que teremos boas outras surpresas, se fizermos um levantamento  geral, e isso ajudará, pela força do exemplo, do "ver para crer", à criação de novas ASAS …Mais importante do que “quem faz o quê” , é que as coisas aconteçam para servir as pessoas, para as tornar mais felizes e mais activas e intervenientes, em todas as idades. Ainda e sempre, uma questão de cidadania

Círculo Maria Archer


Caixa de entrada
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Maria Manuela Aguiar mariamanuelaaguiar@gmail.com

sexta, 1/02, 02:17
para olga
Cara Amiga

Em conjunto com vários amigos, estou a pensar organizar um fórum de debates, informal, sem estatutos, sem burocracias, e sem chefes. Uma tertúlia de amigos, para refletir sobre igualdade, questões de género, lusofonia...  Pensei dar-lhe a designação de "Círculo Maria Archer", lembrando-me do "Círculo Eça de Queiroz", que é, evidentemente, coisa bem diferente . Ou de uma antiga associação que fundei nos anos 90, Associação Ana de Castro Osório. Admiro imenso AC Osório, mas  Maria Archer é muito mais atual, mais  moderna ...  
O que acha? Seria bom, ou não, para a relembrar? 
Se não considerar boa ideia, não o farei. Continuaremos a recordá-la em colóquios, e congressos, 

As minhas cordiais saudações

Olga Archer Moreira vale.olga@gmail.com

segunda, 4/02, 18:45
para eu
Sra. Dra. Manuela Aguiar,
Que agradável surpresa.
Como tem passado?
A sua ideia é excelente e é claro que concordo. 

Um abraço

Olga Archer Moreira

AMM MARIA ARCHER

quarta, 3/07, 16:48 (há 8 horas)
para eu
Para uma associação de estudos sobre as mulheres no universo da emigração, como é a nossa, Maria Archer é certamente uma personalidade inspiradora, que convida à pesquisa, à reflexão e ao diálogo. Esta não é, devo dizer, a primeira das iniciativas em que ela ocupa um lugar central. Começamos por evocar Maria Archer no Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas da Diáspora, em Novembro de 2011, justamente porque nesse congresso pretendemos partir da história da emigração no feminino, traçando, por um lado, as linhas de evolução de mais de um século de migrações portuguesas, com participação crescentes de mulheres, e, por outro, dando-lhes visibilidade, não só mas também, numa área em que podemos considerar que têm estado, pelo menos,  tão presentes como os homens: o domínio da Cultura, do ensino da Língua, das Letras e das Artes. 
Por ambos os caminhos, os da História e os da Cultura, encontramos Maria Archer.
Seguidamente,  voltou a ser figura de cartaz na comemoração do Dia Internacional da Mulher.  Uma "entrevista imaginária" com a grande escritora, protagonizada  por jovens das Escolas de Espinho, deu a esse evento  simples e didáctico um toque singular e comovente... 
 E agora, aqui, em Lisboa, nesta sessão que nos reúne no Teatro Nacional da Trindade, contámos de novo, com a força do seu pensamento e ideais, na evocação tão bem  conseguida em sucessivas intervenções sobre a sua  vida e obra  - e  num  espaço esplêndido, no salão onde ela própria esteve muitas vezes, com muitas pessoas do seu círculo íntimo de família e de convívio, e com a presença e a palavra, tão honrosas para nós e tão prestigiantes para a sua memória, da Drª Maria Barroso e do  Presidente Mário Soares, símbolos da luta vitoriosa pelo Portugal que ela sonhou, em liberdade, em democracia! 
Mais um reencontro com Maria Archer... 
Razões não nos faltam para  justificar o empenhamento cívico com que a fazemos, assim, companheira de jornadas sobre as temáticas de género, no contexto das migrações.  Ela foi, de facto, uma grande Portuguesa da Diáspora. Sê-lo-ia, em qualquer caso, como intelectual, jornalista, romancista, mas foi - o, igualmente, como verdadeira precursora na  pesquisa e divulgação de usos e costumes dos povos com os quais se viu em contacto.  
Primeiro em África, muito jovem, a acompanhar os Pais por terras do "Ultramar", depois, já sexagenária, no exílio brasileiro,  passou largos anos em cinco países da lusofonia, dispersos em  3 continentes,  sempre atenta ao que acontecia em seu redor, com uma inteira compreensão das pessoas, dos ambientes, dos meios sociais, que  soube traduzir em dezenas de escritos de incomensurável valor literário e de enorme interesse etnológico, sociológico e político.... Seria motivo bastante para nos lançarmos na aventura de partir à descoberta desse legado multifacetado e vasto, que, num estado de quase hibernação, guarda  experiências e segredos de tantas gentes, vivências, situações...
  Mas há mais... 
Maria Archer é uma daquelas figuras do passado, que é intemporal, por saber captar as constantes da natureza humana.  Mas é também testemunha, memória crítica de um tempo português, opressivo e cinzento, pautado por estreitos conceitos e por regras de jogo social e político, que inteligentemente desvenda e põe em causa, sem contemplações. 
Ninguém como ela retrata o quotidiano desse Portugal estagnado e anacrónico, avesso a qualquer forma de progresso e de modernidade,  em que os mais fracos, os mais pobres não têm um horizonte de esperança, e as mulheres, em particular, são  dominadas pela força das leis, pelo cerco das mentalidades, pela censura dos costumes, depois de terem sido deformadas pela educação - tendo por pano de fundo as regras impostas para o relacionamento de sexos, a entronização rígida dos papéis de género dentro da famílias e as consequentes desigualdades, distâncias e preconceitos sociais, o doloroso e longo impasse de uma sociedade fechada ao curso da História, que acontecia na Europa e por esse mundo fora. 
Maria Archer vai dar vida às portuguesas suas contemporâneas, revelando-as tal como elas são, com um realismo, que é, sem dúvida (e quer ser) uma busca e uma evidência da verdade - doa a quem doer e  para que se saiba... Então e no futuro.  Nos seus "apontamentos de romancista", ( em "Eu e elas", em que se nos revela ela própria,  com um fino sentido de humor e toda a "joie de vivre" )) confidencia-nos : "O meu trabalho neste livro foi quase o de um artista plástico. Moldei a obra sobre o modelo vivo". Fica-nos a impressão de que não foi, para ela, experiência única - bem pelo contrário... E até que ponto  se projecta, por simpatia ou por contraste, nas figuras de mulheres que cria ou recria?
A mais feminista das escritoras portuguesas, é, seguramente, no que podemos considerar a melhor "tradição nacional", uma "feminista muito feminina", que ousou ser um ícone de beleza, ter uma carreira no jornalismo e  nas Letras, fazendo, em simultâneo, combate pela dignidade  e pela  afirmação das capacidades intelectuais e profissionais negadas à mulher comum..
 Ousou fazer um nome no mundo fundamentalmente masculino da cultura portuguesa. 
 Ousou ser Maria Archer, sem pseudónimos...
Na verdade, por tudo isto, julgo que podemos dizer que ela é mais do nosso tempo do que do seu tempo - aliás, uma afirmação que se deve generalizar às mais notáveis feministas do princípio do século XX, que dão rosto à exposição da Câmara Municipal de Espinho, há pouco, inaugurada aqui, nas salas e corredores do Teatro da Trindade.
Maria era, então, demasiado jovem para poder participar nos movimentos revolucionários, em que estiveram envolvidas a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, mas iria ser uma das poucas  que, no período de declínio desses movimentos e de desaparecimento de uma geração incomparável, continuou, a seu jeito, solitariamente, uma luta incessante contra o obscurantismo, que condenava a metade feminina de Portugal à subserviência, à incultura, ao enclausuramento doméstico.
 Maria Archer foi uma inconformista, consciente das discriminações e das injustiças, em geral, e, em particular das  que condicionavam o sexo feminino, numa sociedade  retrógrada e fundamentalista, como se diria em linguagem actual. A regressão às doutrinas e práticas de um patriarcalismo ancestral é imposta pelo próprio regime, contra o qual se revolta, naturalmente...
A escrita, servida pelos dons de inteligência, de observação e de expressividade.  foi  para ela uma arma de combate  político. Como dizia Artur Portela, "a sua pena parece por vezes uma metralhadora de fogo rasante". 
É um combate em que a sua vida e a sua arte  se fundem - norteadas por um ostensivo  propósito de valorização dos valores femininos, de libertação da mulher e, com ela, da sociedade como um todo.
É já uma Mulher livre num país ainda sem liberdade - coragem que lhe custou o preço de um  tão longo exílio ...
 Maria Archer é uma grande escritora (ou um grande escritor, como alguns preferem precisar, alargando o campo das comparações possíveis). E pode ser lida apenas como tal. Mas permite - nos também diversas outras leituras - para além da literária, a sociológica, a etnológica, a feminista...
 Ninguém. como ela , escrutinou e caracterizou o pequeno mundo da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, das famílias, pobres ou ricas, decadentes ou ascendentes, aristocráticas, burguesas, "povo" . Mulheres e homens,  todos  imersos na nebulosa de preconceitos de género e de classe, de vaidades, de ambições, de prepotências e temores...
"Aurea mediocritas", brandos costumes implacáveis... o mundo de contradições  de um Estado velho, que se chamava Estado Novo.
 Uma leitura feminista:  ninguém conseguiu, como ela, corroer essa imagem da "fada do lar", meticulosamente construída sobre as ideias falsas da harmonia de desiguais (em que, noutro plano, se baseava a ideologia corporativista do regime), da brandura de costumes, assente no autoritarismo e subjugação  ao "pater familias" no círculo pequeno do lar, ou ao ditador paternalista no do País inteiro. 
Maria Archer é uma retratista magistral da mulher e da sua circunstância... O rigor da narrativa, a densidade das personagens, a qualidade literária, só podiam agravar, aos olhos do regime, a força subversiva da  denúncia.  
Os poderes constituídos não gostaram desses retratos de época, como não gostavam da Autora. Primeiro, tentou desqualificá-la, desvalorizando-a. Sintomática a opinião de um homem do regime, Franco Nogueira, que em contra-corrente, num texto com laivos misóginos,  a apresenta como apenas uma mulher a falar de coisa ligeiras e desinteressantes (por tal entendendo a realidade do destino das mulheres, coisa para ele tão sem importância....). Sintomático também que a crítica seja divulgada pela própria editora da romancista. a par de tantas outras, todas de sentido oposto.
Não tendo conseguido os seus intentos, o Poder passou à acção: livros apreendidos, jornais onde trabalhava ameaçados de encerramento... Maria Archer viu-se forçada a partir para o Brasil - uma última aventura de expatriação, de onde só retornaria, doente e fragilizada, para morrer em Lisboa.
Porém, o desterro não seria pena bastante. Teresa Horta, no prefácio da reedição de "Ela era apenas mulher"
afirma que Maria Archer foi deliberadamente apagada da História. Ser emigrante é já factor de esquecimento, regra geral inevitável, na memória da Pátria. Mas o seu caso foi mais grave, deliberado, doloso. - embora, do nosso ponto de vista,  não definitivamente encerrado. É ainda bem possível combater esse acto persecutório, executado há décadas, restituindo à obra de Maria Archer o espaço que lhe é devido no mundo eterno da  cultura portuguesa...
Revisitar a Mulher de Letras, através dos seus escritos, tem, da nossa parte, este objectivo de desocultar o passado e lançar luz sobre a realidade insuficientemente analisada e realçada da sociedade portuguesa de 40 e 50.  E é também um momento mágico de deparar com Maria Archer, de percorrer com ela as páginas fulgurantes dos seus livros, artigos, crónicas. A elegância do seu estilo tempera o realismo, o "élan" dramático da narrativa e torna, afinal, sempre um prazer acompanhá -la nas incursões pelo universo bafiento e confinado em que se cruzaram e confrontaram as portuguesas e os portugueses durante meio século. Em que as personagens femininas raras vezes cumpriram as suas capacidades e os seus sonhos (mesmo que modestos). E em que os enredos quase nunca têm um final feliz  - ou justo...

Elegância é uma palavra que quadra com Maria Archer, que a caracteriza na maneira como pensou, como escreveu, como se vestiu e apresentou em sociedade, como atravessou uma rua de Lisboa ou de São Paulo, como atravessou uma vida inteira, até ao fim...
Fim não será a palavra mais apropriada...  Estamos aqui justamente unidos pelo projecto de lhe assegurar uma segunda vida, absolutamente ao nosso alcance, porque "existir não é pensar, é ser lembrado", como dizia Pascoaes.
Esta não é o primeira nem será a nossa última reunião sobre ela, o seu exílio, o seu retorno... Talvez a próxima aconteça em São Paulo... sobre o seu legado ou a sua pessoa  - qual deles o mais interessante?
A pessoa é certamente tão fascinante como a mensagem da escritora. E ainda mais desconhecida.
Mas só assim continuará por omissão nossa, porque ela está lá, eternamente jovem e vibrante, nas páginas que nos deixou escritas.
Dizia a Mariana desse romance paradigmático que é  o "Bato às portas da vida": "ando na saudade de mim, mesmo perdida no tempo"
E nós andamos na saudade de Maria Archer, perdida mas  reencontrada no nosso tempo, que esperamos seja o do  início do  correr interminável do seu tempo futuro..