sábado, 18 de agosto de 2012

Memórias tópicos


1 - 1965 - Coimbra: baile de gala de capa e batina, com as fitas, como
exigiam os praxistas (a única mulher - porque todas as outras optaram
pelos vestidos cerimoniais e estavam lindas, mas sem as fitas a que
sempre tinham tido direito, antes do "diktat" dos praxistas...)

2 -  1988? " Dragona", segundo Pinto da Costa. Numa gala anual do FCP.
No dia seguinte era o que os colegas me chamavam nos corredores da AR.
Estranhei, mas logo percebi que os jornais tinham dado a notícia.
Fui sempre dragona, mesmo antes de se descobrir o Dragão no brasão do
FCP. Em criança chorava qd o FCP perdia - o que a minha mãe achava uma
anormalidade. No tempo do Sardão qd a equipa ganhava queria ir cedo
para o colégio para fazer a festa. Qd não pedia para ir bem tarde, em
hora a que já estivesse toda a gente nos dormitórios, evitando assim
ser gozada pelas adversárias...
Apostava sempre contra o Porto, esperando perder a aposta. Mas se não,
ao menos ganhava alguma coisa, na hora de infortúnio...
Nos meus famosos relatos, havia sempre folgadas vitórias, com golos do
Jaburú ou do Teixeira.
Às vezes, mesmo sem gritar nos jogos, só com o stress ficava mais ou
menos afónica. Aconteceu, por ex uma vez, já eu era assistente do
Centro de Estudos, depois de um FCP- Académica. Encontrei no corredor
o Nogueira de Brito e contei-lhe, conforme pude, em voz baixa, que
estava assim por causa do futebol.
Diz ele: "Pois é, lá perdemos!".
Respondi: "Não, lá ganhámos, que eu sou do Porto!".
Qt ao resto, fora o futebol, adoro Coimbra!
(e lembrar-me que, para elogiar o meu "cosmopolitismo", o colega
lisboeta Nuno Cabral Basto comentava que eu nem parecia de
Coimbra...).

3 - 2010 - Prefácio dos "apitos finais, dourados e outros mais" do Dr.
Sardoeira Pinto. Uma honra e um prazer, evidentemente. Li o livro por
email (o meu 1º e-book) e tive de escrever o texto de um dia para o
outro, com percalços à mistura, porque o computador ficou subitamente
sem rede (avaria!)... Apresentação com uma ilustre audiência no salão
dos Fenianos.

4 - 2008 - Aderi à Net em Agosto - e aprendi a escrever, digitalizando
fotos de família, (milhares) e etiquetando-as. Assim nasceu o blogue
"Círculo Aguiar. Para contar a história da Avó Maria, na data do seu
120º aniversário. E, depois, a de outros Aguiares e não só...

5 - 2000 -  USA: reencontro com o americano que tinha preparado a
visita de Mota Pinto, a convite de Secretary of Defense, Shultz, em
84, salvo erro.
Visita da comissão de defesa da AUEO, num longo circuito pelos EUA,
coast to coast, em avião militar.
Só quase na última  hora, ao almoço num restaurante japonês. ficámos
lado a lado. começo por me dizer que tinha grandes amigos em Portugal,
de nome Mota Pinto, Surpreendida, perguntei se era o prof Mota Pinto e
a Drº Mª Fernanda. Afirmativo!...
Era o teste para ver se eu era quem ele pensava que eu era -
reconhecera-me e eu, má fisionomista uma década ou mais, após o nosso
diálogo, na comitiva do Doutor Mota Pinto, não imaginei que ele era
ele - o excelente organizador da viagem de Estado do Mª da Defesa de
Portugal. que teve uma breve pausa em SF para ele se encontrar com os
emig port em San Jose.
O americano contou-me, então, que Mota Pinto lhe tinha dito no voo
para S Francisco:"Vai conhecer uma jovem política com grande futuro".
Bom, teria sido mais futuro com ele. Sem ele, na república dos seus
sucessores foi o que se viu....
De qlq modo, que esse inesperado relato do americano veio desfazer uma
ideia feita que eu tinha no meu relacionamento com o Político que me
levou para a política. Era um grande e lealíssimo amigo, mas como, com
ele, eu enveredava sempre pelo tom jocoso e excessivo, achava que não
podia levar-me completamente a sério (um risco que se corre no país,
quando de usa o humor...mas não com MP, pelo visto). Claro que me
levava suficientemente "a sério", ou não me teria feito SET do seu
Governo).
(lembrei o almoço com a Mª Luísa:"fomos todos colegas no mesmo
governo", não se referia à Mª L, que era colega de curso.)

6 - 1986 - Demissionária no governo Cavaco por corte do Orçamento.
Braço de ferro com o chamado "petroleiro", Pires de Miranda, que teve
de restituir 300.000 contos do orç do seu gabinete à paupérrima SEC,
depois de os ter cortado sem sequer prevenir - quase um terço do
total. Mesmo assim foi um retrocesso... Recusei candidatura pela emig
e saí do MNE, de vez, qd o governo foi derrubado pela moção de censura
do PRD em 1987.

1987 - Candidata pelo Porto, a convite da Distrital, e, depois, feita
Vice Presidente da AR "par le fait du prince", embora teoricamente
eleita (a eleição tem de ser ganha por voto secreto, é certo, depois
da indicação do nome pelo partido - e há os que têm dificuldade em
conseguir, ou não conseguem mesmo, os votos necessários... mas não foi
o caso da 1ª mulher proposta para o cargo, seria machismo a mais...).
Suponho que a escolha se ficou a dever ao Prof Cavaco, lui-même.

1981 - 1ª estada na AR qd saí do governo Balsemão em Agosto de 1981.
Primeiros debates no hemiciclo com o PCP Custódio Gingão. A partir do
momento em que lhe agradeci o tirocínio que me estava a proporcionar,
esmoreceu.
Acabamos num relacionamento cordial. Não com o PCP, mas com muitos
membros do partido, ele incluído. Tinha sido emigrante, conhecia os
problemas e era bem simpático!

7 -  1985 (e anos seguintes)
Momentos felizes a ouvir os cantores de Coimbra - o grupo de António
Bernardino - por esse mundo fora.
Cabo Verde, Brasil, Uruguai, Argentina, EUA, França... Iam a nosso
convite, como voluntários da cultura, sem cobrar "cachet". Como o
orçamento era de miséria, nós agradecíamos. E eram fabulosos! Que voz,
a de "Berna" - incomparável!
 Qd, uma vez, o António Portugal foi ao meu gabinete perguntar porque
convidava sempre os mesmos, expliquei que eles iam por amor à arte e
ao convívio com as comunidades, sem qualquer cachet. Não tiveram mais
concorrência.
Outros que, anteriormente, em 1980, foram ao Brasil, RAS, etc, também
sem cachet, a pedido deles, eram os amigos do Dr Vieira Araújo, essa
personalidade encantadora, um Coimbrão genial, humorista, poeta,
músico, médico, um conversador brilhante (colega do meu pai desde os
bancos do colégio dos Carvalhos). São dele alguns dos melhores dos
fados eternos de Coimbra - letra e música...

8 - 2004 - O princípio do fim da política, para mim, começou em Paris
2004, estava eu numa reunião semestral da UEO, com toda a Delegação
portuguesa. Apanhados de surpresa, recebíamos novas por telemóvel.
Muito nos divertimos  -  era a única coisa a fazer, vivendo os últimos
tempos do mandato! O resto não dependia de nós. De nós dependia manter
a boa disposição através da crise...
Decidi que terminava ali mesmo, dando lugar aos mais novos... Não que
me sentisse velha ou que os achasse necessariamente melhores do que
nós, os demais "sortants" e eu. (E havia a questão dos funcionários de
Macau em impasse, com o veto do Mº das Finanças à solução que era uma
promessa do PSD qd  oposição).
Que jantar! Num restaurante parisiense muito exclusivo, com toda a
delegação a analisar a situação política, numa mesma mesa redonda, na
qual se sentou um inglês que estava eufórico e bebia imenso - ou
vice-versa. Fazia comentários pró-salazaristas, que ninguém
partilhava, evidentemente. Não entendia nada, mas achava-nos
animados...
E Anacoreta Correia a dar entrevistas pelo telemóvel - os outros
CDS's, no país, estavam todos em black out

9- 1965  Recusei que o Padre (Zacarias de Oliveira, amigo do noivo)
dissesse a epístola de S Paulo no meu casamento. Ele resistiu, houve
discussão forte. Por fim acedeu, ou o casamento seria celebrado sem
missa...
Pelo mesmo motivo, já tinha primeiro convidado e depois desconvidado o
Padre Sebastião, prof de Direito Romano em Coimbra... (escreveu-me um
telegrama de 2 páginas, terminado por um dubitativo "Oxalá sejam
felizes"). Tudo isto porque o Padre Leão, que me compreendia, estava
nessa data em férias no estrangeiro. Quando lhe contei pormenores
destas peripécias, riu-se imenso! E comentou que a 14 de Agosto,
véspera da assumpção de Nossa Senhora, se devia mesmo ler a epístola
do dia. Bem escolhido, o 14 de Agosto. Estava escrito nas estrelas...

 Escritura antenupcial - separação absoluta de bens e a condição de
passar ao regime do novo código mais favorável à igualdade.
O notário só cedeu qd apresentei pareceres dos meus professores de
Coimbra...(que se divertiram a dá-los, pois conheciam o meu
"radicalismo" feminista - do ponto de vista deles, claro. O senhor
julgou que eu era milionária, a defender o património vasto - quie
saber se eu era dos Aguiares (ricos) de Matosinhos.
Bens dos nubentes, perguntou: E nós, em coro: nenhuns! A sua cara de espanto...

1966 - Escrevi os dizeres da autorização marital para sair do País
(tirar o passaporte), assinei-a, em nome dele e, depois, mandei o
reconhecer a assinatura ao notário... O Manel achava a coisa uma
inutilidade, mas lá foi...A minha maneira de lutar contra uma
verdadeira aberração - humilhante para qualquer ser humano, adulto e
em seu perfeito juízo.

 Ganhei também a guerra de registar o carro comprado por mim, com o
meu dinheiro, sem autorização do marido. O Notário onde fazia o
estágio (que simpatia!), escreveu sobre o assunto um cartão ao
conservador do registo (um colega a quem chamavam o João das
Espanholas), dizendo: "Ela tem razão" .
O dono do stand ficou admirado, quando consegui o registo. Era a 1ª
mulher casada a comprar carro sem intervenção marital, tanto quanto
ele sabia. Mas até a lei era bem clara a permiti-lo. A prática é que
era ilegal... O carro era comprado com dinheiro ganho em trabalho
profissional...

10 - 2004 - Grande momento quando me coube, como VP da Comissão da
Igualdade, em substituição da presidente, uma luxemburguesa, (Lydie
Eerr) impugnar, em plenário, as credenciais da Irlanda, porque não
cumpria o Regimento que interditava delegações "uni sexo". Ora a
Irlanda, República que foi presidida por Mary Robinson, não tinha na
Delegação uma só Mulher.
Portugal cumpria uma quota de 1/3, muito graças aos esforços que eu
própria desenvolvi dentro do meu grupo parlamentar - Mª Elisa, Eduarda
Azevedo e eu, só à conta do PSD. Acho que o PCP indicou a Luísa
Mesquita. Do PS only men, se bem me lembro...

11 - 1984 - Entrevistei o Capitão Sarmento Pimentel em São Paulo (na
altura já promovido, mas sempre capitão, como acho que gostava de ser
tratado). Entrei com o Prof  Soares Amora e uma equipa da TV Cultura,
que começou logo a filmar. Depois, como a conversa corria
animadamente, ninguém quis interromper o seu curso. Acenavam-me detrás
das câmaras para eu continuar a fazer perguntas. E, assim, um simples
e cordial diálogo substituiu  o que estava planeado. Sarmento Pimentel
tinha em mim muito mais uma ouvinte encantada do que qualquer outra
coisa - e ele sentia-se feliz. a falar das suas aventuras, servido por
uma excelente memória e um humor natural... não deu trabalho nenhum a
uma neófita.
 O episódio vem contado num jornal, mas situando a entrevista num
espaço público. Não foi - foi mesmo em casa do Herói português, que
ele era... Mítica figura, que falava de Mário Soares e de Mota Pinto,
como se eles fossem muito novos, uns rapazes... É tudo relativo.

 Amizades, para mim, foram sempre indiferentes a cores políticas. Só
nas delegações internacionais, Miguel Urbano Rodrigues (PCP),
Anacoreta Correia (CDS), Luísa Mesquita (PCP), Pedro Roseta (PSD),
Raul Brito e Carlos Luíz (PS) - e outros, num relacionamento mais
formal,  como Vera Jardim, Medeiros Ferreira, Alberto Martins...

12 - 1988 - A primeira mulher a chefiar delegações parlamentares,
começando pelo Japão (com os partidos todos a indicarem líderes
parlamentares - Correia Afonso, Narana Coissoró, Octávio Machado, ou
VP Jorge Lacão, Rui Silva).
 Mais difícil liderar mulheres - sempre a quererem falar, mesmo a
despropósito ( na delegação que visitou o Iraque, por exemplo ).
Homens mais disciplinados?... Aceitando melhor a liderança feminina?
Sei lá... Mas registei a diversidade.

13 - 1984 - Numa visita a Atenas a convite do meu homólogo, deambulei,
num fim de tarde, pela cidade, com escolta (dois homens e uma mulher,
elegantemente vestidos, muito agradáveis de todos os pontos de vista).
A certa altura, despistei-os, involuntariamente, com o meu passo
rápido, nas ruas estreitas da Plaka. Tive de ir procurá-los... Eram
tão simpáticos - seria mau chegar sem eles ao hotel.
Nunca gostei de seguranças - qd me deixavam a opção prescindia. A
segurança causa-me insegurança...  (Já andar  com batedores, a alta
velocidade é uma boa experiência...).
Os seguranças mais conviviais foram os da RAS.
Em 1980, a Milú e eu viajámos sempre enquadradas por uma dupla muito
simpática: um tenente e uma sargento, de origem portuguesa.
Acompanharam-nos até à fronteira da Suazilândia e lá nos esperaram
para regressarmos. Boa companhia, sabiam conversar, sabiam estar...
Os gregos tinham também bom aspecto. Mas não entravam na conversa com
a naturalidade dos sul-africanos (a África, continente mais caloroso,
até nestas questões). E notava-se que os gregos estavam armados, a
saliência das armas não totalmente disfarçada nos fatos de bom
corte... Não assim os sul-africanos, mais discretos e, certamente, não
menos eficazes. Graças a Deus, nunca houve ocasião para comparar.
Essa primeira visita, num fim-de-semana, à Suazilândia - M'Babane e
Manzini  - não estava no meu programa. O fim-de-semana devia ter sido
passado no Kruger Park, um convite do governo aceite pelo Embaixador
Coutinho, que acompanharia. Mas o Cônsul-Geral de JNB, Carlos Teixeira
da Mota (um diplomata  em rota ascendente, tão cedo desaparecido,
alguns anos depois, em Brasília -  onde eu  tinha estado uns dias,
pouco antes, na sua casa, dessa vez também com a  Mary e ele eram
amigos) convenceu-me de que o ideal era visitar essas comunidades tão
esquecidas. E eu transmiti a minha decisão ao Emb., que colocou muitas
objecções:
A Suazil dependia da Embaixada de Moçambique (R:"Não há problema.
Informa-se o Emb e não se espera que ele tenha de acompanhar a
viagem")
As autoridades Suazis não estavam informadas (R: "É uma visita não oficial")
Os hotéis estão cheios (R: "Algum português nos há-de acolher!") etc. etc.
E fomos em frente. Grande reunião em M'Babane numa moderna e grande
assoc portuguesa. Surpreendente também a recepção em Manzini. Ao
chegar, contra um pôr do sol africano, flutuava uma imensa bandeira
azul e branca do FCP. Que emoção!
Na parede da sala da direcção, dois retratos retirados dos pregos da
parede, mas colocados sobre as estantes: Salazar e Marcello Caetano.
Não perguntei porquê (não comentava as opções políticas das ONG's da
emigração), mas imaginei uma votação a terminar em empate e aquela
solução de compromisso (retira da parede, mas deixa à vista na
estante...).

Atenas 84
Hotel onde a adjunta, Isabel, ia morrendo de susto qd abriu a porta
para colocar o impresso do breakfast e deu de caras com um soldado
armado de metralhadora - a minha segurança nocturna...
O ambiente andava agitado, manif's na rua contra a reunião da NATO,
que se realizaria na Turquia, e na qual participou o Prof Mota Pinto.

 Também fui à Turquia, de seguida, mas para uma reunião em Izmir,
sobre migrações e desenvolvimento, onde participaram o Manuel Porto e
o Silva Peneda. Ainda estive, com o Prof. Mota Pinto em Istambul, de
passagem.
No Hotel de Izmir, um gang de empregados do Hotel assaltou-nos, a mim
e à Isabel, na última noite. A ela roubaram-lhe bastante dinheiro. A
mim, nada, porque não tinha dinheiro vivo, só cartões... foi um susto
ao retardador, no aeroporto, quando nos apercebemos da falta de
dinheiro turco e relacionamos as dores de cabeça de que ambas
sofríamos, com a possibilidade de nos terem dado um sedativo (ao
jantar?), para entrarem nos quartos, que tinham, lembrei-me depois,
portas de comunicação.

Em Atenas, recebida por Melina Mercouri, Ministra da Cultura,
responsável pelo apoio aos gregos no estrangeiro. Ela chiquíssima, eu
com um vestido tão feio, de malha preta, raiada de amarelo! A conversa
foi banal, embora ela não fosse banal. A diáspora estava, pareceu-me,
mais entregue ao Secretário de Estado do que à ministra. Lá como cá...
Dei-me sempre muito bem com os homólogos gregos, e todos me convidaram
a visitar Atenas.
O último praticamente não falava inglês, só grego e alemão. O meu
alemão é paupérrimo, mas mesmo assim conseguíamos conversar sem
intérprete! Entre palavras cruzadas nas duas línguas germânicas e pura
empatia.

 1989  Em Israel, a convite do Governo, por intermédio da Embaixadora.
Colette Avital - mulher diplomata excepcional. No domingo de Páscoa,
visita à Cidade Santa, rodeada de segurança ostensiva, soldados de
metralhadora. Sentia-me um alvo... detesto segurança e, sobretudo,
armas de fogo à minha volta.

Também a convite de Colette falei numa manifestação em Lisboa, de
apoio a Israel, então sob ataque de mísseis iraquianos. Falei de nós
como uma nação em que os portugueses de dividem entre os que sabem que
são judeus e os que sabem que talvez o sejam também...
Já toda a gente tinha dito o que eu me preparava para dizer. Depois de
mim, só falou, por minha insistência, nessa ordem de precedência. o
Doutor José Hermano Saraiva

 Israel: o mar da Galileia, o barco dos pescadores do tempo de
Cristo... O Mar Morto, a fortaleza de Massada, o Museu do Holocausto.
Os jovens acompanhantes tão simpáticos, mas em rotação, um, e logo,
outro.
Senti muito mais a presença de Cristo em Belém do que em Roma, na
sumptuosidade do Vaticano...

14 -  1987/1991 VP da AR - o carácter representativo do cargo obrigava
a vida social. Grandes amigos, entre diplomatas, como Colette Avital,
Vera e Alberto da Costa e Silva e, depois, José Aparecido de Oliveira.
Gente notável... Juntamente com Alberto comecei as geminações entre as
cidades do mesmo nome. Amarante de Portugal com Amarante do Piauí,
terra de origem do pai de Alberto, o poeta da saudade, Da Costa e
Silva. Mais uma das semelhanças entre as Amarantes. Ambas com culto a
São Gonçalo, versinhos brejeiros, rimos atravessando a cidade.
Lá um Poeta da saudade, cá outro. Bela cerimónia na nossa Amarante.
Que bem falava Alberto - orador, para além de ser um grande escritor!
E a memória de Pascoaes sempre connosco.

 Com José Aparecido tudo começou por acaso. Nem sabia que ele, ainda
futuro embaixador, já estava em Lisboa. Fui à chancelaria dar um
abraço de solidariedade ao Encarregado de Negócios, amigo de longa
data e ele insistiu em me apresentar a Aparecido. Naquele momento o
meu espontâneo gesto sensibilizou-o muito, como escreveu mais tarde
num jornal brasileiro (ver recorte)
Estavam em causa brasileiros a aguardar expulsão na Portela, enquanto
Cavaco se limitava a reafirmar que "eram estrangeiros como outros
quaisquer". Eu totalmente em desacordo!
J. Aparecido de Oliveira convidou-me a almoçar com ele na cantina,
familiarmente. Uma conversa de cinco previsíveis minutos durou o
dia...
 Anos depois, no clube português de Belo Horizonte, José Aparecido
contou essa história e o significado que o gesto de uma VP da AR
tivera para ele. Confesso que não me tinha apercebido da singularidade
do gesto. Para mim, tinha sido uma reacção normalíssima...

15 - Voltando a Istambul. Estava apenas acompanhada da adjunta,
Isabel, uma jurista ainda jovem e bastante assustada, primeiro com o
soldado de metralhadora de Atenas e, ali. com o ambiente, também um
pouco crispado e, ainda por cima, exótico, muçulmano, com poucas
mulheres na rua e muitos homens, para ela com ar ameaçador. O Carlos
Correia, que devia ter-se encontrado connosco, não conseguiu. Erro no
nome do Hotel que, por erro lhe deram, e nós não sabíamos o dele
(depois eu era a"má da fita", quando estas descoordenações se tornavam
um problema, qd eu me sentia mais competente do que a “entourage”...
Sempre preferi trabalhar com gente mais capaz e sabedora do que eu.
Com o génios nunca tive confrontos!).

16 - 1987? - Para mim tb foi normal viajar no autocarro 24 para o MNE
(nem sei porquê - avaria no carro da SECP, à última hora? Não aparecia
táxi?). Viu-me Pedro Cid e nem queria acreditar - um membro do governo
nos transportes públicos...
Não era o equivalente a viajar na económica da TAP, atrapalhando meio
mundo e, quando a económica vai cheia, obrigando a companhia a fazer
"upgrade" a quem paga bilhete de económica (ministros na TAP vão de
graça...)

 Nunca viajei com despesas de representação, enquanto no MNE.
Haver 2º exemplo? Limitava-me a ajudas de custo, como as de
funcionários públicos e com elas pagava os hotéis e o resto. E as
embaixadas a reservarem-me suites enormes e caras, julgando que eu
gozava das tais verbas para despesas de representação... Ainda por
cima nem gosto de grandes suites! Em algumas até me perdia lá dentro.

E as viagens que paguei do meu bolso, quando recebia convites das
comunidades, na qualidade de VP da AR! Victor Crespo achava sempre
muito bem que eu os aceitasse, mas à minha conta. Até perdia o
subsídio diário a que os deputados têm direito quando estão em
trabalho, em Lisboa.
Mas eu fazia-o com gosto. Pelos amigos das Comunidades, e para irritar
o SECP Correia de Jesus, que entendia que eu estava a "invadir" os
seus domínios... Foi uma alegre guerra de alecrim e manjerona.
Mais tarde contei-lhe: gastei muito dinheiro, em parte por sua causa,
porque sabia que as minhas visitas o incomodavam e isso divertia-me...
Não sei se ele achou graça.

 Aos EUA, não faltei a um só Dia Nacional nesse período de 4 anos. Em
Connecticut, Adriano Seabra da Veiga telefonava-me a comunicar: "Tem
de vir, já pus o seu nome nos cartazes do 10 de Junho". E eu ia. A
Newark, com o Sr Coutinho e a Dona Maria, também não podia faltar.

 Uma vez, em Waterbury, ofereceram-me uma vistosa águia. E eu não
percebia porquê. Seriam benfiquistas? (o FCP tinha ganho pouco antes o
campeonato). Seria uma inspiração do meu apelido?  De repente,
lembrei-me: é a águia símbolo da América! Viajou comigo no avião da
TAP. (em executiva)

 Mais difícil foi trazer uma cadelinha "Yiorkie", oferecida por Rita e
Adriano, na minha 2ª ida a Connecticut, em Novembro de 1980.
Eu gostava muito dos cães deles, do Champions e dos outros - uma
colecção, 6 ou 7, pequenos e saltitantes "yorkies", a contrastar com o
enorme São Bernardo. o Tighny...
Foi uma surpresa... e uma preocupação. Como a traria na travessia
aérea do oceano (embora com a papelada em ordem)? E como a poderia
cuidar em Lisboa? (a Maria Póvoas já tinha morrido)
Mudei o voo de uma outra companhia para a TAP. Entrei com a pequenina
cadela ao colo e um funcionário olhou e exclamou: "Oh, it looks real!"
"It is real" foi a resposta.

A travessia foi incrível. Todos os passageiros vinham ver a cadelinha,
que se tornou muito popular, e falavam comigo - não dormi nada!
Eu trazia toda a documentação necessária para a cadela entrar em
Portugal, mas, à cautela, não fosse surgir uma burocracia de última
hora. avancei sem a declara. Foi sempre uma americana clandestina no
país...

 Uma espantosa cadela, inteligentíssima, como é uso norma naquela
raça, (mesmo assim, ela era uma inteligência superior, mas mázinha,
mordia criancinhas, mordia os calcanhares dos meus pais, qd queriam
sair de casa, contra sua opinião.
Esteve comigo em Lisboa durante apenas um mês. Depois, tive de
trazê-la para casa dos pais, em Espinho, porque vivia em solidão. Teve
uma alergia a comida de cão trazida da América, teve de ser tratada
pelo veterinário conhecido da Milú - uma sumidade que a pôs boa,
rapidamente. Qd ia à consulta, perto do Largo do rato, levava-a,
depois, comigo para o MNE , onde também era uma visitante clandestina,
escondida nos meus casacos, até chegar ao meu gabinete. Uma vez até me
cruzei com o MNE Freitas do Amaral, com ela aninhada debaixo de uma
conveniente capa preta...
Nos tapetes do gabinete fez inconveniências, uma vez por outra, mas um
Embaixador, que era criador de cães, ensinou-nos o remédio: agua
gasosa, em cima da carpete, no sítio carecido de limpeza.

17 - Anos 80
 Os amigos da América
O Doutor Cachadinha, Padre, hoje Monsenhor José Alves Cachadinha, tão
Sá Carneirista  como eu. O mesmo se diga de Adriano Seabra da Veiga.
Nos anos 70, recebeu Sá Carneiro, António Maria Pereira numa 1ª visita
aos EUA, após o 25 de Abril. Julgo que o amigo de longa data era o
António. sei que os levou ao Governador do estado de Connecticut e os
acompanhou a Boston, para o encontro com o Cardeal Medeiros,  um amigo
de casa do Adriano.
 Muitos outros lá estiveram, antes e depois dessa data - Amândio de
Azevedo, Leonor Beleza (então Secretária de Estado) . Também Zeca
Afonso, para tratamento, Spínola e Veiga Simões, no exílio, a prima
Amália Rodrigues... etc, etc...
Era uma casa magnífica, sempre aberta para os portugueses. Uma mansão
esplêndida, na zona do "country club" e na vizinhança de várias
celebridades de Hollywood.
Quantas vezes os visitei? Inúmeras. Adriano era o Cônsul Honorário e,
muito mais do que isso, um líder da comunidade, sempre a organizar
eventos imperdíveis!

18  -2003 -  Macau
A questão da não reintegração de funcionários públicos de Macau na
administração portuguesa foi uma das que me levou a abandonar a
política. A não aceitar um lugar nas listas de deputados da emigração,
pelo PSD, em 2005.
A promessa de reintegração daqueles que prematuramente tiveram de
optar por Macau, antes da entrega do território à China, fora feita
pelo PSD (na altura eram já poucos os funcionários nessas condições -
uns 150? - e não regressariam todos de imediato...).
Um requerimento ao governo em que era exigida essa decisão foi
assinado por mim, pelo José Luís Arnault e pela Natália Carrascalão.
Um longuíssimo requerimento, com extensa e boa fundamentação jurídica.
O mais longo que jamais subscrevi - limitando-me a enquadrar nas
fórmulas de estilo uma exposição bem elaborada pelos juristas da
secção do partido de Macau. Recebi essa incumbência do próprio
Secretário Geral J L Arnault.
Reafirmei, naturalmente, a posição do PSD numa visita à Região, como
deputada. Dei a minha palavra., absolutamente convencida que o partido
honraria a promessa.
Que ingenuidade! Não cumpriram coisíssima nenhuma. O Arnault, que era
Ministro desapareceu desta história, como se nunca tivesse estado
nela. E uma jovem Secretária de Estado de Manuela Ferreira Leite veio
à Comissão de Negócios Estrangeiros dizer "não", com os mesmíssimos
argumentos que o PS invocava no passado.
Pedi públicas desculpas aos Portugueses de Macau, com a devida
publicitação, pelo menos a Oriente. Quis mesmo lá ir, dizê-lo de viva
voz aos portugueses, mas não consegui, no tempo certo. Usei o
sucedâneo. E deixei de ter condições de me recandidatar por um partido
que lhes tinha mentido.
Sei que não é comum levar a sério estas coisas. Mas eu levava.
Senti-me traída, como eles.

 Lembro-me a propósito (não a propósito de Macau, mas do respeito pela
palavra dada...) do ultimato que o PSD lançou, em 1985, ao General
Firmino Miguel, dando-lhe um prazo para responder se aceitava
candidatar-se a PR com o apoio do PSD. A resposta só podia ser "não"
(que era o que o ultimato, congeminado pelos opositores do Prof Mota
Pinto, realmente visava...) .
Umas semanas depois, eu (grande admiradora de Firmino Miguel) falava
do assunto num grupo de amigos. Alguns achavam que o General ainda
podia repensar, invocando alteração de circunstâncias e interesse
nacional. Responde um outro: " um político faria isso, um militar não.
A palavra está dada, é para cumprir".
Neste aspecto sou certamente mais militar do que política.

 Sem Mota Pinto, o PSD iria mudar muito... O sucessor acabou sendo
Cavaco Silva, inesperado vencedor na Figueira (com o meu apoio -  com
a de todos os chamados "críticos").
Com o General F M fora da corrida, apoiava, espontâneamente e qualquer
que fosse a posição do partido, Freitas do Amaral para PR.
Por coincidência, Cavaco conseguiu impo-lo ao PSD, mas eu já antes
tinha participado nas primeiras iniciativas de campanha. Por
distracção, até fui à conferência de imprensa de apresentação da
candidatura, que confundi com o lançamento de um livro do Professor.
Na sala só estavam jornalistas...e eu ! O professor saudou-me
efusivamente e eu lá fiquei a tentar não dar nas vistas, o que era
impossível.

Em eleições para o PR faço o que quero, não sigo necessariamente o
partido. Votei Eanes na 1ª eleição, depois Soares Carneiro, depois
Freitas do Amaral, depois não votei Soares (porque achava a colagem do
PSD um acto de profunda hipocrisia política), depois Cavaco (apesar da
admiração por Jorge Sampaio - aí segui o conselho de Fernando
Nogueira, presidente do PSD, a cuja comissão política pertencia) e,
finalmente, Mário Soares!
Nunca tinha votado no Doutor Soares, um dos verdadeiros fundadores
desta democracia e, como pessoa, uma pessoa fantástica! Achava mesmo
que a idade, a experiência, o imenso prestígio internacional, o
tornavam o candidato ideal. Mas não para este povo, que idolatra a
juventude. Sabia que, por isso, a vitória de Mário Soares era utopia,
mas deu-me uma grande satisfação moral votar nele! Hoje faria o mesmo.

19- 1985  Visita a Cabo Verde, viagem ao paraíso!
Fui a convite do MNE Silvino da Luz. Fiquei ao seu lado num jantar no
Palácio das Necessidades e tive de confessar que ainda não conhecia C
Verde. O convite foi feito logo ali, mas a viagem teve de ser adiada,
porque, entretanto, mudou o Sec de Estado da Cooperação (Luís Gaspar
da Silva, com quem tão bem me entendia, deixou o cargo para continuar
a carreira diplomática em Paris e foi substituído pelo chefe de
gabinete de Gama, Eduardo Âmbar). Naturalmente, Âmbar queria ir antes
de mim ao Arquipélago. E foi, levando os cantores do regime, a Lena d'
Água e a Banda Atlântica (tenho mais certezas quanto à Lena do que
quanto à "Banda", mas acho que se chamava assim ...), inaugurando
centros culturais e bibliotecas. Belos gestos de cooperação, muito
meritórios e vistosos.
Parti duas ou três semanas depois, com a Presidente do IAECP, a Mª
LuísaPinto, e com os 4 fadistas de Coimbra (a pedido do Embaixador
Baptista Martins, que nos disse que o fado era muito apreciado naquele
país).
Foi a Margarida Serra e Moura, do meu gabinete, que conseguiu
convencer o grupo de Bernardino a fazer a "tournée". Como eram os
quatro funcionários públicos, pedimos aos respectivos serviços que os
dispensassem - o que foi, milagrosamente, conseguido em tempo útil.
O sucesso foi imenso! Salas de espectáculos cheias por todo o lado,
aplauso infindáveis. E quando, a encerrar, convidavam os antigos
estudantes de Coimbra a subirem ao palco para cantar "Coimbra tem mais
encanto na hora da despedida" o palco ficava repleto. Políticos,
funcionários, quadros, empresários... Será que ainda hoje isso
aconteceria?

 E, para além das conversações sobre temáticas da emigração,
organização de estruturas e serviços, que obviamente interessavam a um
país de grande diáspora (sobretudo na Europa e na América do Norte),
queriam também que fosse naquela precisa altura assinado um acordo
sobre os seus imigrantes em Portugal. O Ministro Maldonado Gonelha e a
Sec De Estado Leonor Beleza eram os governantes responsáveis pelas
negociações e decisão. Pela parte de Leonor, todas as facilidades. Não
assim da parte daquele ministro. Mas a sua oposição cedeu quando foi o
próprio homólogo de Cabo Verde a pedir-lhe urgência na assinatura...
(sugestão minha - que resultou plenamente). E fi-la não porque tivesse
interesse pessoal, mas porque era importante para eles, para os
imigrantes!

 Estávamos nas vésperas da celebração dos 10 anos de independência de
CV . Levei comigo uma medalha com os símbolos de CV e de Portugal e
estes dizeres: "10 anos de renovada amizade". Foi muito apreciada.
Tudo correu às mil maravilhas. Poucos meses depois foi editado um
livro sobre essa primeira década. Lá vem uma grande foto minha tirada
com os amigos de CV. Nenhuma do Âmbar. E, se é que Gama lá aparece,
estará em ponto bem mais pequeno.
Não era um objectivo, nem imaginava que pudesse acontecer, mas, depois
de tantas pequenas quezílias domésticas, acabou por dar algum gozo (um
gozo coimbrão...).
 Estou convencida que os fadistas, que eram amigos de meio mundo
naquelas terras, ( e do meio mundo mais influente) tiveram nisso uma
importância inesperada! Foram convidados como músicos, mas a sua mais
valia do ponto de vista político não foi menor do que a musical.
Criaram o "ambiente" humano em que me movi.
 E o Embaixador também foi inexcedível. No banquete final na
residência havia ministros por todo o lado e mais de 400 convidados!
Ouviu-se o fado, em palco improvisado num recanto do jardim. Um
espectáculo feérico, numa noite quente e ventosa.

20 - 1986?
 Inauguração de uma estátua ao emigrante em São Pedro do Sul -
promovida por portugueses da RAS. Levaram lá uma multidão de
personalidades, Embaixadores, Ministro Louis Nell, líderes da
comunidade, jornalistas. etc.
 Missa campal, sob um sol impiedoso. Tive de discursar nas duas
línguas e para as câmaras da RTP. Grande almoço no antigo hotel das
termas. Seguranças à volta do Ministro. Convidei-o a ir comigo dar uma
volta pela terra. Não estava previsto... Começaram a levantar muitas
objecções... ainda e sempre a segurança. Até que o ouvi dizer,
decididamente: "Se ela vai, eu também vou".
E fomos, em pequeno grupo excursionista, gozar as belezas da terra, e
o remanso da "pax" portuguesa. Perigo só mesmo na cabeça deles (dos
serviços de segurança, que talvez nos tenham seguido, mas de longe).

  O encontro com Walter SISULU, o famoso companheiro de prisão de MANDELA
O Emb Cutileiro organizou quando de uma ida minha a Capetown um
encontro com Albertina Sisulu, feminista e notável senhora. Achou que
gostaríamos uma da outra.
Meeting no escritório do advogado (indiano) de Mandela e Sisulu.
Chegámos cedo. O advogado era  pessoa introvertida, a conversa não
fluía. Até que se abre a porta do gabinete e entra, não a senhora
esperada, mas um homem de braços abertos e grande sorriso a iluminar
-lhe o rosto. Walter, evidentemente. A dizer, depois de um abraço
cordial, que estava a substituir a Mulher, que caíra subitamente na
cama, com gripe. Foi encantador!
 Como foi possível uma atitude de tão grande simpatia e abertura aos
outros (qualquer que fosse a cor,  a nacionalidade, a religião, a
ideologia) por parte de alguém que o apartheid tinha mantido
prisioneiro até umas poucas semanas atrás?
Mas foi essa atitude, essa qualidade humana que tornou possível o
milagre da nova RAS, em liberdade, em convivência democrática.  Há
problemas, mas não os que se esperariam, o afrontamento e o ódio
racial.

21 - 1983, Roma -  Conferência dos Ministros responsáveis pelas
migrações do Conselho da Europa.
Anita Gradin, Ministrada Imigração da Suécia e eu, Vice-Presidentes da
conferência, juntamente com o homólogo grego. Presente a Sec Estado da
Imig da França Georgina Dufois.
Aí se traçou uma "entente" que durou anos. Aliadas, com visões
semelhantes da imigração e das questões de género (elas socialistas,
eu, nestas matérias, ainda que não, porventura, em outras, tanto ou
mais esquerda do que elas...). Fiz a ponte, até do ponto de vista
linguístico entre as  duas Ministras - inglês com Anita, francês com
Georgina. Era amiga das duas, mas elas nunca tiveram entre si o mesmo
grau de intimidade ou à vontade.
Já nem sei ao certo o que disse em Roma - só em termos de linha
política, que essa foi sempre a mesma: defesa da dupla cidadania, com
factor de integração, igualdade de direitos face aos dois países. E
sei que fui bastante convincente.
Anita convocou, de seguida, uma grande conferência sobre a dupla
nacionalidade em Estocolmo (embora ainda hoje seja menos adepta da
solução do que eu...).

 Difícil converter os nórdicos à dupla nac... mas correu o melhor possível.
No fim os ministros partiram todos, menos eu. Acompanhada da Mª José
Cabugueira, adjunta do meu gabinete, segui com Anita e Bertil para a
casa de campo numa ilha encantada...
Vizinhos eram dois ou três, dispersos pela pequena ilha. A casa ficava
entre bosques.

 Fui com Anita apanhar cogumelos, com Bertil pescar de barco. Eu
remava, enquanto ele lançava as redes. Salvei a vida de muito peixes,
porque, apesar dos seus avisos, remava depressa demais. Só trouxemos
um peixe graúdo para casa, que foi o nosso jantar. A Anita sabe mesmo
cozinhar! Para mim, cozinha é laboratório de química, onde todas as
fórmulas, comigo, dão erradas. (só consigo fazer chá e café - como
dizia um amigo inglês sei "ferver água" – é verdade – ovos cozidos
também..Vd Lar de França, tudo a preparar grandes repastos e eu com o
meu ovo cozido, num pequeno tacho à medida…)).
Anos depois, estiveram ambos no meu apartamento de Espinho. Visitamos
Aveiro e o castelo da Feira, mas no domingo o ICEP trocou-nos os
planos... Souberam que ela (então Ministra do Comércio) já estava em
Portugal e insistiram em lhe oferecer um passeio pelo rio Douro, para
o qual, naturalmente, tiveram de me convidar.
Esta era uma visita pessoal, seguida da oficial.
Em várias ocasiões, primeiro a meu convite, depois, trazida por outras
entidades veio muitas vezes a Portugal. Um ano fez férias na madeira.
Fui lá para estar com eles. Anita arranjava sempre maneira de nos
encontrarmos. Tinha e tem dois amigos em Portugal: o António Guterres
e eu (De Guterres foi colega na APCE, ele sucedeu-lhe como presidente
da Comissão das Migrações - cargo para o qual também fui eleita, mas
bastantes anos depois).

 1988 - Numa dessas visitas convidei-a a ir à Comissão da Igualdade na
AR (que então presidia), falar sobre o sistema de quotas, que ambas
defendemos. Ela era presidente da Internacional Socialista de Mulheres
- e explicou-nos como dentro do PSD sueco tinha conseguido, décadas
antes, introduzir as quotas.
Os homens davam sempre a desculpa de que não havia candidatas. Ela e
outras organizaram uma lista de voluntárias com excelente curriculum
e, assim, responderam ao velho argumento. Vingaram as quotas, apesar
da relutância de muitos.
Em Portugal, na 1ª tentativa de introduzir as quotas (na lei, não
internamente num partido, à sueca) fui a única a votar a favor do
projecto do PS. E andei fazendo campanha nos media com o António
Costa, que é um convicto da causa, como eu!

REP? 55 - 1984 -  Atenas -  com escolta pela cidade (dois homens e uma
mulher, elegantemente vestidos e muito agradáveis). E despistei-os,
involuntariamente, com o meu passo rápido, nas ruas estreitas da
Plaka. Tive de ir procurá-los. Eram tão simpáticos - seria mau chegar
sem eles ao hotel...

22 -  A outra grande aliada: Georgina Dufois.
Uma dona de casa que Mitterrand trouxe para a política. Muito
inteligente, uma mulher excepcional, generosa e aberta, com grandes
preocupações sociais, protestante num país de maioria católica. Foi 1º
Sec Estado da Imigração (nessa qualidade a conheci, em 83), depois
Ministra dos Assuntos Sociais e porta-voz do governo. Carreira
meteórica, terminada pelo caso do sangue contaminado (semelhanças com
Leonor). "Sinto-me responsável, mas não culpada" afirmou no
julgamento. Tudo tramitara pela Sec de Estado da Saúde e creio que
ficou provado que o principal culpado foi o Director Geral. Mas ela
afastou-se para sempre da política. Nessa fase e depois tentei
contacta-la, sem conseguir.

Enquanto fui SEE e SECP, entre 83 e 87, sempre contei com ela.
A relação ficou mais no plano oficial, mas foi de uma constante
sintonia. Emigrantes -emigrantes eram gente de quem gostávamos,
genuinamente. E éramos feministas, também.
Com Georgina fui Vice-Presidente de uma Conferência do Conselho da
Europa - convidaram-nos porque sabiam dessas afinidades ideológicas e
do bom entendimento pessoal, julgo eu.
Com Anita estive no Conselho da Europa, em Estrasburgo, na 1ª
Conferência de Ministros responsáveis pelas questões femininas (em
84?)
Tº conjunto, para mudar atitudes e preconceitos contra a emigração,
contra as mulheres.

Dufois já era ministra quando integrou a comitiva do 1º ministro em
visita oficial a Portugal. Passamos horas e horas em negociações, numa
sala cheia de ministros... Depois, reunimos nós as duas, no MNE, para
prepararmos os temas de uma próxima comissão mista. Em 5 minutos
acertamos tudo - agenda e viabilidade de encontrar soluções. Eu dizia
o que queríamos. Ela respondia, indicando até onde podia ir (para
espanto dos nossos diplomatas, pouco habituados a esta franqueza e
pragmatismo)
Confidenciava-me ela à saída: "Que diferença entre a nossa reunião e a
dos homens. Eles gastaram horas para tratar menos coisas do que as que
nós resolvemos em cinco minutos".
Eu poderia ter dito o mesmo - como Dupond e Dupont (je dirai même plus...)

 1987  -  Creio que a última vez que Georgina veio a Portugal, a meu
convite, foi para participar numa série de conferências com que
inaugurámos um simpático auditório na Rua do Passadiço (tudo isso
depois desapareceria rapidamente, como o Fundo Documental e
Iconográfico das Comunidades Portuguesas, o Centro de Estudos, as
publicações... E não sei mesmo se sobrevive todo o material que foi
então digitalizado, através de um protocolo com o Instituto Rainha
Dona Leonor).

 Bem, passando a um tom mais ligeiro, seguiu-se um restrito jantar em
que as mulheres predominavam. Algum equilíbrio era dado pelo quarteto
de fados de Coimbra - Berna e os seus amigos, voluntários, sem
"cachet", mais uma vez.

23- Falando de equilíbrio de género: houve, em Lisboa, por essa
altura, uma comissão mista luso-alemã, em que, por acaso, a parte
alemã era constituída só por homens e a portuguesa só por mulheres.
Como estava fazendo sucesso a telenovela "Guerra dos sexos", a
referência foi coisa inevitável. As negociações correram muito bem -
como quase sempre acontecia com a RFA. Porque nós defendíamos os
emigrantes com dados e estatísticas deles (muito favoráveis!). Não
participei nos trabalhos, porque era um grupo técnico, mas
ofereci-lhes o jantar de despedida e glosei, para gáudio geral, o tema
da guerra dos sexos.
Falo demais dos jantares, mas o bom relacionamento pessoal não passa
só, mas também passa, pela mesa dos restaurantes.

Não que eu goste muito de recepções os jantares oficiais, mas aguento
firme. A verdade é que quase nunca me entusiasmava a perspectiva
desses eventos gastronómicos, mas, depois, divertia-me imenso. Quanto
mais informal, mais me agradava. E vice-versa. No fundo da escala
estavam os banquetes, quando o vestido comprido era obrigatório...
Lembro-me de ir inúmeras vezes em direcção aos palácios da Ajuda,
Queluz ou, ocasionalmente, Sintra, no carro oficial, com o motorista,
à hora em que as pessoas faziam filas longas nas paragens de
autocarro. E eu pensava que eles me olhavam como uma privilegiada,
querendo estar no meu lugar, enquanto eu queria estar no deles.
Apanhar o autocarro e ir para casa jantar e ver tv, ouvir um disco ou
ler um livro!
Mas, depois, lá nos salões dos palácios, encontrava amigos e sentia-me bem.

 Não foi desagradável, mas esteve perto disso, o caso do banquete no
Kremlin, na comitiva do Presidente Soares. Segredou-me a Maria Santos
a certa altura: "Tens uma grande malha caída nas meias pretas, mas
descontrai-te! Acontece, não tem importância". E eu tive de me
descontrair. Se o tempo estivesse bom, era mais fácil. Ía aos lavabos,
e deitava as meias no caixote do lixo. Ali, com temperaturas
negativas, não era solução.

- 1980  O 1º jantar de gala do governo AD, no Palácio da Vila, em
Sintra. Quase morri de frio! Mas sobrevivi.
Por acaso, tinha mandado perguntar ao protocolo se as salas do Palácio
eram aquecidas e a resposta foi positiva.
Resolvi, confiadamente, levar um vestido (comprado na Ayer) de chiffon
azul, muito bonito e muito fresco... O Palácio era um gelo! Havia
alguns pequenos e pré-históricos aquecimentos a gás, tão inestéticos
quanto inúteis. Eu nem queria acreditar...
A noite estava frigidíssima, mas eu levava um casaco de peles
comprido. Cá fora, tudo bem. Só que, claro, deixei o casaco no
vestiário...

 O convite era do Primeiro-ministro e Senhora de Sá Carneiro. Por um
momento pensei que Sá Carneiro tinha cedido a pressões e chamado a
primeira mulher, ida do Porto para a ocasião. Mas isso era
inconcebível.,, À entrada, lá estavam a receber os convidados, dois
casais; Snu e Francisco SC, Mizé e Diogo FA, Que alívio!
Conheci Snu ali mesmo. Como não havia mais convidados a chegar, nessa
altura, fiquei a conversar, mas já sem casaco de peles. Foi Snu (bem
agasalhada e lindíssima!) que me aconselhou, com a sua sagesse
nórdica, a ir lá para cima, para não me constipar. No átrio, de facto,
estava ainda mais frio do que nos salões gelados do piso de cima.

24 -1985 -  Falei das mulheres, minhas aliadas na emigração. Mas houve
um homem, que acabou por merecer também essa qualificação, no
masculino: Jean Claude Junker, que era, então, Secretário de Estado da
Imigração (do Trabalho e da Imigração, suponho) do Luxemburgo. Muito
jovem e já muito promissor. "Vai ser um futuro 1º Ministro", dizia o
nosso embaixador. Não se enganou!

Coube-lhe vir a Portugal transmitir as reservas do seu governo à
liberdade de circulação dos emig. Na chamada sala dos embaixadores do
Palácio das Necessidades, conversações em linguagem franca e dura, de
parte a parte. Para mim, era mais importante garantir todos os
direitos da cidadania europeia aos já residentes no Lux do que
facilitar a ida de novos emig. Como lhe disse, sem rodeios,  até
preferia outros destinos na emig por causa das dificuldades
experimentadas pelos filhos dos migrantes num sistema de ensino dado
em várias línguas difíceis...
Ele era, de facto muito novo, parecia introvertido, áspero,
inflexível. E eu, se não parecia, também era... Acordo impossível.
Não era razão para não o tratar o melhor possível, fora da sala de
reuniões. O almoço foi o absoluto contraste da reunião. Descobri logo
ali um homem inteligente, comunicativo e com um surpreendente sentido
de humor. Descontraímos, falamos de coisas agradáveis e encontramos
sintonias... De volta às negociações, mais do mesmo dissenso. Ninguém
cedia. Na conferência de imprensa não disfarçamos as fundas
divergências - nenhum de nós era pessoa para isso. Assim o
desentendimento nos aproximou. Os povos do norte, ao contrário dos
sulistas, preferem sempre a verdade à hipocrisia diplomática, às
palavras redondas. Neste aspecto, sou excessivamente nórdica e
entendo-me bem com eles.
Na altura, o Luxemburgo impôs a cláusula de salvaguarda, mas JC
Junkers iria ser um dos defensores dos trabalhadores portugueses (ao
fim de apenas 3 anos, como Ministro do Trabalho, garantiu a livre
circulação para os Portugueses. E, como ele já previa, não houve
"invasão" do território pelos portugueses, embora sejam muitos (uma
elevada percentagem do total de estrangeiros no mercado de tº).
Estive há dois dias, a 24 de Junho, no Encontro dos Luso Eleitos em
Cascais, ao lado do Emb da Luxemburgo. Foi ele que me enviou o texto
do discurso de JCJ na Gulbenkian, em 2011, em que ele começa por
relatar essa visita a Portugal, a sua 1ª visita ao estrangeiro (facto
que eu desconhecia). E em que confessa que se sentia constrangido por
ter de exigir a cláusula de salvaguarda (o que eu não pressenti). Mas
confirmou-se a minha 1ª impressão: um homem muito inteligente,  bem
formado. leal.Um humanista, um europeu. Há poucos hoje na Europa...

 JCJ esteve mais vezes em Portugal nesse período. Fez questão de estar
presente na Conf de Ministros do SE no Porto. Mas o contacto perdeu-se
qd saí do governo em  87. Continuei mais solicitada pelas comunidades
que representei como deputada antes de 87 - as de fora da Europa.
Reencontro com ele cerca de 15 anos depois em Estrasburgo, qd
discursou no hemiciclo na qualidade de Primeiro Mº. Admiti que nem me
reconhecesse. Não foi o caso. Grande manifestação de amizade. Mª
Elisa, então deputada, contou tudo com pormenores na sua crónica
semanal do DN.

25 - 2012 - Um choque, ler, ao deitar-me, quando folheava o Expresso,
o obituário de João Aurora, por Cutileiro.
Muitos Embaixadores que conheci no MNE, foram meus amigos,
receberam-me em casa, como família, mas de nenhum guardo recordações,
a um tempo, tão saudosas e tão alegres! Cutileiro dá essa nota
perspicaz: mesmo nesta hora mais triste, em que sabemos a notícia da
sua morte, é em histórias divertidas que pensamos. Porque ele era um
verdadeiro Senhor do Minho - cheio de uma vivacidade muito minhota,
sempre a fazer acontecer as coisas mais inesperadas! Um aristocrata de
uma encantadora simplicidade, sem o mais leve traço de snobismo
(snobismo em que, contrariando a significado da palavra, incorrem
tantos descendente da nobreza pátria, de alto a baixo...).
Ficam para sempre entre os melhores momentos da minha vida os dias que
passei no seu solar de Ponte de Lima. Ainda não recuperado, como viria
a ser, mas, por isso mesmo, lugar de amiga e informal hospitalidade.
Era Abril e fazia um frio medonho e no quarto, lá estava um pequeno
aquecedor a gás, mas tudo o resto era grande, antigo e precioso, a
começar pela colcha bordada de Castelo Branco. Pouco observadora que
sou, não consigo descrever o resto - só mesmo a colcha em tons
dourados.

1984 -  Ocorreu esta visita a propósito da organização do dia 22 de
Abril - comemoração do dia da Comunidade Luso-Brasileira, celebração
com tradições no Brasil, mas que oficialmente, por iniciativa da SECP
- ou do MNE - acontecia pela primeira vez em Portugal. Muito
encorajada, evidentemente, pelo Embaixador João Sá Coutinho, então
Secretário-Geral do Ministério. Não me recordo com rigor, mas a ideia
de sedear a festa em Ponte de Lima foi certamente dele, em conversa
comigo. Devia estar eu ainda indecisa quanto ao lugar "onde", dei-lhe
conta da indecisão - e ele terá feito a proposta. Da minha parte, a
probabilidade era apontar para o Porto...

 Em termos de comemoração foi o maior êxito, praticamente impossível
de igualar - com conferencistas como Alberto da Costa e Silva, um
orador espantoso, José Augusto Seabra e outras sumidade das nossas
Letras. Claro que houve episódios de susto, mas tudo por detrás dos
bastidores - alguma desorganização -  deram um copo de água gelada a
Seabra, que quase ficou afónico, o discurso do MNE, que não chegava,
etc. etc.

Eu gosto de organização e não de improvisação. Mas não conseguia
converter os mais próximos, menos ainda os serviços. Sempre a mesma
coisa - um stress, luta contra o tempo, erros à mistura, às vezes
intervenções minhas de salvação in extremis, mas, depois, tudo parecia
fruto de um trabalho muito bem gerido... Bem eu dizia: prefiro que se
organizem e falhem, do que assim, a fazer tudo sobre a hora, mesmo que
acabe por correr bem... Não houve maneira...

Em todo o caso, o grande mistério do desaparecimento da declaração do
MNE, não foi culpa do meu staff... Na verdade, foi perdido por uma de
duas pessoas: o Emb João Sá Coutinho ou eu...
Ìamos nós, muito despreocupados, para o centro da cidade, quando, ao
sair do carro, me lembrei do discurso ministerial. Achamos boa ideia
lê-lo e o Embaixador foi buscá-lo ao automóvel. Antes de abrir o
envelope, disse-me: "Vai ver que começa assim: "Aproveito o ensejo
para me associar... "
Eu também imaginava o Pires de Miranda a escrever (ou alguém por ele)
uma trivialidade semelhante, mas quando Sá Coutinho começou a ler o
papel, em voz alta, e as palavras eram precisamente aquelas, começamos
os dois às gargalhadas, em simultâneo e em uníssono. Caminhamos, lado
a lado, a rir imenso, pelas ruas velhas de Ponte de Lima. Até que,
quando eu quis guardar a mensagem, que devia declamar nessa tarde, ele
já não a tinha. Mas eu também não! Procuramos tudo - as carteiras, os
bolsos dos casacos... fizemos o trajecto em sentido contrário, olhando
as ruas, espreitando até as sargetas. Voltamos ao carro, que foi
inspeccionado ao milímetro... Nada ... A mensagem sumira! Levara-a o
vento, com certeza...
Houve que pedir cópia a Lisboa, com urgência. Isto aconteceu antes da
era do fax. Chegou por telex, com vogais duplas. Foi lido assim mesmo,
não houve tempo de mandar dactilografar...

 Pequenos-almoços memoráveis, prolongados por quase toda a manhã. Com
ele, a mulher Teresa e a cunhada, Mª Antónia, uma grande portista, que
num dos dias até cantou o hino do FCP, a acompanhar as torradas.
Era um bom pretexto para conversarmos infindavelmente, a tomar mais e
mais café. Nesta fase, Sá Coutinho levantava-se, ia ao jardim, voltava
com uma flor que nos oferecia, e contava mais uma história incrível,
acabada de acontecer...

 Se ele tinha graça, a Mª Antónia também tinha ( a Teresa era
encantadora, mas um pouco menos loquaz). Recordo-me que me mostrou
todos os perfis genéticos dos povos que se sucederam no Minho, através
dos criados da casa - iberos, celtas, suevos, vickings... Veja aquela
- é sueva pura! (grande e loira) A outra ali, celtibera...

 E as histórias de aldeia: o pilha galinhas. Vai conhecê-lo amanhã, no
almoço. Conheci ("Olhe, é aquele"!) Era um empregado de mesa,
distintíssimo (o roubar fazia parte de um ritual de gerações, não era
por mal, segundo a própria Mª Antónia...).

 Teresa e Mª Antónia eram filhas de um grande constitucionalista de
Coimbra, que foi meu professor no 1º ano da Faculdade de Direito (Prof
Carlos Moreira) Lembro-me de o ouvir referir-se à filha, que era
casada com o Conde de Aurora. Nos meus tempos de caloira, não poderia
prever que os iria conhecer em tão felizes circunstâncias.

26 - 2004? Foi Coimbra que determinou o meu último encontro com o
Conde de Aurora. Ele veio a um almoço organizado pela associação dos
antigos estudantes de Coimbra em Braga - homenagem a 10 mulheres
formadas por Coimbra (uma das quais eu). Estivemos à conversa - ele
com um ar ainda e sempre jovem, a dizer-me que tinha vindo de
propósito para me encontrar. Tão simpático!

 Voltando a 84: óptimo também o jantar oferecido pelos Sá Coutinho a
Vera e Alberto da Costa e Silva.
Eles estavam há pouco em Lisboa - deve ter sido a 1ª visita fora da
capital... Verinha trazia um casaco sumptuoso, para se proteger do
frio. Ao tirá-lo comentou: "É bem quente, mas faz-me parecer muito
mais gorda".
Resposta de uma das senhoras minhotas, já não sei qual: "Isso até é
bom. Quando tira o casaco, as pessoas pensam: afinal e muito mais
magra do que parece".
Verinha era linda, mas, ao contrário de Alberto, não muito magra.

 Outro minhoto divertido: o Embaixador Villas Boas. Uma vez passei um
serão inteiro a rir na sua residência de Capetown. Algumas das
história mais delirantes eram à volta da crença aldeã nas almas do
outro mundo... Que pena não ter gravado - ou pelo menos registado...


27 - 1988? Durão Barroso e a não ida a JNB
Era ele SENE e eu VP da AR. Eu tinha convite da org do 10 de Junho e
ele foi, depois, indicado como representante do governo nas
cerimónias. Para evitar dúvidas ou incidentes protocolares,
telefonei-lhe, dizendo que não haveria problema, porque eu insistiria
numa presença a título particular. Mesmo assim ele, homem muito
prudente, achava que era melhor eu não ir. Preveni que poderia o
cancelamento da minha visita causar perturbações, qualquer que fosse a
elegante desculpa dada à última hora...Os meus amigos eram gente
esplêndida, mas reagiam mal a este tipo de situação...
Aconteceu tudo conforme as minhas previsões - ou pior ainda...
Choveram piadas - no jantar de gala deixaram uma cadeira vazia, com o
meu nome em frente. Bastante mau para todas as partes.
Mas DB percebeu que eu tentei, o mais possível, evitar o desastre e
penso que foi daí que nasceu uma duradoura relação de confiança.
Dou-me muito bem com transmontanos! São francos e directos, como eu...

28 - Falando de transmontanos: uma sorte ter podido conhecer Adriano
Moreira.! Um dos mais brilhantes portugueses nascidos no século XX.
Pena Portugal não ter sabido dar-lhe mais oportunidades na vida
pública... A verdade é que não há políticos com a sua inteligência e
capacidade de pensar e executar. Não usar os melhores, em democracia,
dá no que estamos vendo
Adriano Moreira é, no convívio, semelhante a Barbosa de Melo: com eles
é impossível conversar sem aprender - são aulas de grandes Mestres
(coisa que ambos são, por gosto) Além disso, são ambos - embora muito
diferentes - dotados de um muito especial sentido de humor.
AM sabe sempre uns ditados antigos, que cita, bem a propósito, como
estes (quando há uns anos falávamos da gente que nos governava nessa
altura, não muito diferentes dos que nos governam hoje...) "Desconfiai
de paredes velhas e autoridades novas. Caem-nos sempre em cima".

1980 - Conheci-o por intermédio de Zé Gama, meu amigo, meu irmão.
Acabada de chegar à SEECP, tinha de criar, a partir do zero, de
imediato, o Conselho das Comunidades. Quem melhor para nos ajudar do
que o grande mentor e organizador dos Congressos Mundiais das
Comunidades dos anos 60?
Foi de uma grande abertura e generosidade. Deu-nos as lições da sua
experiência. E que privilégio ouvir relatos desses congressos
fantásticos, tão esquecidos, infelizmente. Tenho as actas, oferecidas
por ele - e quantas intervenções plenas de actualidade, apesar da
diferença de contextos desse Portugal para o de hoje... Mas no campo
da cultura as constantes predominam.
Que coisa rara é ter políticos que são homens de cultura...E não só em Portugal.
A sua falta explica a falência da Europa, tal como a nossa própria...

29 -1984/85  Génios no feminino: Agustina, Amália.
Agustina: Quem terá conseguido levá-la ao 1º Encontro de Mulheres
Portuguesas da Diáspora em Viana, 1985?
Será que alguém sabe?
Há que perguntar a Mª Luisa, que era presidente do IAECP. Foi ela que
levou Lúcia Lepecki a um 22 de Abril, em Guimarães 86 ( quase tão
fantástico como o de Ponte de Lima em 85). Agustina terá sido também
convidada por ela?...
Para mim, a maior (ou o maior) escritora (escritor) do nosso tempo, e
que ganhava em ser conhecida de perto. Tal como Amália era, na
convivência, uma anti-vedeta.
Geniais, mas com aquele ar e conversa de pessoas como nós, comuns
mortais. Ambas, sendo mais velhas do que eu, me pareciam as minhas
queridas tias. Agustina semelhante, até no aspecto físico, à Tia
Celestina (Dá Mesquita). Amália parecia mais uma tia Aguiar - muito
Aguiar mesmo! A Tia Lola, ou a Cristina, morenas, bonitas, cheias de
bom humor  e vivacidade, como ela.

 Desde 85, Agustina participou em várias iniciativas da SECP. Sempre
disponível, sempre irradiando graça e saber.
Em Amarante, por exemplo. Numa série de conferências, já não sei bem
sobre quê. Emigração, evidentemente, como tema genérico. Inesquecível
o final dos seu discurso: "Como se termina um encontro feliz? Não
terminando....

Vi-a pela última vez, até agora, em Fortaleza, há uns anos (2002? 2003?).
Ela estava na mesma, não tinha envelhecido - linda e graciosa, muito
senhora do meio século XX português - e comentou com a Rita Gomes que
a preocupava muito a minha magreza (tinha de facto emagrecido quase 15
quilos....)
Uma querida tia, mesmo! Adoro Agustina.  Tanto a escritora como a pessoa.

 Estava num seminário organizado pelo Comendador Aníbal de Araújo,
jornalista e homem de todas as comunidades, que ali reunira o Zé
Lello, o Sec Estado Feliciano Barreiras Duarte, o Emb Dário Castro
Alves (tão querido, também!) e muitos mais. Agustina ficou, por acaso,
no mesmo hotel - a convite do governo brasileiro, suponho (ou enviada
pelo nosso?)

30 - 2000? Com Saramago apenas um encontro, num avião. Éramos os dois
únicos passageiros de 1ª classe ou de Executiva, num voo de NY para
Lisboa, já não sei de que companhia. Foi muito cordial, trocámos
palavras de circunstância, ele estava de bom-humor, tinha sentido de
humor. Muito mais alto do que supunha! E tão magro como parece nas
fotos. Não voltaria a vê-lo.

 Também vi Collor de Mello apenas uma vez. Em Lisboa, pouco depois da
sua eleição. Um almoço na Embaixada do Brasil. Homem atraente, mas com
um discurso de plástico. Nada de comparável a Tancredo (que só vi de
longe, a falar no Hemiciclo de S Bento) ou a Sarney (fantástico,
emocionante (na Sociedade de Geografia? Penso que sim, em Lisboa, em
qualquer caso). Ou mesmo a Fernando Henrique Cardoso. Tão simpático!
Para além de sessões de cumprimentos, acompanhei, uma vez, Durão
Barroso, (presidente do PSD, ainda não 1º ministro), a Brasília e
participei numa reunião no seu gabinete. Extrema cordialidade. E, a
pedido de DB, antecipou a audiência por umas horas. Que outro PR no
mundo faria essa alteração, de véspera, sem problemas, mudando a
agenda, que era naturalmente intensa?

Houve  um almoço, oferecido pelo VP. Muito religioso, tinha na sala
uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida. Mais outra sintonia Brasil -
Portugal, pois é uma outra imagem de Nª Sª da Conceição, nossa
padroeira. Pelo menos foi isso que lhe disse - acho que não estou
enganada.

 31 - 1987?  Mas charme, charme genuinamente francês, tinha Jacques Chirac!
Fui na comitiva de Cavaco na sua visita oficial a Paris, (em 1987?).
Estivemos várias vezes em reuniões, almoços e jantares nesses 3 dias.
Eu não gostava nada da sua imagem, nem do seu discurso político. Pois
bem! Converti-me, pelo menos à pessoa. Tão bem disposto e tão
especialmente simpático comigo! Talvez intuísse que eu o achava bem
interessante . Espontâneo, directo, divertido. Tudo qualidades que eu
prezo no topo de uma lista... eu, se calhar, fazia a diferença, no
grupo português, todo ele mais formal e introvertido, a começar por
Cavaco Silva.

 A certa altura, voltou-se para mim e perguntou-me: "Qual é o maior
problema para os emigrantes portugueses em França?"
Respondi que era o montante dos abonos de família para os jovens que
estavam em Portugal (queríamos que recebessem o mesmo que era pago aos
que viviam em França com os pais).
"Vou resolver isso" - garantiu-me.
Bernard Bosson, Ministre-adjoint disse-me que ele era homem para
cumprir a promessa - se o papel lhe chegasse às mãos. Eu poderia ter
enviado o pedido através de Bernard, mas isso foi obstaculizado em
Lisboa... Em Portugal há canais onde as coisas ficam e a diplomacia
(pela parte dos políticos, não dos bons diplomatas...) não gosta de
diplomacia paralela. Não consegui fazer o"by pass", com o que perderam
sobretudo os nossos emigrantes...
 Bernard era Maire de Annecy - especialista de Assuntos Europeus, um
seguro aliado de Portugal - Conheci-o através do seu homólogo
português. Excelente anfitrião em Annecy, lindíssima vila antiga!
Feérica, nas festas da cidade, onde estive, evidentemente, a seu
convite...

 Bob Wong -o simpático Ministro do multiculturalismo do Ontário... Até
discursei num comício da sua campanha em Toronto, em pleno centro da
comunidade chinesa...

32 - 1980  Virgílio Teixeira.
Homem singular, grande actor, com carreira em Hollywood, português,
sem traço nem de vedetismo, nem de estrangeirismo, cidadão exemplar,
discreto, elegante, dedicado director dos serviços das Comunidades
Madeirenses. Que outro famosos actor, regressaria à sua pequena ilha
de origem e se ofereceria para trabalhar pelos emigrantes - sem cuidar
de honrarias e de fama? Por puro voluntariado. Simples, generoso, um
exemplo.
Foram anos de colaboração constante! Que grande amigo... muitas
histórias para contar sobre ele
1ª Visita ao MNE
O CCP
Visitas ao Funchal. A homenagem. A Vanda e o Pedro
D Benvinda e o rancho Português (Neuza Amaral)
Tex em Hollywood - a autobiografia que não escreveu
1995 - encontro com os meus pais em Espinho
Ultimo encontro com Vanda e Pedro no Funchal - março 2005
33- 1986? - Mécia de Sena em Santa Barbara - como em dois dias se faz
amizade para sempre.
Aquela mansão de portas abertas - e tantos jovens, a entrar e sair.
Mª Lurdes Belchior (ma bonne elle est française)
Com Docas em rota para LA

 Natália Correia. Única e irrepetível- uma improvável amiga, que o
foi... (dentro de 100 anos deste parlamento fica a Natália. os outros
estarão todos mortos...)

F Sousa Tavarres. A minha época de ouro, na AR, graças a ele. os
PPM's, Natália...
VP do grupo parlamentar ( bem queria que eu aceitasse,,,) Vizela... O
papagaio da 5ª fila...


34 -1968 - O curso na OIT Genebra O eslovaco, o russo, os
paquistaneses, a Docas...
Chamonix com nevoeiro cerrado. O japonês Maeda e as pedras para o
jardim. Sekanina e o sonho da França. A primavera, a luta de classes
(antes da rev. tb tinha criados) O cavalinho sans soucis. O carro
vermelho
Yuri Yemelianov - quem fala russo? (ele ou eu - a maioria achava que
eu falava russo, não que ele falava português. Não desmentimos...)
A visita a Lyon (Nasir, no seu inglês de paquistão : Manuela walked
and walked and tired us all...).
A mulher de Rahman, a que falava melhor (a contradizer os dizeres do marido)
Mancham, que foi 1º Mº das Seychelles.
O indiano e a mulher Reka

35 - Anos 90
A amizade com Russel: 1ª conversa sobre zulus... Sintonias balcãs e
outras o seu discurso como Presidente da APCE
Qd o deixei para trás na fronteira da Eslováquia com a Austria

36 - 1980  - Passeio de jangada no mar do Recife... Milú, Garcez Palha e o cação


36 -  1986 - Uma medalha para Roberto Leal S Paulo - palco de
emoções... O incrível aconteceu, ambos em lágrimas...

 2001  Medalha para o Sporting C deToronto
O engano, por lapsus linguae. O fato semi-bordeau ( Luis Duque). Artur
Agostinho e o gooooooooooolo

 O FCP de Toronto
No mesmo ano, duas festas no mesmo local . a do FCP de Toronto e a do
Sporting Clube de Toronto. Fantásticas festas, com centenas de
participantes - 800, 1000 - onde fui, como deputada e não como adepta.
E, por acaso, do ponto de vista protocolar,  mais bem situada pelo
Sporting. O que tem a ver com a visão das coisas e das pessoas
(dirigentes locais), como é evidente. Antes assim! Ali não houve
clubismo - apenas a forma como se encarou a deputada, numa iniciativa
da comunidade.
Muito bem o SCT, que era, e acho que continua a ser, uma das maiores
colectividades portuguesas de Toronto.

 Anos 80 -  Uma altura houve em que era convidada frequente do Benfica
de Toronto! E porque não?
Eu era SECP . Todos tratados por igual e retribuindo a simpatia recebida...


38 -  1980 -   1ª Visita ao Canadá. Programa muito bem gizado pelo
Embaixador Góis Figueira. Intenso! Grande Embaixador. Encontros
Ministro Axworthy em Ottawa . Reunião com vários ministros e
directores- gerais (nunca mais houve nada de semelhante...). Em
Toronto. 1º Ministro, Mayor, Encontro com a comunidade na Rua Augusta,
no Clube Transmontano - tarde inteira a responder a perguntas, depois,
actuaram os pauliteiros (excelente grupo . mais tarde foi lá o Dr
Mourinho de duas Igrejas, a meu pedido, para lhes dar apoio -
aprovados com 20 valores).

39 -1980 -Emb Navega e o leão da Rodésia (o 1º que conheci - em JNB -
era do Cônsul_Geral, Carlos Teixeira da Mota e eu tomei-o por um
simpático e alentado perdigueiro. Uma sorte ele ter confraternizado
comigo, antes de eu saber que não era um manso perdigueiro...)

  Milú e eu ficamos na residência em Pretória ( o Emb Coutinho
convidou-a, tb. qd se apercebeu de que ele era toda a comitiva que me
acompanhava...) e na do Cônsul- Geral em JNB. O Leão da Rodésia
acordava a casa inteira a ladrar ao leiteiro, às 6.00 da manhã...

40 - 1980 -  No Brasil o Emb Menezes Rosa. Cuidou de me alertar para a
necessidade de adaptar o modelo do CCP à realidade luso-brasileira...
Com ele que visitei o Ministro da Justiça Abi-Hakel. Antes de eu dizer
palavra já o Ministro me assegurava que a nova lei de estrangeiros não
atingiria os portugueses. Bons tempos - antes de Portugal levantar
tantos obstáculos aos brasileiros em Portugal (sobretudo com o caso
dos dentistas e com as expulsões mediáticas do 2º governo de Cavaco),
que levou o Brasil a retaliar...

 Primeira visita ao Brasil logo a seguir à da América do Norte (o
Brasil deveria ter sido a 1ª e só não foi porque eu, mulher tímida e
pouco à vontade em público, quis fazer o tirocínio nos países que
julgava serem mais informais. Mas por acaso, o protocolo nos States e
Canadá, até é bem mais exigente. tinha de discursar por todo o lado).
Foi bom - comparativamente a América do Sul pareceu fácil... Casa Das
Beiras no RJ, para o dia da Comunidade Luso.brasileira, com o Dr
António Gomes da Costa, presidindo.
 Fiquei com a Milú e Garcez palha no palácio de São Clemente.
Grandioso, mas um pouco fantasmagórico, vazio de mobiliário que tinha
voado para Brasília... Brasília, para onde tb voei - conheci o
comendador Guilherme Silva, que enriqueceu a vender frascos de terra
da nova capital - impressionante ("poeira de Brasilía").
SP - grande recepção na "Portuguesa" de SP. Santos - os Elos Clubes,
rosas lindíssimas. Apartamento com jacusi, na altura, algo de novo...

 Os jornais brasileiros ressaltavam o avanço de Portugal, por ter uma
Vice-Ministra ... Quase não havia brasileiras na política. Hoje têm
uma presidente e uma participação feminina esplendorosa, em comparação
connosco...

41 - Primeira visita à Venezuela, nesse ano, pelo 10 de Junho. Festa
no Clube Português de Caracas, inauguração da Av Camões (tive de
saltar o muro para descerrar a placa, porque ninguém mais o fez e a
bandeira emperrara...)
Emb Walter Rosa decide passar a cassette com o discurso do PR num
pequeno aparelho"minable", com um som horrível, um despropósito em
pleno cocktail! Perante o insólito insisti em ler uma mensagem de Sá
Carneiro, que levara para distribuir pelos media... isso foi
divertido. Porque o Emb não queria. Guerrilhas políticas...

 2ª Visita a Caracas. Na afortunada ausência do Emb, o Encarregado de
Negócios Rosa Lã conseguiu um reunião com o Vice Ministro Aristigueta
- Gramko, para a legalização de imig port. (mantida em segredo, como
era essencial, resultou, para além das expectativas, com ganhos para
os países e os cidadãos...). Para mim, segredo é para manter. Nem aos
dirigentes do IAECP dei conhecimento da diligência. Já lá vão mais de
30 anos. Prescreveu a obrigação de sigilo...

1980 - Buenos Aires. Emb Lencastre da Veiga (irmão de Alexandra, que
eu conhecia da RTP). Reunião com dirigentes, alguns vindos do Uruguai,
onde não pude ir e havia problemas - falta de embaixador)
Visitas aos clubes, às sedes campestres. Milú alérgica às picadas de
mosquitos – esteve pra ser internada de urgência. com as pernas
terrivelmente inchadas. Um susto!
Ficamos num hotel pequeno (o pior que vi na Argentina - talvez
estivesse tudo cheio). Em plena Florida , onde se podia passear dia e
noite, em segurança. Outros tempos! (antes da crise e da intervenção
do FMI).

42 - 1985?  La Vilette
Festa de uma Companhia  de Seguros. Casa cheia. Emb Gaspar da Silva,
cônsules da região. Um preveniu-me que se preparava manif contra mim -
pediu-me que não fosse ao palco. Claro que agradeci o conselho, mas
fui.
Assobiadela monstruosa, com excelente acústica. Resisti, sempre de
braços erguidos a agradecer. Metade do teatro começou a aplaudir. Até
que os assobios se calaram e eu falei. Curto, como convinha! Ali
estava na festa, como noutras ocasiões estava para ouvir os problemas
dos emig...
Antº Sala que fazia as apresentações estava lívido... Tudo acabou bem
No dia seguinte uma pequena notícia do DL informava que a SEE tinha
sido impedida de falar em La Vilette (manchete não ousaram). Não era
verdade... Verdade foi o que fizeram ao PR Eanes exactamente no mesmo
local, mas noutra data, anterior. As Câmaras mostraram...

43- O grupo de Bernardino... Em boa verdade um fenómeno de revivalismo
coimbrão - ou de extra-territorialidade: sempre em Coimbra, onde quer
que estivéssemos

44- 1999?  O relatório da UEO que bateu o record de emendas (dos
italianos sobretudo). Mas mantive o essencial - defesa da não diluição
da UEO na UE, enquanto esta comportasse países neutrais. Que sentido
faz uma
aliança defensiva com países que não assumem qualquer compromisso de
entreajuda???.
 Mas assim se fez esta UE, em imparável queda para o abismo...( e lá
se iria a UEO - mas alguns anos depois, não ainda então...)

45 -Anos 60 -
Por essa época já usava óculos e os meus pretendentes - não namorados,
porque eu achava que era nova demais - manifestavam a sua afeição,
limpando as lentes dos meus óculos, sempre muito sujas, suponho. Todos
faziam o mesmo gesto. deviam ver a poeira,  em que eu nem reparava...

Tratava-os bem, ao contrário da Lecas, que tinha imensos e os mantinha
à distância.
Mas alguns irritavam-me demais... Não os Maneis, os 3, que eram muito
simpáticos  (dois deles muito divertidos).
Por ex. o cientista sueco ou o colega francês do curso de verão de
Estocolmo - inspector dos impostos, o mais graduado do curso, mas
gordinho, calvo e ultra conservador... Um dia, clamou que se sentia um
homem do sec.XVIII. No dia seguinte, disse que era um homem do secXIX.
Respondi, de imediato: De ontem para hoje recuperou um século...

 Havia uma participante romena - essa, sim, com um ar assustado. Mas
predominavam franceses, belgas (um jovem casal simpático)...
 Alojamento em Lidingo, em instalações de um sindicato da
LO.Esplêndidas!  Um verão magnífico, calor e sol. Refeições óptimas.
Aprendemos a etiqueta sueca  - a fazer os brindes,
os discursos. Visitamos Museus, o barco submerso WASA, estúdios de
cinema (vimos o filme "os emigrantes" . emig paraMinesotta),
sindicatos, uma paróquia...Paróquia entregue a uma pastora, a 1ª numa
zona "bem" de Estocolmo". A co -adjutora era uma jovem, muito jovem,
de tranças louras Forte impressão!

 Daí segui para Oslo, por uns dias, com a Gesinne Fast. Tb muito calor!
Comecei a ver pintas saltitantes, descendo sobre o céu, o mar. a
paisagem  - um susto- Cá ficaram até hoje... o Mário tranquilizou-me.
Coisa normal,  em míopes, sobretudo...

46- 1981 -  Cursos portugueses da SEECP gizados  pela M B
Rocha-Trindade e pelas universidades. Évora, Vila Real
(Portugal-Tradição e Futuro). Depois, nos anos seguintes de norte a
sul.
Sempre que podia, assistia aos cursos, ficava o dia inteiro. Em VR
conheci numa das aulas o Padre Fontes, que, depois, me levaria a
visitar Pitões das Júnias. (tivemos um acidente na volta, um carro em
contra-mão chocou com o dele. Saí pela janela, pois o carro tombou
sobre um dos lados) - Há poucos anos, em  Toronto, o Padre Fontes
contou a história com imensos pormenores. Que boa memória!

 Férias nunca tive no governo, porque em Agosto chegavam os emig e
havia solicitações demais... Depois, já não dava, havia a agitação
normal

 Publicações de trabalhos de investigação dos candidatos aos cursos - dezenas..

47 -  Na política, quantos amigos (ou conhecidos) de fora da política:
Virgílio Teixeira, Amália, Agustina, Mécia de Sena, Maestro António
Vitorino, David Mourão Ferreira, Gilberto Freyre, Austragésilo de
Athaíde, Cutileiro, Cargaleiro, Mestre António Joaquim, Vera
Lagoa,Roberto Leal, Tony de Matos...Saramago, Lídia Jorge, Sophia de
Mello Breiner, Agostinho da Silva, António Quadros, Eduardo
Lourenço,Sarmento Pimentel, Fernando Gomes, Victor Baía, Eusébio,
Artur
Agostinho, Àlvaro Guerra,, o Bispo Tutu, Maria Kodama, Ruth Escobar,
Fáfá de Belém, Neuza Amaral, Ruth Escobar

48 - 1983 - Victor Gil, jovem e brilhante funcionário, mal
classificado num concurso, que eu tive de homologar, qd voltei à SEE
em 1983. dados lançados, provas orais com a subjectividade
implícita...Como provar a injustiça? Sabia que era injustiça, mas não
via forma de a corrigir.
Homologuei. Mas ele argumentava em contrário. Como jurista, não via
como negar a homologação, mas pu-lo à vontade para recorrer do meu
despacho. E ele assim fez!
De seguida, reparei a injustiça, a meu modo. Não o podendo promover na
carreira, promovi-o a um lugar de escolha política: a Vice-Presidente
do Instituto de emig (IAECP), com vantagens de vencimento e poder...
Um governante promover assim um funcionário que levou um seu despacho
a tribunal, não deve ser comum...

49- Dei algumas boleias interessantes: a Eusébio - à saída de um
lançamento de livro de Amália. A Sophia e Agustina, à saída de um
jantar no palácio das Necessidades. Ouvi-as comentar (enquanto
recolhíamos os casacos no vestiário) que ninguém se lembrara de que
elas não tinham carro e não sabiam como apanhar um táxi ali, àquela
hora. Ofereci-lhes o meu. Olharam-me embaraçadas - "Não nos lembramos
de que agora já há senhoras com carros de Estado"...(Agustina).

50 - 1984 Os anos sempre passados pelas comunidades, na véspera do Dia
nacional, sempre sem dizer nada a ninguém (e o gabinete proibido de
revelar...)
Só desobedeceu a Virgínia Estorninho - cantaram-me os parabéns em JNB,
num jantar de 500 pessoas (fico sempre pouco à vontade...) Nos meus 50
anos também - juntou-se ao coro a voz de Amália (aí sabia, foi uma
organização de Fernanda Ramos)
Nos meus 60, no preciso dia (um domingo), era Grand Marshall da parada
do Dia nacional em Newark - mas sem que dessem pela coincidência...
Aos 69, em Espinho,  no fim de um concerto de música de Fausto Neves,
não escapei aos "parabéns a você"...

51 -2009/2011 -  Curta a passagem pela vereação da Câmara de Espinho
(diferenças de geração), Sai um mês depois desse concerto, também a um
ritmo de música alegre. O Executivo decidiu dar-me a medalha da
cidade, a 16 desse mês. O filme projectado, como é da praxe, não foi
nada do que é
costume. Em vez dos testemunhos de amigos, um série de fotos privadas,
desde o berço, e de intervenções públicas na cidade. O efeito foi
hilariante, com selecção do talentoso Filipe Couto (Espinho TV). Nunca
vi coisa mais heterodoxa e divertida. Depois, para maior surpresa os
amigos do BE apresentaram na Assembleia Municipal um voto de louvor,
que foi aprovado por unanimidade.  foi
uma despedida, com singularidades -  até parecia um daqueles jogadores
que saem antes do fim do jogo, para receberem os aplausos do
público...

2009 - Uma sorte o "timing" da minha chegada a esse executivo, em
Novembro de 2009 - isto é, qd se avizinhava o centenário da República.
Apesar de monárquica foi um ocasião de repensar Espinho, Portugal, o
mundo, em inúmeros colóquios, expo's, tertúlias, saraus - uma festa
permanente...  mais de 30 eventos em  12 meses, com participações
sempre multipartidária.  Nesse aspecto muito surpreendente. Feminismo
e mulheres republicanas no centro de muitos debates.Aliás, em Espinho
só havia em preparação uma expo "rostos da República" para o 5 de
Outubro. Claro que dei luz verde -  a isso, e a tudo o mais que estava
em curso
no meu pelouro, onde havia gente de alta competência. (em Portugal há
o gosto de romper com tudo o que vem de trás, uma das causa maiores do
nosso atraso).
Mas não resisti a por uma condição: que houvesse também rostos
femininos! O dr Bouçon aceitou o repto e, no final, em cerca de 70
biografias, havia 23 mulheres. Passei a dizer que era um expo que
respeitava a lei das quotas à portuguesa...

 Do meu ponto de vista, faltavam dois nomes importantes da história do
feminismo no nosso País: Carolina Michaelis de Vasconcelos e Maria
Archer. Foram realizados os painéis de uma e outra, embora não constem
do catálogo (que, por sinal, é muito bonito - mais um feliz design do
Dr Tiago).
O certo é que como a exposição se pode facilmente seccionar, a parte
respeitante às mulheres circulou muito mais do que o conjunto!
Esteve em Guimarães (por altura de um colóquio), em Brunoy (idem), em
Puteaux (La Défense), em Lisboa (numa homenagem a Maria Archer, no
Teatro da Trindade).  E aí está disponível para futuras iniciativas...

52 - As homenagens a mulheres estão a entrar nos costumes (e ainda bem...)
Há uns 4 ou 5 anos, a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra em
Braga, que é presidida por uma senhora, organizou uma homenagem a 10
mulheres da Univ de Coimbra. Fui uma das 10 (para surpresa minha) e
tive, como todas as outras, de dizer umas palavras a uma enorme e
coimbrã audiência.
Só me lembro da frase com que encerrei, ou. se não da frase exacta, da
ideia que a animava). Disse que, para mim, Coimbra não tinha mais
encanto na hora da despedida, pela simples razão de que eu nunca me
tinha despedido de Coimbra..

 - Possivelmente já tinha esquecido esse happy end, se não mo tivessem
há pouco recordado. Tal como andava esquecida uma confissão que um dia
fiz ao Prof Amorim, (agora deputado do PSD) sobre as minhas viagens de
juventude à Galiza e ao Alentejo. Primeiro à Galiza, que é mais perto,
e que me desiludiu um pouco, porque não me parecia nada terra
estrangeira (tudo era tão igual...), Anos mais tarde, já com 17 ou 18
anos (depois de ter viajado por França, Inglaterra e Marrocos...) a
fascinação do Alentejo, que me parecia absolutamente exótico.
Encontrei na AR o Prof, ( gosto sempre muito dever e ouvir na TV, mas
há muito não o encontrava), e ele falou-me logo nessa minha
constatação de sabor regionalista, que ele já tem citado, quando trata
a temática da regionalização...

53 - 1991 RAS
O Luís, excelente fotógrafo de JNB, queixou-se de que eu lhe estragava
metade das fotos, porque ficava de olhos fechados. Muito preocupada,
passei a estar mais atenta aos cliques da máquina e algum tempo depois
perguntei-lhe se tinha melhorado. Ele respondeu prontamente: Não-
agora em metade das fotografias está de olhos fechados  e na outra
metade de olhos arregalados.

54- 1986
 CCP Toronto (América do Norte)
Mais uma reunião regional. Havia quem vaticinasse problemas, porque o
Conselho italiano não fora autorizado em solo do Ontário, por ser
considerado um órgão político "estrangeiro"...
 Ora, o importante é diálogo e boa informação recíproca. Tony
Ruprecht, o Ministro da imigração do Ontário, tornara-se um amigo,
estivera em Portugal, conhecia os nossos projectos, sabia que o CCP
era uma instituição constituída por dirigentes de assoc luso
-canadianas (de direito canadiano) e, por isso, a nossa reunião teve o
apoio e participação do próprio Tony, que ofereceu a todos os
conselheiros um grande banquete de despedida. Melhor era impossível,,,
Nessa grande gala, com muitos convidados - salão cheio! -  falámos, o
Ministro, eu, e, em representação do 1ª Ministro do Ontário, o Tony
Reis, assessor para as questões étnicas, que era o meu primo Tó Mané ,
António Manuel Soares de Albergaria Reis, na encarnação portuguesa e
Tony Reis no Canadá (não iria continuar por muito tempo, mas foi o 1º
português dessa forma envolvido no governo da província).

 Somos, o António Manuel e eu, os únicos descendentes do bisavó João
Dias Moreira (homem com 2 metros de altura e, também, grande altura
moral e empresarial - um mito na família ).
 Ele muito mais novo do que eu, porque o pai casou bem mais tarde do
que o meu (eram primos e, mais do que primos, irmãos). É o ramo
avintense da família.
Não poderia o Bisavô sonhar que os seus únicos herdeiros, em fins de
sec XX, estariam juntos em Toronto, um representando o governo de
Portugal e outro o governo do Canada. Coisas que a  emigração
engendra...

 Nessa altura, em Toronto, a única polémica que houve constituiu mais
um capítulo das guerras das bandeiras... Mota Amaral estava de visita
e o hotel onde se hospedava decidira hastear a bandeira dos Açores.
Nada que me incomodasse. Gosto das Autonomias (mais do que de Mota
Amaral pessoalmente) e não via a soberania em risco lá por estarem
esvoaçando na bandeira azul e branca os açores de asas abertas...
Até convidei Mota Amaral para discursar na reunião do CCP - já não me
lembro nem da sua nem da minha intervenção, mas sei que não houve
discórdia. Era cônsul o meu amigo António Tânger.

 Amigo mesmo! Conheci-o no governo AD. Era um muito jovem diplomata,
que assessorava o MNE Freitas do Amaral. Frontal e divertido, como não
havia outro.
Vi-o uma vez num comício na Alameda empoleirado no alto de um poste de
electricidade (nem queria acreditar - olhei porque temia que o rapaz
caísse). Tornei o olhar e reconheci-o...

 1980 - Gostava imenso daquele diplomata diferente dos outros. Quando
Balsemão, que tutelava a Comissão da igualdade, me convidou para
chefiar a Delegação Portuguesa à meia década da ONU para a Mulher,
pedi ao MNE para Tânger me acompanhar. Não levei mais ninguém. O resto
da delegação vinha da Comissão para a Igualdade - várias mulheres,
entre elas Leonor Beleza, jovem técnica.
Fiquei de um dia para o outro, discursei e regressei, pois havia muito
trabalho no Gabinete,
Tânger tomou  a chefia da delegação e iniciou, de motu proprio,
negociações com os PALOPS para uma declaração conjunta sobre a
inclusão do português como língua oficial nas conferências da ONU. O
Brasil não aderiu - na altura, o diálogo com as ex-colónias parecia
votado ao insucesso. Mas o charme de Tânger ultrapassou todos os
obstáculos, a Brasil assinou à última hora e a declaração foi
entregue. Histórica!

 Balsemão convidou-me para almoçar no dia em que manifestou o
interesse em que fosse eu a chefiar essa Delegação, mas só me deu um
conselho: "Não exceda o tempo de intervenção"
Fiquei muito admirada - para mim isso era mais do que óbvio.

55-  1995, Apresentação dos cabeças de lista no Convento dos Capuchos.
Não sei quem teve a ideia de pôr todos a falar um escasso minuto.
Achei que iam todos ultrapassar o tempo curto, mas não - isso só
aconteceu por excepção. Eu cumpri, como a maioria e isso apesar de
percalço acontecido mal cheguei  ao palco: saltou-me e correu metros
de palco um dos enormes botões de metal do meu "robe-manteau".. Em
frente a uma bateria de fotógrafos e Câmaras de TV, para além dos
presente na sala cheia, mantive a calma e a serenidade.
Passei o resto da tarde com a mão esquerda a tapar o buraco  aberto no
vestido. Ainda por cima,  tive de posar para os fotógrafos, ao lado de
Fº Nogueira e Roberto Leal...
Entretanto, pedira a um dos funcionários do PSD para  procurar no
palco o botão extraviado - que me foi discretamente restituido...

56 -1980
 Nem sempre é fácil executar novos programas com antigos funcionários
- sem que isso signifique o propósito de não colaborar da parte deles
ou de não querer a colaboração da parte dos políticos, Adepta da
continuidade das pessoas e do aproveitamento máximo do que vem de
trás, sem deixar de inovar, tive essa experiência na SEECP, com os
dois mais altos responsáveis, o DGE (Cassola Ribeiro) e o Presidente
do Instituto de emigração (Gil Pereira).
Ambos deixaram os cargos, ao fim de poucas semanas - ambos viriam a
ser, ao longo dos anos, dois esplêndidos e lealíssimos colaboradores,
em outras funções. O Dr Cassola foi incentivado a publicar e publicou,
pelo menos, 3 valiosos livros, dois sobre políticas de emigração e um
outro dobre histórias da emigração portuguesa dos anos 60, que ele
viveu como Inspector da Junta ( "Sinais exteriores de riqueza" - uma
obra prima!) .
Gil Pereira foi, por exemplo, Secretário- Geral do CCP.
Espero que se tenham sentido apreciados e prestigiados, como tentei
que fossem, porque mereciam.

Anos 80
O Dr Cassola era do PS. O Dr Gil não tinha qualquer filiação
partidária. Quando ambos renunciaram ao cargo de chefia só o
socialista mereceu referência nos media afectos ao PS (Portugal Hoje,
por ex). Eu não respondi, mas respondeu ele, espontâneamente, contando
a verdade e desmentindo formalmente a notícia -  a iniciativa da saída
fora sua, não era vítima de nenhuma pressão ou perseguição. Não pude
deixar de lhe agradecer e de lhe ficar reconhecida. Um Homem de
carácter e de coragem. Admirava-o imenso. O ar austero com que
enfrentava o mundo - e os governantes da República, na primeira
impressão -  não fazia antever o especial sentido de humor, que tanta
graça e leveza dava aos seus escritos.
Ri-me imenso quando ele, no 1º  CCP, que assessora, tal como a Rita
Gomes, disse à colega (que com o seu perfeccionismo, nunca mais
acabava a parte que lhe cabia no relatório): A Rita é uma daquelas
pessoas que para contar um rebanho, começa por contar as patas e,
depois. divide por quatro"..
Por sinal eram ambos alentejanos, mas com feitios tão diferentes! E
ambos dinâmicos...

 Nas obras de carácter científico e doutrinal o Dr. Cassola nunca se
eximiu de criticar alguns aspectos da evolução das políticas, que lhe
mereciam reparo. O que eu achava normal. Corajoso, também (não
conhecia a palavra "subserviência", graças a Deus).
Fui criticada por permitir essas discordâncias pontuais em obras
editadas pela SEECP. Não me incomodei nada com essas opiniões. Os
livros são importantes para o estudo de uma época. Não ficaram na
gaveta aonde estavam!
Bizarra ideia, essa de que os governos só podem pagar propaganda...

 Dezenas de publicações da SEE  - através do Centro de Estudos. Pena
não ter tido continuação...
Gil Pereira também era um homem culto e escrevia bem. Mas só publicou
um estudo sobre o associativismo português em França - não a temática
ideal para revelar os dotes literários.

 Apreciava muito o talento de ambos, mas não  foram nunca os meus
"ghost writers" (salvo uma vez, o Dr G P, numa altura em que estava
em viagem e me pediram um depoimento  urgentíssimo). O depoimento foi
altamente apreciado, mas eu senti-me embaraçada, porque não era
aquela, de todo, a minha forma de escrever.
O meu único "ghost writer" foi o Carlos Branco. Discutíamos o teor das
considerações, das mensagens. Se estávamos de acordo, ele redigia. Se
não, redigia eu. Nas questões femininas era eu mesma, quase sempre.
Nas outras ele era totalmente "reliable". E escrevia melhor do que eu
o que eu, realmente, pensava!

. Fui a "ghost writer"  de um dos meus assessores - para os
comunicados de imprensa. Ele trabalhava bem, mas escrever não era o
seu forte...
E Carlos Branco não escrevia para os outros assessores. (nem isso lhe
foi nunca pedido)

 Excelente assessor de imprensa (e bom a escrever, claro) foi o dr
Marques de Freitas. O que eu aprendi com ele!
De princípio, teimava em fazer como eu queria, mas acabei desistindo,
porque ele tinha sempre razão.

57 - 1984?
Cedo aprendi a viajar barato - nas melhores tarifas, com agências
sérias e competentes (ultimamente com o sr Martinho - um génio!)
Um dia, durante o governo do BC, tive de ser a interlocutora de um
desconhecido, de uma Agência que trabalhava com os serviços do MNE,
para marcar uma viagem em que a acompanhante ía em classe económica
(com  algumas restrições, de voos e companhias, naturalmente).
"Marque primeiro a viagem dela e depois a minha, que não tem
restrições" - disse-lhe
Ele respondeu que era justamente isso que andava a propor, mas os
serviços entendiam que a minha viagem devia ser marcada
primeiramente... como se a lógica da coisa fosse a protocolar...
Enfim, o problema resolveu-se logo.

58 -1984?
 A muitas aprendizagens obriga a política. Um dia, em Ovar, quando
esperávamos o Prof Mota Pinto, vieram comunicar-me que ele não poderia
chegar ao início, pelo que tinha de o substituir (ele era Vice
Primeiro Ministro e Ministro da Defesa). Primeiro acto: passar revista
ao corpo de bombeiros, perfilados na parada. Não houve tempo para
perguntar detalhes sobre o protocolo. Procurei lembrar-me de imagens
da televisão - muitas, mas a que nunca tinha dado a devida atenção.
 Avancei em passo seguro, seguida pelo comandante dos bombeiros. A
certa altura, vi a sua mão enluvada de branco, a fazer-me um sinal, à
minha esquerda, que interpretei como instrução para me aproximar da
formação - o que fiz, prosseguindo a marcha. Ora o que ele queria era
que terminasse ali mesmo a revista, porque a formação seguinte era a
charanga...
Passei revista à charanga! Não era suposto, mas um amigo militar a
quem contei o episódio, riu-se e disse que até achava bem - foi um
prestígio para os músicos...
Mas a ordália não estava terminada. No final o comandante disse-me de
viva voz (baixinho) para "saudar a bandeira". E eu aflita:
continência? (achava que não, mas nunca se sabe...)
"Apenas uma vénia", esclareceu. Essa parte correu muito bem.
Depois, o colóquio, igualmente.
De insólito só me recordo de um jornalista ter comentado, quando já
estávamos em conversa informal
"A Srª Drª tem um discurso de quem não está no governo".
Achei imensa graça. E, de facto, as minhas sintonias vão mais para soc
civil do que para o Estado...

 Episódios da mesma espécie nas entregas de condecorações, durante a
Dia das Forças Armadas. O 1º susto aconteceu no Porto. Lá estava eu,
como VP da AR, em representação do PAR, agradavelmente sentada entre O
PR Soares e o 1º Mº Cavaco, depois do PR ter imposto a primeira
condecoração, quando ouço mais ou menos isto: "Vai entregar a
condecoração a X...  a Senhora Vice - Presidente da AR Manuela
Aguiar".
Nem pensar em pedir apoio a Cavaco... Virei-me logo para o Dr Soares e
para a sua compreensão das falhas dos outros:  "E agora, o que faço"
"Faça como eu, há pouco"
"Não reparei bem..."
E ele, rápido: "Coloque do lado esqª, à altura do coração".
Foi fácil - ninguém notou a hesitação, cheguei a tempo e determinada...
O pior foi a entrega de condecorações no ano seguinte (em Braga).
Caiu-me em sorte um oficial da Marinha e as belas fardas brancas têm,
no preciso sítio, à esqª, sobre o coração, um rectângulo esponjoso,
para receber outro tipo de emblemas, com certeza. Espetar uma medalha
com "ganchos" muito compridos naquele material é obra!!!
Tinha dois receios: ou trespassar o coração do  marinheiro ou deixar
os ganchos meio soltos, com o perigo da medalha cair ao chão - qual
dos horrores o maior! Por fim. consegui...
No dia seguinte uma simpática funcionária da AR disse-me: "Então,
ontem, foi difícil colocar a condecoração na farda do Marinheiro?"
"Foi - confessei - as fardas da Marinha são muito mais couraçadas do
que as dos outros ramos das Forças Armadas. Mas como soube?"
"Ele é o meu marido|"

59 - 1981
1º Congresso das Comunidades Portuguesas, no Hotel que fica ali mesmo
ao lado da Univ Católica (mudou de nome já várias vezes)
O PR Eanes fez-se substituir por Victor Alves. Alguns congressistas
não gostaram. A sessão começou à bofetada, ainda nas escadas do hotel.
Queriam que eu saísse da sala, para escapar aos tumultos. Nem morta
sairia! Não que achasse bem, mas era um espectáculo imperdível,,, A
televisão captava as cenas e as expressões, mas não era a mesma coisa

  As interpretações do Prof M Pinto e de minha Mãe sobre o que
revelava a minha expressão facial. Quem acertou foi o Professor... Bom
psicólogo...

 1983 o cartaz de campanha do Prof M Pinto - bem .mas estático... Dei
a minha opinião contra corrente,, Bem e true to life só achava o
slogan: MP, a pessoa  que é bom conhecer de perto

 1983-85
Viagens com MP ao  Canadá (qd, estando com ele e Mº Fernanda, quase
perdi o avião, porque a Mª Luísa se atrasou, com o meu bilhete de
avião na carteira  - ou a atrasaram, uns "castiços" que a levaram a
ver as Niagara Falls.
Toronto e Montreal: os contrastes, dentro de uma sempre boa org. À
conversa pessoal com uma multidão de gente. Uns faziam fila para o
Prof Mota Pinto, outros para a minha... O hino tocado pela Banda do
DES, as fantásticas entrevistas. (dentro de Portugal nunca
reconheceram suficientemente a sua qualidade, nunca a quiseram ver e
ela nunca transpareceu porventura, da mesma forma, no mesmo grau).
San Jose:  o famoso "sermão", melhor do que o do padre, na Igreja das
5 chagas....
SF:  pier 39, o jantar, os divertidos militares que me acompanharam na
excursão a Castro....
Ria de Aveiro- qd desvendei a identidade dos cronistas inimigos...
Regressamos à Europa num DC10 canadiano. No take-off, ele perguntou-me
qual era o tipo de avião em que estávamos. E eu respondi: "Um DC10,
daqueles que costumam explodir ao levantar"(era nestas ocasiões que o
Prof, exclamava, simplesmente: Oh, Manuela! Oh Manuela!


60 - 1980 O almoço na residência do Cônsul de JNB em que conheci joe
Berardo. Alguns
anos depois, por puro acaso, coube-me a missão de lhe impor a
condecoração (num 10 de Junho).


61- Aquele Congresso das Comunidades estava votado ao desastre global
desde a 1ª hora - com um PSD chamado António Cabecinha no comando. Eu
optei por não dizer uma só palavra, que, às vezes, é a maneira de
falar mais alto. De resto, era bom não retirar a palavra aos
emigrantes, que, por rateio tinham direito a 90 segundos" per capite".
Uma loucura! Alguns limitavam-se a um "hello". Outros, se bem me
lembram pediam minutos emprestados aos amigos, que aceitavam sair
calados (como eu...)  Deprimente!
Comigo, a guerrilha vinha dos primórdios... Rosado Fernandes e
Cabecinha uma estranha dupla Graças a Deus nunca mais vi o Cabecinha,
e com o Prof Rosado F vim a ter uma pacífica convivência na AR, É até
um homem divertido, para além de ser culto, mas no Congresso foi
secundarizado pelo second in comand.
Uma das poucas vantagens daquele jogo dos disparates foi valorizar ex
post o diálogo que, apesar de afrontamentos políticos, houvera no CCP,
reunido dois meses antes (em Lisboa, no Palácio Foz), Com a minha
presidência, coadjuvada por gente sensata...
Apesar de tudo, os bastidores do Congresso deram para contactos
interessantes, ou mesmo importantes.

62 - A conferência comemorativa dos 250º aniv da criação do MNE (com
outra designação, juntando as relações exteriores e a guerra)
A conferência de Vasco Pulido Valente foi mais guerra do que
diplomacia. Do alto da mesa de honra, onde era apenas figura
decorativa, tinha a visão ideal das reacções do público. Foi
espantoso,, sobretudo para quem, como eu,  acha  VPV um génio (com
génio, mas tudo menos diplomata). Na 1º fila, sereno e confortável
perante o discurso, Sá Machado.
Quando uns dias depois, em conversa com ele, lhe disse que era a única
pessoas bem disposta naquela audiência, ele rectificou:
"Bem dispostos estávamos dois, a Manuela e eu"

 Muitos diplomatas actuais não mereciam a zurzidela geral de VPV. Mas
um Walter Rosa a difundir no cocktail para o corpo diplomático, a 10
de Junho de 1980, o discurso do PR, num gravador de baixa gama, cheio
de ruídos e intermitências, estava mesmo a reclamar as diatribes de
VPV!
E um outro que no Brasil se queixava publicamente (fê-lo na Tv
brasileira diante de mim!) de ganhar muito mal. Qd contei esse
episódio ao MNE Jaime Gama, ele indignou-se: É o Emb de Portugal mais
bem pago no mundo! (na altura ainda a vida em Brasília era barata).
E o outro, muito simpático, por sinal, que se opunha ao envio das
exposições que a SECP tinha em circulação (uma de artesanato de
qualidade -  com colchas de Castelo Branco e tudo! - e outra de
serigrafias da Cooperativa Árvore). Foi um diálogo de surdos. Para o
Emb aquela comunidade era particularmente rude e desinteressada. As
outras podia conhecer eu, aquela conhecia ele. Por fim, informei-o de
que as exposições também iriam àquela capital, porque eu assim tinha
decidido. Ponto final. E rematei: "Recuso-me a encarar o meu trabalho
nas comunidades como o pique-nique dos parolos"
E, por sinal, quem teve razão fui eu - as expo's foram um sucesso naquele País!

E qd me depositavam num hotel, para me repousar em pleno dia? Não fico
em quarto de hotel de dia, excepto para ver um jogo de futebol, ou as
olimpíadas...
Em Harare, de uma das vezes, o Emb recomendou que não saísse à rua,
porque era muito perigoso (não se via um branco no centro da cidade,
explicou). Mas eu quis saber ao certo de que perigo falava: "Matam?"
Ficou chocado: "Não, não matam, mas roubam"
Eu vinha de JNB, na altura epicentro de violência. Daí a pergunta. O
roubo não me assustava nada . Mal o Emb virou costas, eu fui mesmo
para a rua. Na verdade, os brancos não abundavam, Mas ninguém me
incomodou. Comprei t-shirts, bananas a vendedores ambulantes... foi
agradável.
Idêntica recomendação, muitas vezes, em São Paulo, no Rio... Nunca me
abstive de andar na rua, com ar de quem pertence à cidade, e nunca fui
incomodada...
Idem em S Petersburgo, onde usei o metro, constantemente. Parece que
consideram cidade perigosa para estrangeiros, Não sei. Sei que o
segredo para escapar incólume é não parecer estrangeiro. Em S
Petersburgo, em 2 dias apenas, 3 ou 4 russas (sempre mulheres) vieram
pedir-me informações.
Devo ter um ar credivelmente eslavo. E a indumentária não me
distinguia das locais. Mas tinha de  lhes responder: Sorry, I can't
speak russian"


 Susto só em Brasília qd o nosso Deputado Lourenço (nascido em
Portugal!) me levou para dentro do hemiciclo, em plena sessão, e
insistiu em interromper o orador, com quem tinha um passado de
desavenças, para me apresentar.
Para já, em Lx, ninguém entra no hemiciclo, os visitantes são
recebidos nos camarotes. .Assim, por uma questão "cultural", sentia-me
uma intrusa... E, depois, estava à espera de me ver no centro de uma
azeda discussão parlamentar. Mas não! Foram todos muito simpáticos

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