Tem a palavra a família Aguiar e os seus amigos. Vamos abrir o "Círculo", com duas alternativas, que proponho: Este "Aguiaríssimo" ou o "blogguiar.blogspot.com"
terça-feira, 31 de março de 2026
2022 intervenção MARIA ARCHER LX
2022 MARIA ARCHER Lisboa
Uma primeira palavra de agradecimento à organização deste colóquio, em especial à Profª Isabel Henriques de Jesus, por este convite para participar numa grande jornada de reflexão em torno de Maria Archer, no 40º ano da sua morte
A celebração de uma efeméride é, muitas, vezes, apenas cumprimento de um calendário ritual, mas também pode ser muito mais, quando dela se faz um verdadeiro “projeto memória”, ponte entre o passado de figuras ou acontecimentos e o presente, com o fim de o transportar ao futuro. Assim sucedeu, por exemplo, na comemoração do 20º ano da convocatória do 1º Encontro Mundial de Mulheres Portuguesas na Emigração, que resultou no verdadeiro início de políticas públicas naquele domínio, ou com o centenário da República em cujo programa de eventos se foi dando visibilidade, aqui e ali, a grande vultos da nossa 1ª vaga do movimento feminista. E assim será, espero, com as comemorações do cinquentenário da revolução de Abril, onde haverá lugar ao reencontro com a vida e a obra de grandes mulheres que a Ditadura tentou eliminar do património imaterial que é a memória coletiva.
Embora saiba não haver ligação direta entre essa próxima agenda, e a que aqui nos traz, atrevo-me a dizer que vejo já nas linhas de investigação voltadas para as escritoras que resistiram ao silenciamento imposto pelo regime, de algum modo, um prenúncio ou uma decorrência espontânea no ambiente criado â volta de uma data marcante, e a um olhar sobre um outro centenário, dos 50 anos de ditadura aos 50 anos de democracia – com uma perspetiva certamente não passadista, mas simultaneamente retrospetiva e prospetiva. É como se os ventos d mudança já nos levassem a esse caminho.
Maria Archer, essa portuguesa admirável, nascida num dia do último janeiro do século XIX, e ainda tão atual no pensamento e no exemplo de inconformismo e de coragem merece se, nesta envolvente, redescoberta. Nela vejo, sempre , antes de mais, a cidadã de muitas cidades, num percurso repartido pela geografia do mundo lusófono, em convívio curioso e expetante com as suas culturas e particularidade, empenhada em aprendizagens e partilhas, na intervenção em variados domínios, movida por valores humanistas que são ainda hoje os nossos.
Um destino de interminável itinerância, desde menina, poderia ter significado inadaptação e desenraizamento - mas não, bem pelo contrário, enraizou-a um pouco por todo o lado, com o olhar atento sobre tudo o que era novo, a fascinação pelo exotismo e pela beleza das pessoas e das paisagens - em suma, ao despertar dos afetos. Em estadas longas, que perfizeram 14 anos de África, a sua infância e a juventude decorrem, assim, numa sucessão de idas e voltas, de Lisboa para Bissau e Bolama, para a Ilha de Moçambique, com os pais, depois, já casada, para a ilha de Ibo com o marido, e após o divórcio, ainda sob teto paterno, para Luanda.
Divorciar-se, no ano de 1933, foi um ato de enorme ousadia, com que encerrou um ciclo e começou outro, finalmente livre para transpor a fronteira do espaço privado, onde as jovens da burguesia se deixavam emparedar, na dependência vitalícia de filhas ou esposas, para o espaço público, onde se tornou verdadeiramente Maria Archer.
No breve relance sobre a sua trajetória de escritora, a vemo-la por pouco mais de duas décadas, destacar-se nos meios intelectuais de Lisboa, onde se impunha pelo talento literário – a grande revelação da década de trinta – e encantava pela elegância do porte e pela vivacidade do espírito e pelo talento literário. Em 1935, ainda em Luanda, fazia a sua estreia literária com os de três mulheres, de seguida, publica, em Lisboa, "África Selvagem", uma primeira e fulgurante incursão nos domínios da literatura colonial. Era o início da aventura solitária de subsistir pela escrita, como Autora reconhecida pela crítica e pelos leitores, que esgotavam edições e reedições dos seus romances e novelas, e como reputada articulista nas páginas de jornais e revistas de referência.
As causas que a moveram permanecem atuais: a criação literária e artística das mulheres como expressão de liberdade e dimensão de cidadania, o feminismo como humanismo, a aproximação dos povos da lusofonia - ultrapassando a visão eurocêntrica tradicional, herdada da 1ª República, no policentrismo dos seus escritos mais tardios..
. A ditadura assente na repressão das Liberdades e no conservadorismo misógino, não suportava a subversão da sua ideologia e da sua Ordem e sobretudo a transgressão no feminino, que Maria Archer encarnava. Entre nós, ninguém levou tão longe e tão bem a recriação realista de uma atmosfera social e política que condicionava o mundo segregado das mulheres, com o implacável rigor de uma etnóloga por vocação e a arte de o traduzir literariamente. Nas suas próprias palavras, moldava o retrato sobre modelo vivo. A Ditadura não gostou do retrato e tratou de a levar ao degredo do seu espaço e ao esquecimento no seu tempo. Quis, como disse Maria Teresa Horta, "deliberadamente apagá-la da história".
Maria Archer foi obrigada a partir para um exílio de 24 anos em São Paulo, de onde regressaria, em 1979, como se não tivesse regressado, diminuída na debilidade física irreversível, desaparecida na memória do país.
Maria Archer, porém, viu para além do horizonte desse tempo, confiante no julgamento do futuro. Esse futuro é agora, somos nós. Estamos hoje aqui, a dizer, com a nossa presença e a nossa palavra, que queremos, deliberadamente, restitui-la à história. Integramos um movimento iniciado por uma plêiade de investigadores, que, primeiramente nos meios académicos do Brasil, e, hoje, já também em Portugal, a reconhecem como romancista e contista intemporal na representação literária de um dado tempo ou meio social, e a situam nos caminhos da luta pelo direito de pensar, de falar e de viver livremente em Portugal e na aproximação dos vários mundos da lusofonia pela construção de pontes que os unam. E, ainda, como legatária da 1ª vaga do feminismo português, cuja bandeira, extinto praticamente esse movimento, transportou, solitariamente, desconstruindo, pelo força iconoclasta da sua obra, e pelo seu próprio exemplo, o ideal tipo feminino do salazarismo. Ou, se preferirmos, como precursora da 2ª vaga, das vésperas da revolução, que antecipou no seu pensamento de mulher moderna – e moderna ainda por padrões atuais.
No 40º ano da sua morte, celebramos o reencontro com a Maria Archer. no retorno definitivo do exílio para preencher o seu lugar na história da literatura, e do jornalismo, da democracia, e do feminismo em Portugal.
Maria Archer podia ter sido personagem de um romance realista de Maria Archer. Na verdade, o que falta contar é a história que escreveu com a sua própria vida. Talvez, por altura de outra efeméride, em 2024, nos 125 anos da escritora, alguém queira e possa dar-lhe e dar-nos essa biografia. Aqui deixo o desafio, porque tão admirável é a obra como a vida de Maria Archer.
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Maria Archer viveu num presente de que ela era já o futuro, Como ela adivinhou aqui e agora o País a redescobre, tão fascinante na sua obra como na sua vida-
Maria Archer bem podia ter sido personagem de um romance de Maria Archer
Falta contar a história dramática que escreveu com a sua própria vida
Como ela adivinhou o País haveria de a redescobrir, tão fascinante na sua obra como na sua vida. Maria Archer podia bem ter sido a personagem de um último romance de Maria Archer. Falta ir contando a história que escreveu com a própria vida, refletindo, como hoje aqui se vai fazer, sobre os infinitos reflexos
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Maria Archer emergiu meteóricamente numa sociedade misógina, opressiva e medíocre, num presente sombrio de que se sentia já o futuro. No Portugal dos anos trinta a cinquenta, tinha ela pouco mais do que a idade do século, ousou abandonar, de vez, o gineceu familiar, infringir as velhas regras, derrubar os padrões do patriarcalismo, desconstruir pelo exemplo, os modelos culturais do feminino ditados pelo regime, empunhando a bandeira de um feminismo interdito. A primeira viagem que faria, por seu livre arbítrio, em decisão irreversível, foi de uma Lisboa para outra Lisboa - do reduto fechado dos salões da burguesia familiar para as tertúlias intelectuais do meio artístico e literário.
Um percurso solitário e agreste, caminho de libertação, que lhe deu voz e influência no espaço público, mas não felicidade. O preço imenso que pagou por ser mulher no pleno uso dos seus talentos, mulher liberta, interveniente, solidária. Ou dito de outra forma, por não ser "apenas mulher", como o regime a queria formatada.
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Entre a pioneira vaga do movimento feminista português no início de novecentos, que atingia o auge, quando Maria Archer era menina, e o seu ressurgimento, na década de sessenta e setenta, quando a falta de saúde já a silenciara, ela foi a brilhante e generosa herdeira de uma e a verdadeira precursora da outra. O jornalismo e a Literatura, foram, em Portugal como na Suécia, armas de combate estratégico pela igualdade de sexos. Entre nós, ninguém levou tão longe e tão bem a recriação realista de uma atmosfera social e política que condicionava o mundo segregado das mulheres - denúncia pungente servida pela suas qualidade literária e por uma reconhecida vocação de etnógrafa, a quem faltava a formação académica mas sobrava a capacidade de observação e registo rigoroso de costumes bantus como lisboetas... Os seus retratos literários têm uma força expressiva. incomparável
Maria Archer adivinhou o País haveria de a redescobrir, tão fascinante na sua obra como na sua vida. Maria Archer podia bem ter sido a personagem de um último romance de Maria Archer. Falta ir contando a história que escreveu com a própria vida, refletindo, como hoje aqui se vai fazer, sobre os infinitos reflexos
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Como ela adivinhou o País haveria de a redescobrir, tão fascinante na sua obra como na sua vida. Maria Archer podia bem ter sido a personagem de um último romance de Maria Archer. Falta ir contando a história que escreveu com a própria vida, refletindo, como hoje aqui se vai fazer, sobre os infinitos reflexos
40 anos da morte de M ARCHER
A 23 de janeiro de 2022 completaram-se quarenta anos sobre a morte de Maria Archer - uma data comemorada, no Porto, pelo Círculo de Culturas Lusófonas Maria Archer (CMA), com uma programação de atividades focada nas múltiplas facetas da sua vastíssima obra e na sua vida, repartida no espaço da lusofonia, num constante cirandar entre realidades culturais de que se tornaria intérprete e mensageira privilegiada.
A sessão de abertura teve lugar no sábado, dia 22, na Galeria da Biodiversidade – Centro de Ciência Viva, às 16.00, com uma conferência deª Deolinda Adão (Universidade da Califórnia, Berkeley) sobre “Sussurros de vozes no silêncio – o caso de Maria Archer”, seguida da inauguração de uma Exposição de pintura comissariada por Ester de Sousa e Sá, em que 11 artistas plásticos (Aquilino Ribeiro, Balbina Mendes, Cláudia Costa, Constância Néry, Do Carmo Vieira, Elizabeth Leite, Ester de Sousa e Sá, Gabriela Carrascalão, Mafalda Rocha, Maria André, Norberto de Abreu e Sílvia Vale) foram convidados a falar da sua relação com Maria Archer, tal como a expressam nas telas,
A 22 de fevereiro, o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e o Círculo de Culturas Lusófonas Maria Archer, (com uma Comissão Organizadora integrada por Marinela de Freitas, Lurdes Gonçalves, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e Nassalete Miranda e eu própria do CMA ), reuniram uma audiência
internacional de interessados para um colóquio "online" - investigadores portugueses e estrangeiros dedicados ao estudo da obra de mulheres portuguesas, que se destacaram no panorama das Letras e Artes e nos movimentos proto feministas e feministas, de finais do século XVIII aos nossos dias. Com o título, "Maria Archer e outras Mulheres de Referência e (Ir) reverência", se pretendeu sublinhar o que, para além da diversidade de épocas, lugares e contextos sócio-culturais, nos deixaram como legado .
No lugar e no tempo de abertura ao público da Exposição de Homenagem a Maria
Archer, (de 22 de janeiro a 31 de março de 2022, decorreu um ciclo de colóquios, com regularidade quinzenal, subordinado ao tema " Maria Archer, Eu e Elas - mulheres que mudaram o mundo dos homens".
a incerteza que a crise pandémica traz ao quotidiano português
, não está ainda fechada a planificação do ano, que, assim, continua aberta a novas propostas e sugestões à volta das grandes causas de Maria Archer: a criação literária e artística das mulheres como expressão de liberdade e dimensão de cidadania ,a compreensão da alteridade, a aproximação dos povos da lusofonia, no trânsito da dominação colonial num novo espaço policêntrico, o feminismo como humanismo, as fronteiras do feminino e a desocultação do seu lugar na História.
Maria Archer viveu num presente de que ela já era o futuro, foi incompreendida, perseguida pelo regime, exilada, e, mais ainda, como escreveu Maria Teresa Horta "deliberadamente apagada da História". No ocaso de uma brilhante trajetória que a doença encurtou, já não encontrava ânimo para combater o esquecimento a que fora sentenciada, mas acreditava que novos tempos lhe fariam justiça.
Primeiro nos meios académicos do Brasil, agora também já em Portugal, uma plêiade de investigadores veio dar-lhe razão, cumprir a sua esperança. A comemoração desta efeméride, no Porto, em Lisboa, em São Paulo, e um pouco por todo o lado, é uma etapa do seu percurso de retorno. Quarenta anos após a sua partida, Maria Archer está de volta, para ficar na História das Letras e do jornalismo, da literatura colonial, da democracia, pela qual luta na primeira linha de intervenção, e do feminismo, cujo bandeira, com raras mulheres, empunhou em meio século de ditadura e obscurantismo. Os portugueses vão descobrir que tão fascinante é a obra como a vida de Maria Archer
quarta-feira, 4 de março de 2026
Hoje 4 de março de 2026 faria 125 anos!
MARIA DA CONCEIÇÃO PÓVOAS
AFECTOS, BRIO E LEALDADE
Nascida a 4 de Março de 1901.
Morreu há 30 anos, em Espinho, na casa da Avó Olívia, tratada por ela e pela Arminda, assistida pelo Dr. Mendes Ferreira, que, em plena greve de médicos, vinha visita-la e lhe receitava remédios para levantar a "moral", apesar do seu caso não ter, como ele e nós sabíamos, solução possível. Mas a Maria nunca perdeu a esperança de viver!
Uma vida vivida connosco, ao longo de décadas.
Era filha de um padre de Aveiro, que a mandou, a ela e à irmã Paula, para um colégio-orfanato do Porto e, aos 14 ou 15 anos, e depois as deixou irem "servir", como criadas. Não sei quem, ou qual a conexão que as levou para Gondomar.
A Paula, uma excepcional cozinheira, ficou na mansão "rica" da Avó Maria, ainda no tempo do Avô António. Tinha um péssimo feitio, dava respostas tortas e foi despedida.
A Maria foi destinada à mais modesta habitação da Tia Rozaura. Ao contrário da Paula, era um encanto de pessoa: humilde, boa, simpática, prestável... Trabalhava como uma "moura", dentro e fora de portas, no extenso quintal dessa "casa da Pedreira". Andou com a minha Mãe ao colo, depois, comigo e com a Madalena.
Tinha paixão por crianças e era correspondida Deixava-nos fazer tudo e mais alguma coisa. Com ela, eu portava-me particularmente mal, porque achava muita graça...
Também tinha o dom de se fazer amar pelos animais, que tratava como crianças...A minha cadela "Chinita", numa época em que morávamos com a Tia Rozaura, "trocou-me" por ela. Os cães só têm um (a) dono (a). Para a Chinita, era a Maria. E, por isso, quando, aí pelos meus 10 anos, a Maria se despediu, a custo, de Gondomar para ir cuidar dos meninos da sobrinha Géninha - filha única da Paula - tivemos de lhe oferecer a "Chinita", que chorava por ela...
A Géninha pertencia às "classes médias", com uma bela moradia, onde a Maria reinava, com um novo estatuto, como a "senhora da casa". Com prestígio social, no meio da vizinhança, e a sua inata simpatia. Feliz com os pequenos sobrinhos, que educou como se fossem seus filhos. Feliz por mais de uma década, na sua família natural. Deu-se, então, o regresso da Paula. Andou por longe, anos e anos - como cozinheira da paquetes, ao que me parece. Quando se reformou, escolheu ir morar com a Géninha e tão mal tratou a Maria, que esgotou a sua paciência - que era grande!...
Voltou a Maria para a família Aguiar, sua segunda família. Foi comigo para Lisboa, quando arrendei a casa da Av. do Uruguai, em 1970. Tinha ela 70 anos.
Lembro-me de me dizer que queria que as pessoas de fora a tratassem por "Senhora Dona", como acontecia nos tempos de vida com os sobrinhos. Eu estava absolutamente de acordo. Era bonito o seu itinerário ascendente, e eu, que gostava tanto dela, não queria que o perdesse, por nada deste mundo!
Em Lisboa, como, em comentários havemos de contar, a Maria reinou, de novo como dona e senhora daquele andar moderno, que tão bem cuidava. Não percebo nada de nada, do governos de casa, e ela era perfeita. Fez grandes amizades, entre as vizinhas, que eu mal conhecia: a Dona Floripes e a Dona Antónia, sobretudo.
Sabendo que podia contar com os cuidados dela, levei para casa cadelinha Serra de Aire, que comprei a um vendedor de jornais do Rossio. A ninhada era grande, peguei num dos cãezinhos, gostei e não suportei a idéia de o abandonar, ali, num fim de dia chuvoso. Por acaso, era uma menina, eu nem reparei... Deu muitas alegrias, e algumas preocupações à Maria...
Por alguns anos, a prima Docas partilhou este tranquilo ambiente, e com certeza, poderá contribuir para completar mais um dos breves apontamentos biográficos, com que vamos alargando o "Círculo Aguiar"
E assim decorreu a última década na vida desta boa e insubstituível amiga, constantemente lembrada, nas nossas conversas, a propósito de um determinado prato, que ela fazia, incomparavelmente, ou do seu sentido de economia, ou das flores do jardim, que com ela floresciam mais, ou dos gatos e cães, cuja linguagem entendia, ou do seu riso contagiante.
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