domingo, 21 de junho de 2026

UMA IDEIA PARA ESPINHO

Uma ideia para Espinho 1 – Espinho, hoje… A muito recente entrevista do Presidente Jorge Ratola à “Defesa de Espinho” fala-nos das agruras e dos compromissos de governar uma autarquia, traçando o retrato de uma cidade que, na transição de século XX para o século XXI, (que o mesmo é dizer de um passado esplendoroso para um presente em tom menor), apostou em significativo número de equipamentos de vulto, que estão, quase todos, não só subaproveitados, como em estado de degradação acelerada. Segundo o Presidente que não oferecem “condições mínimas de dignidade” todos os que lista: “o edifício da Câmara, Piscina Municipal, Balneário Marinho, Solário Atlântico, Multimeios, Nave Desportiva, FACE e parque de campismo”. Uma situação de estarrecer, a que poderemos acrescentar, por exemplo, o deplorável estado de conservação dos passeios e das ruas, e, embora sem diretas responsabilidades da Autarquia, a estação do caminho de ferro, com aquele longo túnel escuro, feio e sujo. É óbvio que Espinho não chegou a esta situação da noite para o dia, mas devido à incúria acumulada ao longo de vários mandatos autárquicos - doze anos de PSD, quatro anos de PS, estes tumultuados por uma crise, que levou à barra dos tribunais políticos e funcionários camarários e precipitou o afastamento do Presidente e do Vice-Presidente, com a ascensão à chefia de uma mulher corajosa, que o seu partido veio a “descartar”, talvez por ser mulher. Sobre os equipamentos que frequento com alguma regularidade, o Multimeios, o FACE, a piscina Solário Atlântico, faço minhas as palavras do nosso Presidente da Câmara e saúdo a sua pragmática decisão de “começar pelo princípio”, cuidando de todas essas estruturas. O espetáculo dado pelo exterior do FACE é, talvez, o caso mais extremo a desfigurar um espaço belíssimo, infelizmente, ainda pouco conhecido e visitado, quer por espinhenses, quer por turistas. Por razões muito diversas, algumas das quais até são fáceis de resolver. De facto, quem passa à beira-mar, nas traseiras do edifício, não adivinha que se trata de um Fórum de Artes e Cultura, com o seu Museu, as suas Galerias de Arte, o seu Auditório, etc. etc. E passa muito mais gente nessa parte, virada ao mar, do que pela frente, numa rua estreita que praticamente apenas serve o trânsito automóvel. Para atrair visitantes conviria sinalizar o Fórum, mesmo que através de um simples cartaz ou de umas bandeiras a flutuar ao vento. E porque não montar, lá dentro, uma cafeteria, como prontamente se fez no caso da Biblioteca (e como se faz, em regra, nos museus de qualquer país do mundo)? Enquanto Vereadora da Cultura, sugeri ao Executivo essas duas modestas e práticas medidas, no ano já distante de 2009. O resto não é tão barato e fácil de solucionar…. Nesse ano de 2009, já chovia, em determinadas áreas, nomeadamente nas Galerias, já o sistema de climatização não funcionava (ai do Arquivo, naquele sítio húmido!) e já o parque subterrâneo não tinha condições de acesso público… A exceção a este triste panorama geral parece ser a Biblioteca, sempre bem frequentada, por gente de todas as idades, com a sua programação cultural, um esplêndido espaço dedicado a José Marmelo e Silva e seu precioso espólio, o tranquilo jardim das oliveiras entre as duas salas de leitura, e a pequena cafeteria, onde se almoça saudavelmente e os doces são deliciosos. 2 – Nestes últimos tempos, em Espinho, nem tudo, mas várias coisas correram mal. O enterramento da linha férrea, desejado por quase todos (não por mim e uma escassa minoria) foi uma oportunidade perdida, porque incumpriu o objetivo de libertar espaço urbano, eliminar uma barreira física e devolver continuidade à malha da cidade: o túnel deixou de fora extensas zonas a norte e a sul! E o que libertou é apenas uma vulgar avenida, não a nossa mítica “Avenida” cheia de vida e movimento, não tendo gerado a revolução económica e turística que muitos imaginavam. A cidade ganhou espaço, mas o espaço não ganhou uma nova centralidade. Afinal, o maior problema da terra não era ferroviário, mas identitário. No final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Espinho era uma das mais famosas estâncias balneares portuguesas, pela sua rara combinação de praia, caminho-de-ferro, (que aproximava o interior de Portugal e Espanha), casinos, e todas as atrações da moda: cinemas, teatros, festivais, esplanadas, cafés, elegante comércio, recintos desportivos, piscinas, golfe…. Respondia a todas as exigências do paradigma da “Côte d’ Azur”. Era a rainha da “Costa Verde”. Entretanto, foi evoluindo o modelo de turismo balnear, que se estendeu por centenas de praias, e o Algarve de águas mais quentes e sol abrasador tornou-se o destino dominante para todas as classes sociais. Espinho tratou de se dotar de novas atrações, apostando em vistosos equipamentos. A aposta deu no que deu, a situação está como está – e é o Presidente que o reconhece. Acredito na sua vontade e capacidade de os recuperar. Sim, mas há que inquirir: e depois? O seu pleno aproveitamento dependerá, não só, mas também de uma ideia-chave para o futuro de Espinho. Não é questão que possa aprofundar neste texto, pelo que me limito a fazer o mais viável, que é procurar um termo de comparação em contexto geográfico semelhante – uma cidade-casino à beira-mar como Espinho, a poucos quilómetros de distância. 3 - A Póvoa. “Hélas”, a nossa eterna rival! O casino desempenhou na ascensão das velhas rivais papel central, na sua “Belle époque”. Agora, no novo século, como avaliar esse papel, numa e na outra cidade, pela via da inserção no tecido social e cultural? A meu ver, o contraste, hoje, não podia ser mais evidente. O Casino de Espinho é um mundo em si, voltada para o turismo e o entretenimento. Está aqui, como podia estar em Atlanta. Fornece concertos, revistas, espetáculos internacionais e jantares-espetáculo em salas magníficas, mas encerrou, há muito, um último espaço de convívio quotidiano para gente menos endinheirada: a esplêndida sala de cinema, uma das mais bonitas, se não a melhor, de todo o Portugal. O Casino da Póvoa, conservou o seu belo e antigo edifício, verdadeiro “ex-libris”, e, embora também organize espetáculos de variedades, singularizou-se, pelo seu envolvimento profundo na criação cultural e literária da cidade, como espaço cultural poveiro e polo cultural regional, com uma agenda artística contínua no Teatro, que inclui peças e concertos de música popular. A Póvoa conseguiu, por política cultural do Casino, tornar-se uma marca cultural de alto prestígio, através das “Correntes d'Escrita” e do prémio literário, que é um dos mais importantes no nosso país. Passando dos Casinos ao do poder local, a análise permitirá conclusões análogas. Espinho (terra onde a sociedade civil, através da programação do Auditório de Música, Cinanima, FEST, dá esplêndidos contributos), procura a afirmação nas suas obras vistosas, em festivais, de âmbito local, e eventos dispersos. A Póvoa, para além de financiar esse tipo de programação, associou-se a uma iniciativa identitária e continuada, criando uma marca intelectual reconhecida nacional e internacionalmente. A Póvoa tem as “Correntes”, o Porto a sua “Babel”, projetos com que rompem a mediania, se afirmam e ganham uma imagem de qualidade à escala nacional, quando não internacional. O que não resolve os problemas todos, mas desenvolve a autoconfiança, o espírito que ajudam à resolução. E Espinho? A meu ver, o projeto poderia resolver o problema do subaproveitamento de edifícios recuperados pondo o foco na história queremos continuar e merece ser conhecida por portugueses e estrangeiros. Penso na criação de um museu imersivo, a partir dos nossos preciosos arquivos fotográficos, revivendo a caminhada da pequena urbe piscatória primordial à estância balnear elegante e cosmopolita dos anos vinte, com os seus casinos, tertúlias, festivais e a sua mítica e movimentada Avenida, até à cidade atual, na sua relação eterna com o mar Façamos algo, que “ainda ninguém fez”, nem da mesma forma pode fazer, porque é única e inconfundível a matéria prima de que se tece - o nosso próprio passado. Um museu vanguardista e singular, não necessariamente muito grande, comportável no orçamento municipal (custando, numa dimensão inicial, apenas os cifrões equivalentes a quatro ou cinco concertos com os chamativos nomes da música popular? Não é uma utopia. Pense-se no “Perlan”, da Islândia - país onde há muitos outros centros interpretativos deste tipo, que são enorme atração turística, e onde alguns usam infraestruturas já existentes. A Islândia exibe os seus maiores ativos identitários (fenómenos naturais), e transforma-os numa experiência maravilhosa para os visitantes, de qualquer idade ou formação, precisamente como Espinho, voltado para o futuro, poderá reviver o seu fantástico passado

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