sábado, 18 de agosto de 2012

62-112


 62 - A conferência comemorativa dos 250º aniv da criação do MNE (com
> outra designação, juntando as relações exteriores e a guerra)
> A conferência de Vasco Pulido Valente foi mais guerra do que
> diplomacia. Do alto da mesa de honra, onde era apenas figura
> decorativa, tinha a visão ideal das reacções do público. Foi
> espantoso,, sobretudo para quem, como eu,  acha  VPV um génio (com
> génio, mas tudo menos diplomata). Na 1º fila, sereno e confortável
> perante o discurso, Sá Machado.
> Quando uns dias depois, em conversa com ele, lhe disse que era a única
> pessoas bem disposta naquela audiência, ele rectificou:
> "Bem dispostos estávamos dois, a Manuela e eu"
>
>  Muitos diplomatas actuais não mereciam a zurzidela geral de VPV. Mas
> um Walter Rosa a difundir no cocktail para o corpo diplomático, a 10
> de Junho de 1980, o discurso do PR, num gravador de baixa gama, cheio
> de ruídos e intermitências, estava mesmo a reclamar as diatribes de
> VPV!
> E um outro que no Brasil se queixava publicamente (fê-lo na Tv
> brasileira diante de mim!) de ganhar muito mal. Qd contei esse
> episódio ao MNE Jaime Gama, ele indignou-se: É o Emb de Portugal mais
> bem pago no mundo! (na altura ainda a vida em Brasília era barata).
> E o outro, muito simpático, por sinal, que se opunha ao envio das
> exposições que a SECP tinha em circulação (uma de artesanato de
> qualidade -  com colchas de Castelo Branco e tudo! - e outra de
> serigrafias da Cooperativa Árvore). Foi um diálogo de surdos. Para o
> Emb aquela comunidade era particularmente rude e desinteressada. As
> outras podia conhecer eu, aquela conhecia ele. Por fim, informei-o de
> que as exposições também iriam àquela capital, porque eu assim tinha
> decidido. Ponto final. E rematei: "Recuso-me a encarar o meu trabalho
> nas comunidades como o pique-nique dos parolos"
> E, por sinal, quem teve razão fui eu - as expo's foram um sucesso naquele País!
>
> E qd me depositavam num hotel, para me repousar em pleno dia? Não fico
> em quarto de hotel de dia, excepto para ver um jogo de futebol, ou as
> olimpíadas...
> Em Harare, de uma das vezes, o Emb recomendou que não saísse à rua,
> porque era muito perigoso (não se via um branco no centro da cidade,
> explicou). Mas eu quis saber ao certo de que perigo falava: "Matam?"
> Ficou chocado: "Não, não matam, mas roubam"
> Eu vinha de JNB, na altura epicentro de violência. Daí a pergunta. O
> roubo não me assustava nada . Mal o Emb virou costas, eu fui mesmo
> para a rua. Na verdade, os brancos não abundavam, Mas ninguém me
> incomodou. Comprei t-shirts, bananas a vendedores ambulantes... foi
> agradável.
> Idêntica recomendação, muitas vezes, em São Paulo, no Rio... Nunca me
> abstive de andar na rua, com ar de quem pertence à cidade, e nunca fui
> incomodada...
> Idem em S Petersburgo, onde usei o metro, constantemente. Parece que
> consideram cidade perigosa para estrangeiros, Não sei. Sei que o
> segredo para escapar incólume é não parecer estrangeiro. Em S
> Petersburgo, em 2 dias apenas, 3 ou 4 russas (sempre mulheres) vieram
> pedir-me informações.
> Devo ter um ar credivelmente eslavo. E a indumentária não me
> distinguia das locais. Mas tinha de  lhes responder: Sorry, I can't
> speak russian"
>
>
>  Susto só em Brasília qd o nosso Deputado Lourenço (nascido em
> Portugal!) me levou para dentro do hemiciclo, em plena sessão, e
> insistiu em interromper o orador, com quem tinha um passado de
> desavenças, para me apresentar.
> Para já, em Lx, ninguém entra no hemiciclo, os visitantes são
> recebidos nos camarotes. .Assim, por uma questão "cultural", sentia-me
> uma intrusa... E, depois, estava à espera de me ver no centro de uma
> azeda discussão parlamentar. Mas não! Foram todos muito simpáticos ,O
> orador interrompido fez suas as palavras de Lourenço, para me elogiar,
> como grande amiga do Brasil.
>
>  Simpático também Chávez, na sua visita ao hemiciclo (vazio) da AR. Eu
> era a única deputada, e estava lá, não porque, à data, pertencesse à
> Mesa da AR, mas porque me pediram para substituir alguém do PSD.
> Lembraram-se da deputada da emigração e Chávez  desfez-se em elogios
> aos nossos compatriotas, alguns dos quais gostarão dele, mas,
> certamente, não a maioria....
>
>  São encontros breves, mas deixam-nos uma determinada ideia das personalidades.
> Simpático, numa versão triste, o Príncipe Bernardo da Holanda, que me
> coube acompanhar no cortejo até ao salão nobre e na volta - falamos de
> ambiente, era um dos seus temas. A Rainha era um encanto, cheia de
> vivacidade e de interesse pelas pessoas, pelas particularidades do
> sistema político, Tínhamos sido industriados para evitar comentários
> políticos. Comentar, não comentamos... mas respondemos a muitas
> perguntas de Sua Majestade.  Não parava de disparar perguntas, à cada
> interlocutor que se lhe apresentava. Nós, os da Mesa da AR, ali
> estacionados, bem perto, pudemos testemunhar o desenrolar da conversa,
> no bom aproveitamento do um a um... disseram-me que a Rainha queria um
> debate com deputados, mas não lhe fizera, a vontade e aquele foi o
> processo que encontrou de chegar ao resultado.
> Voltaria a vê-la no hemiciclo de Estrasburgo, onde Monarcas ou
> republicanos eleitos são recebidos da mesma maneira (não entre nós: na
> sala de sessões, só os eleitos, os outros no Senado - uma excepção
> apenas para Don Juan Carlos, que, aliás, até falou em bom Português).
> Mas aí, de longe, e vestida de uma forma extraordinária, a meio
> caminho entre uma soberana vestida para séculos recuados e para o
> nosso, numa indumentária solene...
>
> 63 -  A visita do PR da Índia. Na mesa do salão, colocados os
> presentes que seriam trocados. Um vistoso elefante cinza, recamado de
> pedrarias coloridas (coisa grandiosa) e. a seu lado, um simples livro,
> embrulhado sem espavento, Comentário ácido do PR Soares sobre o
> presente da AR...Eu não podia reclamar, Crespo ficaria irritado, mas
> podia transmitir ao chefe de gabinete o aparte presidencial. Agiu de
> imediato. No minuto seguinte um contínuo fardado de gala depositou um
> enorme jarrão da VA, ao lado do elefante, ganhando, pelo menos, na
> altura.. "Que bonito" - espontânea reacção do PR indiano ao ver o
> jarrão.
> Pasmei com tão afortunada decisão, não sabia que a AR adquirira,
> finalmente, um stock de ofertas decentes.
> Mas não! Era apenas um dos jarrões da casa, ao qual deram uma
> espanadela rápida, depois de terem despejado a areia do seu interior.
>
>  Margarida Serra e Moura e o Rei Juan Carlos (viagem no interior da
> AR, com mostra do retrato de Dom Manuel II...) para o acompanhar à
> casa de banho dos homens (não seria mais "cozy" a do gabinete do PAR
> Crespo?
> O sentido de humor da Margarida valorizava muito o relato do episódio...
>
> 64-   En attendant Godinho, foi o que me saiu. Mas por pouco tempo,
> felizmente. (na transição do 1º para o 2º provedor, antes que este,
> sentindo talvez alguma latente hostilidade. Em breve seria o nosso
> bem-amado
>
>  Almoço com Mário Neves e Dr. Godinho
> Insisti em pagar e paguei. (é a 1ª vez na minha vida que uma senhora
> me paga um almoço). Ficaram desconfortáveis. Questão de género e de
> geração...
>
>  Um dos versos divertidos do Dr. Godinho (poeta repentista!) para mim
> (houve-os para todos)
>
> Se a querem ver satisfeita
> E com um ar prazenteiro
> É darem vivas ao Porto
> E ao Dr. Sá Carneiro
> )
>
>   Só eu discutia política com o PJ - da discordância à amizade, que
> não olha a essas questões...
> Ele Soarista, eu Sá Carneirista... qt histórias da História. memória
> viva da 1ª República
>  Fui eu que disse umas palavras, simples, de improviso, pela sua morte (na AR).
>
>  A ida para o SPJ com o Coronel Costa Brás.
> não esperava que eu gostasse das tarefas, mas gostei. Resolvia os
> processos, em bom tempo. Às 6.00 da tarde, sessão de cinema quase
> quotidiana... Dou-me bem com as rotinas agradáveis,,,
>
>  Casos memoráveis: a pensão do ex.PIDE (que Luís da Siveira referiu no
> seu recente jantar de homenagem)
> A inconstitucionalidade  da rejeição do serviço militar para mulheres
> ( a cabo da F Aérea)
>
>  - Já no governo, o convívio com o ex Provedor e os colegas,
>
> 65 – 1967 e anos sgs Centro de estudos
> A bibliotecária de roxo
> OIT explic de inglês (econ...
>
>  Cabral Basto e o elogio lisboeta; "A Manuela nem parece de Coimbra"
> Eu adoro Coimbra, mas percebi a magnitude do elogio, para alguém como
> ele. Um bom amigo, (herdou o meu artº sobre o corporativismo - uma
> libertação...)
>
> No Centro de Estudos havia um vasto leque partidário, como se viu depois de 74;
>  CDS (N Brito, que foi Sec de Estado,  deputado - e que dizia, no gab
> de Cortez Pinto que as casas do povo tinham sido criadas à bofetada),
> PSD (Rui Machete, que já lá não estava, Sérvulo, ambos membros de
> governos, eu própria, também)  PS (Monteiro Fernandes, Sec Estado,
> Santos Ferreira, que esteve à frente da CGD e do BCP)
> Sem partidos, mas com quadrante ideológico. Cortez Pinto e Geraldes
> Cardoso (que foi director do SNI, ambos do regime: Silva Leal, centro
> esquerda, sem partido, Bernardo Lobo Xavier, monárquico, conservador,
> Fernanda e Branca, centristas, - a Branca mais à direita -   o Eduardo
> Costa, suponho que da área do Bloco Central, o Luís Galvão Telles mais
> à esquerda. Carlos Branco, Nuno Cabral Basto, mais dados à filosofia
> do que a alinhamentos partidários - nem sei como os situar ao certo.,
> mas esquerda não eram.
>
> Partilhei o gabinete do 1º andar da Praça de Londres com o Cabral
> Basto e, qd ele saiu para administração de uma empresa (antecessora da
> Galp),  com o C Branco,
> Ele debatia comigo os seus escritos do momento - em discurso
> caudaloso. Mais monólogo, muitas das vezes...
>
> Depois de 74, cada um de nós seguiu o seu curso, com o fim do Centro.
>  Ao Carlos Branco fui eu buscá-lo a uma "prateleira". onde estava a
> ser desperdiçado (quadro geral de adidos, ou nome semelhante...). Uma
> sorte. Um assessor mais do que qualificado em domínios múltiplos,
> filosofia, sociologia, planeamento, gestão, finanças, direito do
> trabalho... E o meu precioso e único "ghost writer". Muito impaciente
> com as minhas pressas e impaciências... "Lá vem a Catarina de todas as
> Rússias ". Eu detestava a comparação - muito descabidasendo eu tão bem
> comportada em matéria de costumes!
> Fiz no antigo Centro o "braindrain" possível - a Fernanda Agria,
> requisitada, a Branca . em comissão. o Eduardo, em voluntariado no CCP
> (tinha regressado milionário da emigração na Amazónia, não precisava
> de cachet...
>
>  Deste Centro de Estudos se dizia que era um "alfobre" de futuros
> directores.- gerais (frase do tio Manuel, qd soube do meu ingresso .
> mas eu nunca acreditei que fosse o meu caso...). Na verdade.. a
> profecia só não se realizou completamente porque quase todos vieram a
> ser mais do que isso, na política.
> Foi-o o Geraldes Cardoso, de outras entidades públicas o Santos
> Ferreira. a Branca Amaral (equiparada, como Chefe de gabinete
> ministerial_), a Fª Agria (Sec Geral do CCP). Eduardo Costa (Banco de
> Fomento), houve os que permaneceram na carreira de investigação
> (Bernardo, Carlos Branco). ou seguiram a advocacia /Sáragga)  ou a
> vocação das Artes (LG Telles)
> No governo, Machete, Sérvulo, Monteiro Fernandes, eu mesma...
>
> Nestes centros de investigação, que todos os ministérios deviam ainda
> manter (para não recorrerem a "out sorcing"), só se entrava com média
> de 16 de licenciatura. A margem de manobra para promover amigos ficava
> bastante reduzida...
> Primeiro acedíamos ao quadro de "auditores. Só qd abria vaga éramos
> promovidos a "assistentes". Em regra, por antiguidade. no meu caso o
> Directo  Cortez  Pinto enganou-se e propôs-me antes do Eduardo. Abri
> logo o caminho à rectificação, mas vagou outro lugar e não foi precisa
> a rectificação.
> Depois, não havia mais promoções, mais competitividade... o que muito
> facilitava as excelentes relações entre todos.
>
> Não tínhamos horários - eu gosto de trabalhar concentrada - em minha
> casa de preferência, ou num café, à maneira de Coimbra. ..Os gabinetes
> do ministério eram para conviver, trocar impressões, trazer e levar
> papéis...
>  No SPJ era quase a mesma coisa. Cada um tinha o seu pelouro, não
> queria os dos outros, e menos ainda, o lugar de coordenador, que era
> muito burocrático.,  Uma família feliz, sobretudo no tempo do
> encantador dr J Magalhães Godinho... Aí, redigia minutas de ofícios,
> mas os pareceres mais desenvolvidos continuavam a ser feitos em casa -
> às vezes na varanda, com uma cafeteira eléctrica de café e a companhia
> da minha "serra de Aires" Endora. ( a incrivel Endora, devorada de
> cantos de móveis e cadeiras. com a sua irrequietude e o seu altíssimo
> QI  - a menina querida da Maria Póvoas.
>   Até dormia no quarto da Maria, mas qd trovejava, vinha apavorada ter
> comigo e só acalmava se a pegasse ao colo. Uma cadela enorme, que nem
> cabia no colo!
>
>   Sempre perigoso classificar politicamente colegas, que não se
> "acusam"... Aconteceu-me no SPJ.
> Havia um que era PCP assumido e eu que era assumidamente Sá
> Carneirista,  tal como as duas secretárias do dr Godinho, a Mª da Luz
> e a Ana Maria  (ele socialista não levou "camaradas" para o
> gabinete...).
>  Os  outros não andavam pelos corredores a anunciar o seu partido.
> Havia, por exemplo o Caupers, que eu achava progressista e não me
> terei enganado), e o  Manuel Marcelino, que me parecia CDS. Não por
> isso, mas por ser grande especialista de Direito Administrativo, foi o
> que eu convidei para Chefe de gabinete no MT, em 78. Só vim a
> descobrir que ele era socialista, quando em 1980 lhe pedi que voltasse
> às mesmas funções, comigo, na SEECP . Disse-me que não podia, porque
> era anti-AD. No governo Mota Pinto não tinha tido problemas - era um
> governo de independentes e ele grande admirador do Prof . que lhe
> tinha dado Teoria Geral. Mas AD, não!
>  Compreendi perfeitamente, mas fiquei surpreendida! E com muita pena,
> porque ele foi um fantástico chefe de gabinete  - sem ele teria vivido
> em stress permanente naqueles agitados 9 meses. Assim, não, bastava
> ele dizer-me: "podes assinar, eu li várias vezes",  que eu nem
> hesitava. Lia por alto e assinava por baixo... Não lhe escapava nada.
> Era sábio, atento aos menores detalhes, e honestíssimo, Por isso eu
> afirmei, no 1º encontro com Sá Carneiro que fora fácil ser SET  - para
> grande espanto dele...
>
> Já que o Marcelino não integrava a equipa, convidei a mulher, a Graça
> (casais num gabinete é complicado...).  Ela era UEDS, mas não se
> importou de trabalhar para o gabinete AD . e, chegada às eleições, sem
> que ninguém a tentasse converter (era o que faltava!), confessou que
> deu o voto àquele governo, porque o achou competente, Depois, não sei
> mais que escolhas fez...
> De  princípio, gozei com ela: "Acabo de saber que a Graça é uma esquerdista!"
> Ficou indignada: Quem  é que disse isso?"
> E eu, prontamente: "Foi o seu marido"
> De novo, muito irritada: "Esquerdista? Que ideia! Eu até votei UEDS"
> Bem, em Economia, onde ela estava a terminar o curso, a UEDS era
> possivelmente a direita. É tudo relativo,,,
>
> 66 .  O colóquio na London School of Economics .  Doutor S Leal,
> Adelina SC, Bernardo LX . o episódio das escadas do metro...
>
> 67 -  Os primeiros gabinetes foram excepcionais;
> No MT um equipa reduzida, de uma capacidade de tº incrivel .
> Chefe Gab M Marcelino (especialista em Dº Admin)
> Adjuntos Fª Agria e um velho senhor, em part time (porque estava
> doente, mas dava óptimos pareceres) Eram ambos "da casa",
> especialistas em Dº do Tº.
> Secretárias: Mº Lurdes Escudeiro (Milú) e Ana Pinto de Sousa (ambas
> diplomadas pelo ISLA)
> (agora, muitos gabinetes cheios de assessores fazem bem menos...)
>
> Na SEECP
> Chefe Gab Luís Garcez Palha (ex inspector.geral do Tº)
> Adjuntos Gonçalves Pedro (diplomata) e Milú
> Secretárias: Mª Luísa Ribeiro Ferreira a Graça Marcelino
>
>   Mª Luísa. Mulher do Conselheiro da Revolução. Nos banquetes, ficava
> sempre no topo hierárquico das mesas. Eu acenava.lhe, lá de baixo.
> Achávamos a situação muito divertida.
> Que choque, qd, anos depois, na AR, perguntei ao marido se ela estava
> bem e, el, mal escondendo a emoção, me disse que ela tinha morrido.
> (fazia-me  lembrar a prima Cristina - pelo feitio e até fisicamente,
> morena e bonita, sempre bem-disposta)
>
> 68 - Os motoristas foram escolha mais problemática. Há uma longa
> sucessão, a que perdi a conta... Coisa difícil, encontrar um com todas
> as qualidades requeridas. O 1º, que não durou muito, começou com esta
> pergunta: "Como é que vossa excelência deseja ser tratada, por Senhor
> Secretário de Estado ou por Senhora Doutora?"
> E eu, sem hesitação: "Senhora Doutora!"
> (A lenda negra dos motoristas continua no MNE. Ainda há dias mo disse
> o Fº Castro Brandão, dando-me, aliás, toda a razão...).
>
> O masculino do cargo era coisa, ao tempo, muito discutida. Lembro-me
> do Bernardo ser um dos acérrimos defensores do "Senhora Secretário de
> Estado", ou "Senhora Ministro" (eu discordava, é claro...)
> O motorista limitou.se a manter a concordância...
>
> 69 - Então havia poucas mulheres no governo...A minha nomeação para a
> Sec Estado do Trabalho levou o Marcelo R de Sousa a dedicar-me um
> editorial do Expresso... (elogiando Mota Pinto pela decisão)
>
> 70 - A Ana P S vinha do governo anterior, supostamente PCP. Quiseram
> que a despedisse. Não despedi.
> Foi-me dito pelo Mº:"se houver fugas de informação é do seu gabinete"
> Os nossos são de confiança".
> E eu: "com certeza, não há problema! Se houver fuga, é do meu
> gabinete. Ela fica".
> Ai, se soubessem que, como funcionária da Presidência do Conselho de
> Ministros,a Ana tinha sido intérprete de Vasco Gonçalves!!!
> O que ríamos no meu gabinete, a imaginar a cara deles, se eu lhes
> dessa essa informação. À cautela, não dei, para evitar crises
> cardíacas...
>
>  71 - Nomeações de Directores-gerais badaladas: Ela só nomeia
> directores.gerais com mais de 1,80m
> Coincidências - eles eram o Garcez Palha e o Joaquim Fernandes Marques
> Ao Garcez Palha o meu ex-colega Nuno, disse, um dia, que achava que
> estranhava que MP tivesse convidado  uma "comuna" para o MT. G Palha,
> para nos divertirmos, insistiu que eu o interpelasse sobre isso, para
> o ouvirmos responder, pois ele tem sempre resposta. Eu interpelei, num
> acto de posse de dezenas de funcionários - entre eles, o Nuno. Foi
> cómico, mas ele ficou atrapalhado... Por mim, sabia que tinha essa
> fama, pelo menos para quem estava no quadrante da direita. Lá estáva
> nova prova da relatividade destas coisas...
>
>
> 72 - De facto! Lembro una conversa com o Doutor Pinto Coelho do Amaral
> - marido da Branca Amaral -
> "Nós, os de direita...".  Atalhei de imediato: "Senhor doutor, eu
> nunca fui de direita!
> E ele: "É tudo relativo. Agora é!
> Estávamos em 75 - à medida que o país guinava á esqª,  eu inclinava-me
> mais à dª.  Tinha razão,  o Doutor Amaral, embora fosse bem mais à
> direita do que eu... Um homem muito inteligente e muito mordaz,
> gostava imenso dele!
> Foi assistente de Fiscal em Coimbra mas, nessa altura, já só  ensinava
> em Lisboa. No IES, onde o meu pai foi seu aluno no curso de Política
> Social, Encontrei-o num dia em que tinha ido saber a nota de um teste
> do Pai. Comentário dele: "Então agora é encarregada da educação do seu
> pai?".
>
> A Branca estava feita uma contra-revolucionária - arrancava cartazes
> das paredes, provocava o povo em comícios da esquerda  e eu ao lado,
> sem fazer nada disso, arriscava as reacções. Como qd saímos do estádio
> 1 de maio, de táxi, apesar de ela morar a pouco mais de 100 m... Foi a
> salvação.
> De outra vez, também perto do Estádio, mas num comício do PPD,
> apanhamos boleia de um camião de garagistas da Graça - e militantes de
> 1ª, todos empunhando grandes bandeiras laranja.
> Comentava eu que devia ser interessante participar na marcha (lenta)
> do alto de um camião. E ela foi logo falar com um deles, que nos
> convidou a subir. Escalamos a  altura procurando apoio nos pneus, com
> a ajuda deles. O Doutor Amaral, que vinha também do comício, ficou a
> ver a cena de longe e voltou calmamente para casa. Não tinha perfil de
> viajante de camiões...
> Nós as duas passamos uma noite cheia de alegria e de sustos. No fim da
> Av dos EUA, uns cidadãos de barras de ferro em punho,  amolgaram
> vários automóveis, mas não o nosso camião.  Mais vulnerável ficou ao
> apedrejamento dos participantes que saiam do comício do MES, no Campo
> Pequeno. A Branca e eu encostamos o mais possível à cabine fechada do
> camião, com as mãaos a proteger a cabeça. Pelo contrário, a mãe dos
> camionistas e os filhos foram à luta, tentando devolver as pedradas.
> Mas, pelo menos, ali ninguém ficou ferido... Dissemos adeus àqueles
> companheiros qd soaram as badaladas da meia noite - era fim de
> campanha, já não iríamos a tempo para ouvir os discursos do Parque
> Eduardo VII (uma desorganização, com centenas de militantes do PPD,
> como nós, retidos num trânsito infernal).
> Cada qual tomou o seu táxi e,. depois, como sempre fazíamos, nestas
> aventuras ligeiramente perigosas, telefonávamos uma à outra. Nessa
> noite a Branca bradava: "Viu o exemplo da Mãe dos camionistas? Há que
> imitá-la. A burguesia tem de perder o medo!".
> Ri-me imenso... medo é palavra que eu não associo à Branca... as
> pedradas eram de evitar mesmo.
>
> Inesquecível aquele velhinho que, nessa noite, ouvimos a dizer, à
> saída do Estádio: "Grande partido este. Tenho a certeza de que o
> Salazar, se fosse vivo, era do PPD"
> Eu nem queria acreditar. Olhei a ver se ele tinha a intenção de
> provocar. Não tinha! Era genuíno. Ainda bem que o Dr Sá carneiro não
> estava ali para ouvir semelhante tirada.
>
> 73 - O inesperado na minha vida
> (acontece a quem navega à bolina, como os antigos portugueses) A quem
> não procura  nada, ou, pelo menos, nada do que lhe é proposto. Enqt
> tive um projecto (de estudo, por exemplo), as coisas correram sem
> surpresas. Mas isso foi na infância, na adolescência. Até acabar o
> curso de Direito, a 2 de Nov de 1965. 15 meses depois, com o primeiro
> emprego, atingia outro objectivo - um lugar de assistente num Centro
> de Estudos onde éramos todos iguais, não havia promoções, nem
> competição, nem exames, provas de doutoramento, de agregação, e por aí
> adiante. O paraíso terrestre dos empregos, com amáveis chefes e
> colegas inteligentes.
>
>  Mesmo nesta fase do previsível, já alguns happenings...
> - Prémio dos Rotários do Porto (jantar no grande Hotel do Porto,
> Diploma e... 500 escudos  - uma grande surpresa, porque o presidente
> tinha lamentado não poder oferece-nos uma recompensa material e só vi
> a vistosa nota qd abri o envelope, à saída, já na rua. mas ainda em
> conversa com colegas do prémio
> ( estranho o preconceito que havia contra os Rotários- a família não
> queria que eu aceitasse e os Rev Padres, que foram consultados, deram
> parecer negativo, mas eu não cedi e fui, acompanhada do Pai...)
>
> - 1960  - Prémio nacional pelo Liceu Rainha Santa Isabel no final do
> curso complementar do liceu e convite para uma viagem a Marrocos (era
> o ano do centenário do Infante - o SNI organizou e todos os liceus
> mandaram o seu representante). Primeira experiência de voo, na TAP,
> naturalmente.
>
>  - 20 a História, 19 a Filosofia e Organização Política (mas onde é
> que eu pude falhar, para perder um valor numa matéria tão simples?),
> dispensa a Latim (a mais inesperada) e a alemão. Só fiz oral a
> Português (outra surpresa, para quem tinha tido sempre notas altas a
> contrastar com o latim) e subi para 17.
> Curioso, como estes pormenores não esqueceram...
>
>  - Beneplácito paterno para passar o verão de 57 na Inglaterra.
> Primeiro duas ou três semanas no St Catherine's, um lar de freiras no
> centro de Londres, depois "au pair", a tomar conta de crianças de uma
> família de judeus ricos no sul do País (Brighton- Hove) durante dois
> meses.
>  Parti de São Bento, na primeira quinzena de Junho, de mala e mochila
> (cheia de enormes pacotes de bolacha araruta) com a Margarida Losa,
> minha colega do 6º ano do liceu, filha de Ilse Losa. Ficamos dois dias
> em Paris, no Grand Hotel St Michel, (com a esperança. infelizmente
> frustrada, de ver ao fundo de um corredor o vulto de Maria Lamas.
> hóspede ilustre.  Atravessamos a Mancha de ferry e despedimo-nos à
> chegada a Londres. na praça de táxis. No início. ainda nos encontramos
> para umas idas ao cinema e ao teatro. Ela contou-me um história sobre
> a velhinha que a  hospedada (não me  lembro se também estava
> contratada,"au pair") e que se enfureceu. na sapataria onde comprava
> sapatos, qd a Margarida comentou que lhe ficavam muito bem: não lhe
> interessava nada a estética, só o conforto. Era outro mundo, outra
> cultura...
> Regressei em finais de Setembro, sozinha e desembaraçada, de novo, via Paris.
>
>  E o que me aconteceu nesses dois meses de imigrante sazonal!... Lidar
> com crianças - coisa nova. Cães e gatos, sempre fizeram parte do meu
> mundo. Podia considerar-me uma competência nesse campo. Ainda a
> Madalena e eu andávamos na escola primária e já tínhamos no curriculum
> o salvamento de uma ninhada inteira de gatinhos, que a mãe-gata não
> podia amamentar (ministrando-lhes, à colherada, uma mistura adequada
> de leite e água).
> Crianças não havia. Na minha geração os mais novos faziam pequena
> diferença de mim e a futura geração de "sobrinhos" (primos -sobrinhos)
> ainda não tinha nascido.
> O que podia ter sido um desastre correu, afinal, bastante bem. Eu não
> gostava muito das duas meninas, mas elas gostavam de mim. Lilian, a
> mais velha ia nos 5 anos, era demasiado viva e irrequieta, fazia
> imensas perguntas. O meu inglês era básico, melhorou bastante naquele
> período, obviamente, mas eu dizia sempre  que só sabia responder em
> português. Lilian não se importava: "say it in portuguese". E eu
> bradava: "Menina chata!  Cala-te por um bocadinho. És insuportável".
> Enfim,  este género de desabafo, que, para Lilian, era música
> celestial. Olhava-me com uma atenção afectuosíssima. Hoje, penso que
> ela se parecia comigo, qd da mesma idade. Até fisicamente, magrinha,
> cabelo castanho  claro com reflexos aloirados, muito lisos, para não
> dizer espetados. Sempre em movimento. Há quem aprecie o género - que
> exige energia para corresponder à energia...
> Ruth, de 18 meses fazia um contraste enorme. Era uma linda menina de
> caracóis loiros e olhos azuis, muito calma, não questionava ninguém,
> praticamente ainda nem falava. Sempre contente, sentada na cadeira
> rolante em que a passeava e em que às vezes até a deixava sobre a
> areia da praia. A outra brincava, à vontade, com amigos da sua idade
> que abundavam ali, em Hove. Como não entrava nas ondas sem ser comigo,
> por medo, não havia risco. Quantas vezes passei as manhãs e ler livros
> de Agatha Christie, oferecidos pelos pais das meninas - sem me ralar
> nada com elas.  (O 1º policial que li, na íntegra, foi o delicioso "A
> body in the library").
> Poucos anos depois, na meia década de sessenta, os meus numerosos
> pequenos primos,  conviveram com uma Manuela bem diferente, que os
> levava à praia, à piscina, ao cinema, ao circo. Fazia a festa com
> eles, em puro voluntariado - e era muito popular, com bom fundamento.
> Com a Lilian também o era, mas sem semelhante mérito. Creio que
> despertava tão inesperadas reacções da sua parte, por ser o oposto das
> "nannies" suiças a que estava habituada. Impunha a disciplina, para
> infinito espanto dos pais, porque era inflexível - o que os adultos
> não costumem ser com as pequenas e astutas criaturas. Qd a prevenia de
> que não a levaria ao mar se não comesse a sopa toda cumpria a ameaça,
> por muitas lágrimas que ela, depois, nesse dia, vertesse sobre as
> areias da praia... Consequência: passou a comer a sopa e tudo o mais
> que estivesse na sua dieta.
> O que a Lilian chorou na minha despedida!
> Lembro-me bem dessa genuína manifestação de tristeza infantil. Depois,
> durante uns tempos, a mãe escrevia-me a contar que a Lilian falava
> muito de mim e andava a juntar "pennies" para me vir visitar o
> "Portuguese"  - que para ela, além da minha nacionalidade, era o nome
> do meu país.
> De qlq modo estava mais próxima da realidade do que a velhinha da casa
> ao lado, que todos os dias me perguntava se tinha recebido boas
> notícias da Irlanda. E todos os dias lhe respondia que era portuguesa,
> não irlandesa.
> Nunca percebi a razão do engano, tanto mais que não podia fundar-se na
> minha pronúncia, nem, infelizmente, na minha fluência na língua
> inglesa, que, ao tempo, estava num mínimo pessoal. Só muito
> recentemente me ocorreu outra explicação - de origem religiosa. Era
> católica numa vizinhança judia. Católica ou irlandesa seriam sinónimos
> para ela? May be!
>
> 74 - Inesperada tb a forma como consegui o meu 1ª emprego, em 1967.
> Depois, o  primeiro convite para assistente da universidade (Católica
> de Lisboa) em 1973, ou o  convite para assistente da Univ de Coimbra
> (1974) - posse a 23 de Abril, averbamento no BI a 24 de Abril...
>
>  A 1ª experiência como docente deve-se ao Carlos Branco. Foi
> convidado, não sei por quem a dar aulas de sociologia na Fac de
> Ciências Humanas da Católica e declinou, de imediato, ou não fosse o
> Carlos Branco, homem de gabinete. De facto, não estou a vê-lo a
> entender-se com os aguerridos jovens da "Catho", como se dizia em
> Paris. Acho que foi ele mesmo que sugeriu o nome de Álvaro Melo e
> Sousa para o substituir e, na passada, sugeriu o meu nome para
> assistente, uma vez que tinha acabado de regressar de França, com uns
> vagos estudos de sociologia (depois de maio de 68 tudo tendia a ser
> vago, em paris, nesse domínio  ou, em alternativa demasiadamente
> centrado no "fenómeno Maio").
> Era assunto urgente  - o Doutor Álvaro M S telefonou-me (com uma bela
> voz, impressionantemente calorosa) e tanto insistiu num encontro no
> dia seguinte, um sábado, que eu não consegui dizer "não"). Mas o C
> Branco não estava e nós não nos conhecíamos... recusou o velho
> expediente do cravo na lapela. Sugeri que nos descrevêssemos
> mutuamente. Eu, 1.68 m, cabelos compridos, claros, óculos, fato de
> saia e casaco castanho. Ele moreno, forte...
> 15.00, Café Londres.
> Cheguei antes da hora. Fui lendo "A Bola". Entrou um senhor que
> correspondia à descrição, mas seguiu em frente... Qd 15 minutos
> depois, tentei que um empregado bronco fosse perguntar àquele senhor
> se era o doutor Álvaro Melo e Sousa, a movimentação levou-o a vir à
> minha mesa. A dúvida que lhe ficou tinha a ver com o meu fato, que
> para ele era mesclado e não castanho... (na verdade era as duas
> coisas...)
> A relação de trabalho foi esplêndida - era uma simpatia e tratava-me
> regiamente. Qd era preciso alguém madrugar para vigiar testes, lá ia
> ele! Mais outro "patrão" ideal...
> Os estudantes eram bem mais agitados do que os que viria a encontrar
> no ano seguinte em Coimbra, apesar de vivermos o PREC (a capital e a
> província distinguem-se nestes pequenos detalhes).
>
>  Nunca tive problema com nenhum aluno! Visto retrospectivamente, muito
> me admiro, pois deveria ter havido ao menos uma excepção. Não me
> lembro de nenhuma.
> (nem mesmo qd, fazendo júri com Fº Nogueira, tive de chumbar um longa
> sucessão de cábulas, todos juntos no mesmo dia - para alarme do Doutor
> Alarcão, adepto de quotas. "vamos ser saneados". "Não vamos - todos
> mereciam igualmente o chumbo"- Ninguém, de facto se manifestou).)
> Com colegas, sim, tive diferendos em Coimbra - coisa rara, foi a tal
> excepção a confirmar uma regra da boa convivência.
> Coimbra, tempo feliz - primeiro nos cinco anos de curso, com romance à
> mistura, depois como assistente mais dois anos... Colegas
> excepcionais, o Cordeiro Tavares, o Fernando Nogueira, o Proença...
>
>  Inesperada tb a forma como consegui o meu 1ª emprego, em 1967.
> Depois, o  primeiro convite para assistente da universidade (Católica
> de Lisboa) em 1973, ou o  convite para assistente da Univ de Coimbra
> (1974) - posse a 23 de Abril, averbamento no BI a 24 de Abril...
>
>  O convite do Prof Eduardo Correia
> Encontrei-o numas jornadas sobre desenvolvimento económico, ou coisa
> semelhante e fiquei admirada de ver um insigne criminalista naquele
> meio. Mais admirada fiquei qd , de imediato, me convidou para
> assistente da Fac de Economia de Coimbra-
>  "Não sabia que  já havia economia em Coimbra!"
> "Há. Eu sou o Director"
> Que gaffe, a minha! Emendei a mão, aceitando prontamente o convite.
> Logo ali ficou assente que trataria da burocracia a partir do dia
> seguinte.
> Demorou mais do que o esperado - não era funcionária pública, apenas
> contratada pelo Centro de Estudos, que estava integrada na "Junta de
> Acção Social (Antes do 25 de Abril já havia, assim, uma espécie de
> "recibos verdes"). Tive de fazer vacinas, e eu sei lá mais o quê.
> foram mais de dois meses e, por isso, tomei posse só nas vésperas do
> 25 de Abril. Regressei de Coimbra a Lisboa precisamente a 24...
>
>  O convite do Prof Ferrer Correia
>  Encontrei, por acaso, o Doutor Ferrer Correia nos Gerais. Quando
> soube que eu estava em Coimbra, na tão jovem, jovem fac de Economia,
> nem queria acreditar: "Venha para a sua Faculdade!" Respondi
> imediatamente: "Claro que vou!"
> O Doutor estranhou a rapidez da decisão: "Eu não estou a brincar"
> (coisa que também era possível, porque o Doutor Ferrer era bem capaz
> disso  -  mas naquele caso dava para perceber que falava  muito a
> sério, embora em tom ligeiro...)
> "Nem eu, Senhor Doutor. Não tenho dúvida em aceitar".
> Diferente seria, certamente, a decisão se o Doutor Eduardo Correia se
> mantivesse á frente da Faculdade. Não o iria desapontar - impensável.
> Era um querido Mestre! A cadeira em que me examinou correu-me muito
> bem. Ganhei até ex-aequo (salvo erro, com o Manuel Porto e o Gomes
> Canotilho), o Prémio Beleza dos Santos de Direito Criminal.
> A verdade é que em Direito tinha os meus antigos professores, os meus
> amigos, as minhas matérias preferidas, as minhas raízes, e até uma
> antiga frustração, que me acompanhava ainda, de não ter sido
> contratada como assistente qd acabei o curso - talvez apenas por ser
> mulher. Era, assim, um regresso a casa ( ocupando, finalmente, a minha
> "cadeira de sonho"...).
> À Economia nada me prendia - acabava de chegar e de encontrar caras
> novas. Para eles, eu também não era mais do que isso, uma
> recém-chegada. Foi entrar e sair, sem causar dano!
>
> Não tardou nada, aliás, o reencontro com o Doutor Eduardo Correia,
> regressado após a queda brusca do 1º Governo Constitucional - e
> regressado a Direito, não a Economia. Pouco depois, vi-me, com ele,
> num conselho universitário, não o pedagógico - (de momento não me
> lembro da exacta designação - envolvia o corpo docente e o discente).
> Fiz parte da sua lista, que foi a vencedora.
>
> Para outro órgão, candidataram-me... Outro dos candidatos era Fº
> Nogueira, também não  muito interessado no cargo. Eu fiz campanha por
> ele, ele por mim Consequência: empatámos!
> Com muito esforço, consegui convencê-lo a aceitar, (afinal, para mim
> era mais difícil, passava metade da semana em Lisboa, no gabinete do
> Rui Machete - a trabalhar directamente com a Branca, que era a chefe
> de gabinete).
>
> 75 -  Um dos diplomas em que dei parecer nesse gabinete foi o
> anteprojecto dos transplantes! Não podia adivinhar que o meu primo
> Mário viria a ser um dos seus grandes defensores, e o iniciador dos
> transplantes no Hospital Sto António, no Porto.
>
> 76- O 1º emprego
> Foi, pois, assim que as coisas aconteceram e se encadearam:Em Janeiro
> de 1967, estava na entrada de um Instituto, onde o Pai era
> trabalhador/estudante, fazendo uma diatribe feminista contra a minha
> situação de desemprego. O Sec Geral (Dr Carneiro Leão) surgiu lá de
> dentro, sem que o visse, ouviu, por puro acaso, veio perguntar-me
> pormenores sobre o meu curriculum académico, e, em 2 ou 3 dias,
> transmitiu-me uma oferta de colocação num Centro de Estudos -
> exactamente o que eu gostaria...
>
> Um 2º emprego
> No início de 1974, fui a um colóquio, encontrei num átrio um antigo
> professor e acabei na fac de Economia de Coimbra. Semanas depois,
> atravessei um corredor na Universidade, encontrei outro antigo
> professor e mudei para a Fac de Direito...
>
> Mais (em regra,via telefone):
>
>  - em 1973, o do Doutor Álvaro Melo e Sousa, que fez questão de me
> levar como assistente para a Católica
>  - em 1974, o do Doutor Alarcão, que me convidou para ser sua
> assistente na cadeira de de Teoria Geral
>  - em 1976, o da Branca Amaral, em nome do Ministro Rui Machete, a
> perguntar se estava interessada em ser requisitada como assessora do
> Provedor de Justiça. Claro que estava (uma instituição nova, de
> inspiração nórdica. Bela oportunidade!
> - em Novembro de 1978, o do meu colega João Padrão, a sondar-me para
> integrar o Governo Mota Pinto, na Sec  de Estado do Trabalho
>  - em Janeiro de1980, o do Primeiro Ministro Sá Carneiro, a
> convidar-me para o seu  Governo.
>  - em 1987, o do prof Victor Crespo, para  fazer parte da sua "chapa"
> para a AR, como Vice-Presidente (outro cargo a que nunca me ocorreria
> candidatar-me, por iniciativa própria...).
>  - e, entre outros, muitos anos mais tarde, o do Dr. Artur Jorge, a
> convidar-me para a sua lista à Federação Portuguesa de Futebol, como
> candidata à presidência da AG (batendo, talvez, o record da
> imprevisibilidade)
>
> 77 -   Mário Neves, meu antecessor como SE Emigração ( no governo Pintesilgo).
> O almoço com o Dr Godinho. A oferta de uma publicação sobre Maria
> Lamas, de quem foi muito amigo (o feminismo deve ter sido discutido ao
> almoço, talvez até o Dr Godinho tenha comentado o meu parecer sobre o
> serviço militar para mulheres, mas já não me lembro...). E depois,
> discreta, mas firmemente, pedi a conta, para grande desconforto dos
> dois (O Dr G confessou que nunca uma senhora lhe tinha pago um almoço,
> em quase 70 anos de vida...).
>
> 78 - Ruth Escobar
> Conheci-a num jantar na residência do Cônsul-Geral em S Paulo.
> Convidou, para me receber na residência, um grupo variado de notáveis
> da comunidade, entre os quais, ela, actriz, política, activista de
> muitas causas.
> O diplomata era um homem interessante e uma simpatia - estou a vê-lo
> distintamente, com todo o seu charme e um bonito sorriso, mas ainda
> não me recordei do nome. Teve nessa noite muitas razões para sorrir.
> Ruth e eu fomos a alma da festa, qual de nós a mais efusiva. Qd, já
> depois do café, quase à despedida, se apercebeu  de que tínhamos
> acabado de nos conhecer, nem queria  acreditar - julgou que éramos
> amigas de infância. Mas não, apenas ambas do Porto, muito nortenhas e
> extrovertidas, feministas e deputadas (ela na Assembleia do Estado de
> São Paulo, a 1ª mulher a ser eleita - e, ainda por cima, ao abrigo do
> Estatuto de Igualdade, pois nunca se naturalizou brasileira  - eu na
> AR).
> Vi -a pela última vez, em 2002 ou 2003, num outro jantar em São Paulo
> - muita da sua  vivacidade perdida, com visíveis sinais de doença. Uma
> pena!
>
> Nesse jantar (com numerosos convivas) encontrei o antigo MNE de
> Marcello Caetano Dr. Rui Patrício. Esse, muito vivo, muito divertido.
> Estávamos numa das mesas redondas, lado a lado, o que nos permitiu
> falar do Tratado de Igualdade, que, em contextos e momentos diferentes
> da política, ambos defendemos. Les beaux esprits...
> Altura tb para recordar seu irmão António, antigo Sec Geral do MNE,
> com quem sempre tive um excelente relacionamento.
>
> 79 - Anos 80
> Ainda como SEE, em Mainz, no Festival da Canção Migrante do Padre Cabral.
>  Depois de uma tarde inteira  de audições, entra em palco o Rancho
> Gonçalo Sampaio e chamam-me para aquela gracinha de dançar um vira
> minhoto. O pior é que fiquei a actuar com eles durante meia hora!!!
> (goradas várias tentativas de discreta retirada...)
>
> 80 -  Paris, 1969/70
> O meu período argentino começou depois de ter sido "corrida", tal como
> uma "trintena de residentes",  que o Director da Casa de Portugal
> considerava os "católicos progressistas" (nisso vendo um perigo para a
> paz e estabilidade da Casa!). Cada um foi parar a uma residência
> diferente, o que, aliás, não nos impediu de nos encontrarmos
> regularmente na da Gulbenkian, onde do nosso grupo restava o Padre
> Mário e, talvez, mais um ou dois .
> Coube-me em sorte a Fundação Argentina, edifício antigo, mas
> agradável, mesmo no centro da Cité, com  vista para o Blv Jourdan e o
> parque Montsouris. Uma sorte! Um director fantástico, o Prof Covian, a
> filha, a engraçadíssima Morita, e outros argentinos e sul-americanos
> de muitas Repúblicas desse continente, com quem rapidamente fiz
> amizade. Foi como se tivesse emigrado para a Argentina, que passou a
> ser, para mim, um país muito especial. Claro, eu sei que lidei com
> elites - mas, depois, de visitar o país, por diversas vezes, a partir
> de 80, convenci-me que o cosmopolitismo é um traço da cultura
> argentina que as elites partilham com o povo.
> Na altura achava os colegas argentinos uns simpáticos exagerados, qd
> me diziam: "Tens de ir a BA! É uma cidade incomparável, com parques
> como os de Londres, mas maiores, e avenidas maiores do que as de
> Paris".
> Muito me lembrava dessas comparações, ao percorrer, anos depois, por
> exemplo, a Av. 9 de Julho...
> Sim. BA é incomparável, o que não tem a ver apenas com a dimensão de
> ruas  e jardins, teatros e palácios...
> Numa dessas visitas, o Embaixador Baptista Martins fez-me uma grande
> surpresa: localizou a família Covian, de quem lhe tinha falado, e
> convidou-os para uma noite de fado (com António Bernardino e Durval
> Moreirinhas). Foi um belo e emotivo reencontro, com os pais da Mora  -
> e seria a última vez que estaria com eles. Mas não mais perdi o
> contacto com a Morita - telefono-lhe e ela aparece sempre, ou para um
> jantar ou mesmo para os eventos da comunidade, como aconteceu com os
> "encontros para a cidadania" na Biblioteca Nacional (no anfiteatro
> Jorge Luis Borges).
>
>  Paris 68/70
>  Eduarda Cruzeiro -  a descoberta de Agustina.
> Ao serão, contava histórias de família - e, na minha família,
> histórias insólitas são sempre no feminino. E ela comentava:"essas
> tuas antepassadas parecem personagens  dos romances de Agustina".
> Havia que ler Agustina, que se tornaria a minha escritora favorita.
>
> O Padre Mário Lages e a descoberta de PG Wodehouse.
> O primeiro Bertie Wooster, que me emprestou, pareceu-me um pouco
> desmesurado, caricatural, mas logo me converti ao seu fantástico mundo
> de humor num movimento imparável de aventuras hilariantes. Tão
> britânico, que não imagino que possa ser traduzido. Sei que há
> traduções, mas nunca tive a curiosidade de ver como se cumpriu a
> missão que me parece impossível...
> Também não imaginava que fosse o erudito Pe. Mário, Doutor em Estudos
> Arménios, a "apresentar-me" PGW, quinta essência do "non sense"
> britânico. Mas foi.
> O Pe. Mário e o Pe. Micael terão sido, em grande parte, os
> "responsáveis" pela designação do nosso grupo de amigos como os
> "católicos progressistas".  Nada de mau nessa apressada
> caracterização, mas o certo é que nenhum de nós estava empenhado em
> "incendiar" a casa. Só mesmo no obsessivo ambiente português de época
> se podia tomar a nossa procura de são e despreocupado convívio por
> vontade de intervenção revolucionária... À volta do café arménio do Pe
> Mário falávamos de tudo e mais alguma coisa, mas não conspirávamos
> contra ninguém.
> Foi um grupo esplêndido, um tempo feliz.  Uma tertúlia quotidiana,
> depois que regressávamos das aulas, depois das aulas.
> Às vezes, apareciam o Alfredo de Sousa, via Eduarda, de quem era
> compadre, e o Padre Januário Torgal Ferreira. Ambos viviam fora da
> Cité, em diferentes "quartiers".
> Ou um residente já então famoso, que não era propriamente da
> "tertúlia", mas de quem todos gostávamos, Nadir Afonso. Animava sempre
> imensamente qualquer reunião. Por mim, nunca tive dúvida sobre a sua
> genialidade como pintor...
>
>   A Ani Bettencourt, que depois reencontrei, como deputada na AR e,
> mais recentemente em Espinho, onde veio fazer uma interessante
> palestra sobre Educação (tema central nos programas da 1ª República,
> e, naturalmente, nas rememorações  do "centenário"). Lembrava-se bem
> do meu proclamado feminismo, e também do facto de ter nas paredes do
> quarto enormes "posters" dos Kennedy (John e Robert), num tempo em que
> estava mais na moda a imagem de Che Guevara.
>
>  Os quartos individuais eram pequenos, mas práticos, com a mesa de
> trabalho junto à janela (de onde avistava a Igreja de Gentilly), e uma
> cama/sofá ao fundo, enquadrada lateralmente entre a parede e uma
> estante, que também servia de mesinha de cabeceira. Foi aí que
> instalei um gira-discos, que funcionava automaticamente com o simples
> premir de uma tecla. Adormecia ao som do mesmo disco, pois enquanto
> estivesse acordada ia sempre accionando o botão. De princípio, os
> discos eram poucos, o que não tinha importância, porque a qd gosto,
> gosto - e ouço, vezes sem conta...
> Serge Reggiani, Barbara, Léo Ferré, Aznavour, Piaf...
> Na Casa da Argentina, o quarto era enorme, a mobília mais antiga, mais
> simpática...
> Tinha uma cafeteira eléctrica, tomava imenso café. Se estava de manhã
> no quarto era interrompida pela mulher a dias, que vinha zelosamente
> fazer a limpeza, e aproveitava para lhe oferecer um cafézinho. Ela
> aceitava sempre. Sentava-se e contava histórias de sabor popular, às
> vezes téctricas. Era uma francesa  de meia idade, gordinha  e pesada,
> simpática, rural, apesar de décadas de vivência parisiense.  Começava
> muitas frases com "Et bas bien"...
> É curioso como me recordo dela e não das empregadas ou empregados da
> Casa de Portugal, com excepção do porteiro, um francês detestável, que
> controlava entradas e saídas e todas as movimentações dos
> residentes...
>
>  Nesse 1º ano, a Mãe foi visitar-me a Paris e ficou uma semana. Andei
> a ver os hotéis da vizinhança, mas depois achei mais fácil e mais
> prático convidá-la para o meu quarto (pus o caso à direcção) enquanto
> eu me mudava para a Casa da Noruega, onde havia uma vaga. A Mãe gostou
> muito - conviveu com todos os meus amigos. O Padre Micael e o Padre
> Mário foram os principais "cicerones".
>  Depois do regresso a Portugal  ainda mantive contacto com o grupo dos
> "católicos progressistas" durante alguns anos. Depois, apenas
> encontros esporádicos, com a Maria Emília, a Laura, a Adelaide, o
> Padre Mário, muito recentemente com a Luísa e o António, (no
> lançamento de uma bela publicação de homenagem ao Prof Mário Lages, na
> Universidade Católica, onde fez, como previsto, uma grande carreira
> académica).
>
>  Ìamos muito, em grupo, ao cinema, menos vezes ao teatro ou a
> concertos - no Bobinno, por exemplo.
> Ao "Parc des Princes", fui sózinha, ver o SLB perder por 3-0 com os
> holandeses do Ajax (suponho que era o Ajax...). Um vizinho de bancada
> (francês) deu-me boleia de volta para o centro de Paris. Muito
> simpático, elogiando o meu francês, mas corrigindo a pronúncia de um
> "maintenant" com accent de Marseille (influência dos discos de
> Mireille, certamente...).
> Na tv da casa de Portugal, vi muita televisão - na sala, porque nos
> quartos não havia esse luxo, agora corrente, mesmo num hotel pífio. Vi
> o homem pousar na lua, o Eddy Merkxs, meu herói belga, ganhar o
> Tour...
> Outro grande divertimento nas noites de fim-de-semana, não
> regularmente, mas de vez em quando: a canasta! Eduarda, eu e algumas
> das outras, quando jogávamos, não conseguíamos parar. Sobretudo quem
> estava a perder, queria mudar de sorte. A luz, na parte social, era
> cortada às 3.oo. Continuávamos à luz de velas...
>
> 81 -Em criança, em jovem, gostava muito de jogar cartas, damas,
> dominó. Em Espinho, nos cafés, em tardes de nortada não fazíamos outra
> coisa. a Madalena, a Rosa Maria, as primas, eu...
> Alguns anos, vinha connosco, para ajudar a criada e tomar conta de
> nós. a Ana Sousa, vizinha da tia Rozaura. Era uma óptima parceira para
> a sueca e a canasta: perdia sempre...
> Também me lembro de jogar, de longe a longe, com o Avô Manuel, com o
> Pai. Acho que a mãe não jogava (só no casino e pouco...) e as Avós
> ainda menos.
> Há muito que isso não acontece. A última vez, foi em Connecticut, com
> o nosso cônsul  Dr Seabra da Veiga, um Padre e um empresário amigos
> dele. Faltou um outro senhor padre, que era parceiro dos serões de
> sueca, à 4º feira.
> Rita, a mulher de Adriano, é americana, nem sabe o que é a sueca.
> Aprendeu a falar muito bem português, mas não certas minudências da
> nossa cultura, uma das quais é esta.
> Estavam os 3 em simples conversa, as cartas quietas sobre o pano
> verde, quando Adriano olha para mim e faz uma afirmação mais do que
> interrogação: "A Manuela joga sueca"
> Tem alguns inconvenientes o não gostar de mentir, mesmo em coisas
> pequenas. Eu queria dizer que não, mas fiquei apenas embaraçosamente
> calada por alguns segundos a mais e , depois, entrei com desculpas
> fracas, embora verdadeiras: há muito que não jogava, fora experiência
> de infância e nunca tinha sido grande perita, preferia a canasta...
> Fui imediatamente "arrematada" como parceira do empresário, enquanto
> cônsul e padre formavam uma dupla, em quem eu via os vencedores
> anunciados... mas por sinal, quem ganhou fomos nós, o par improvisado.
> Fiz um enorme esforço de concentração  e memória. Não gosto de perder
> (nem a "feijões", como diz o povo e o Passos Coelho, previsivelmente).
> Ali, como em Espinho ou em Paris, era assim que jogávamos - a dinheiro
> foi coisa que nunca tentei. O gozo era ganhar a competição, não ganhar
> umas moedas
>
> 82 - 1987 - Porto campeão europeu.
> Estava a jantar em casa da Fernanda Quintanilha, com a Mª Luísa e a
> Cipriano, creio que também a Fernanda Mota Pinto. Um grupo esplêndido,
> ríamos o tempo todo. O marido da Fernanda contava histórias
> engraçadíssimas. Às vezes convertiamo-nos numa espécie de "Eixo do
> Mal" da política da época.
> Nessa noite, ao serão, houve uma incomum separação de H/M. As senhoras
> na sala à conversa. Os homens ao lado numa salinha mais pequena a ver
> o jogo... (eu só lá não estava porque o jogo me "stressava" demais.)
> Só quando me anunciaram o 2º golo do Porto, o de Juary, me juntei ao
> grupo do futebol. E, sendo a única portista, ninguém festejou mais do
> que eu...
>
> No fim do ano nova vitória, no Japão, num campo coberto de neve.
> Contra o Penarol do Uruguai. Na semana seguinte, inusitados festejos
> numa embaixada (era VP da AR, os convites sucediam-se e acetá-los e
> representar a AR era parte do meu trabalho - agradável, diga-se, bem
> mais agradável do que dirigir as sessões qundo o Prof Crespo se
> recolhia ao gabinete). Mal entrei veio na minha direcção o Embaixador
> do Uruguai, de braços abertos a dizer:
> "Manuela, estou feliz com a vitória do Porto!"
> Fiquei tão surpreendida, que não devo ter conseguido esconder o
> espanto. Para mim, pensava: Estarei confundida? Será ele do Chile, ou
> do Paraguai?
> Mas logo ele desfez a dúvida: "Yo soy sempre contra Penharol!"
> Era um velho Senhor, muito alto e magro, diplomata de nomeação
> política, antigo presidente do parlamento, creio, com ar
> definitivamente "upper class" - um aristocrata e, como se via, pouco
> dado a hipocrisias, em matéria de futebol. Era bem simpático - gostava
> muito dele, sempre bem disposto!
>
> 83- 1960  - Coimbra, Lar das Dominicanas
> Foi onde fiquei no meu ano de caloira, com a Mª Emília Castro Solla.
> Escolha dos pais dela. Depois da experiência do sardão, não seria a
> minha. Mas acompanhei a amiga, que tinha conhecido no casamento da Mª
> Angélica. em Avintes.
> O lar ficava junto às escadas monumentais.
> Com as dominicanas não tive problemas - as regras eram aceitáveis. Com
> a Mª Emília foi uma alegria - não quem tenha mais sentido de humor. No
> quarto ao lado, ouvia-se uma língua estranha que depois descobri que
> era português micaelense. simpáticas vizinhas, que pronunciavam o "u"
> à francesa!
> Problemas tive com as veteranas, que nos queriam praxar. Depois de um
> 1º exercício, que considerei humilhante (não levei para a
> brincadeira... e elas não acharam nenhuma graça à minha presunção de
> citar Lord Byron, a meia de uma obrigação que me impuseram) recusei
> participar e fui "ostracizada". Nada que me ralasse. Mantinha o meu
> círculo de amizades, não precisava do convívio do lar para nada - pelo
> contrário, a vida daquela comunidade só me atrapalharia.
> Quantos aos colegas homens, que não podiam escapar às praxe, sempre
> procurei protegê-los, evitar que as trupes lhes rapassem o cabelo,
> depois do por do sol...  Uma caloira contava como senhora - bastava
> dar-lhes o braço, para estarem protegidos. Graças aos meus rápidos
> reflexos, salvei várias vezes o Manel e outros colegas.
> Mas, o Manel, que se aventurava na noite sem a minha companhia, foi
> rapado duas vezes!
> Detestei!
>
>  Uma noite, de madrugada, houve uma suspeita de assalto ao lar. Foi
> chamada a polícia, correram tudo, uma barulheira infernal. O meu
> quarto dava para uma varanda, por onde circularam, se não os ladrões,
> pelo menos os polícias e todo o mundo. no dia seguinte eu era famosa,
> porque tinha sido a única a não acordar com todo aquele estrondo.
> Muito mais tarde, numa madrugada, em Bagdad,  a história repetiu-se.
> Perante uma ameaça real ou suposta de invasão do espaço aéreo, toda a
> artilharia do exército iraquiano rebentou, acordando a cidade, sem me
> acordar a mim!
>
>  Uma vantagem do Lar: a quantas serenatas assisti! Dedicadas o outras
> jovens, evidentemente, mas todas vínhamos, discretas, atrás das
> cortinas, à janela e gozávamos o espectáculo. Genuíno! No final as
> homenageadas agradeciam.
>
>  Mal habituada às altas notas do Liceu Rainha Santa estranhei as boas
> notas do 1º ano de Direito, que eram muito mais baixas... Comecei com
> média de 13, subi um valor de média, anualmente, e acabei com 17. Só
> dois sustos: negativa na escrita de Colonial e de Corporativo, com
> Rogério Soares, (prova do meu progressismo...). Em todo o caso subi na
> oral para 14.
>
> A divertida triangulação Mª Emília, Manel Q e eu. Foi um ano
> particularmente feliz. Pena que a Mª Emília tenha desistido de Direito
> e enveredado pelas línguas modernas no Porto.
>
>  Uma amiga em  comum com a Lecas - coisa rara, pois os nossos círculos
> eram diferentes, como os nossos gostos e interesses. no dia em que a
> Lecas morreu tinham combinado ir ao cinema. Que choque para a Mª E
> telefonar lá para casa a perguntar a razão do atraso e responderem que
> a Lecas tinha acabado de partir...
> A Mª E entrou em depressão. Eu, por sinal, também - para além de ter
> entrado em  crise de fé,,,
>
> 84- O meu  entusiasmo "portista" desde que me conheço! Sobretudo em
> matéria de futebol e de ciclismo. Que emoção ver Dias dos Santos,
> vencedor da volta, no eléctrico de Gondomar para o Porto, que ele
> frequentava.
> Íamos, às vezes, ver passar a volta, em Espinho, no Minho - onde
> estivéssemos a passar o verão. E um ano o Pai esteve com o Tio Manuel
> na organização, através do diário do norte, que era o patrocinador
>
>  No Sardão, fazia relatos imaginários de futebol . muito apreciados
> nos recreios, ao serão... O Porto ganhava sempre-
> Lembro-me de ouvir os relatos de futebol e de hóquei no quarto do Avó,
> no seu rádio de cabeceira. Ele não perdia um.
> Qd estava deitado a descansa, tinha o rádio sempre ligado. Como o Pai
> e eu própria. Sempre fomos gente da rádio,,,
>
>  Antes de contar histórias, como ficção, contavas como pretensa
> realidade. Até aos 7 anos era um terror nesse aspecto. Ninguém podia
> acreditar em mim. Qd fui para a Escola mudei radicalmente, deixei-me
> de inventivas, excepto se apresentadas como tal, A verdade acima de
> tudo.
>
> 85- Como dirigente no Diário do Norte, o Pai não só participou numa
> "Volta", como tinha sempre bilhetes para o desporto, o cinema, o
> circo. Recordo um fantástico campeonato do Mundo ou da Europa no
> Palácio de Cristal.
>
> Circo e Carnaval não eram o meu forte. No circo, tinha pena dos
> animais e enervava-me com o perigo que corriam os trapezistas. No
> Carnaval detestava máscaras, bombas, bisnagas e água, inquietante,,,
>
> 86 - Dragão de ouro, depois da guerra aberta com Mota Amaral, por
> causa da obstrução a participação nos vitórias europeias do
> FCP...Sevilha , Geselkirchen (ich war da, como diziam as t-shirts que
> não consegui comprar):
> Sevilha . olhos fechados no últimos quarto de hora...
> Geselkirchen, - não houve stress.
> Yokohama . fugi a ver os penalties, buscando refúgio nas casas de
> banho de senhora, onde não havia ecrá de tv... Contei ao Maniche,
> Perdeu-se a rir!
>
>  Troca de palavras de Lello com um grupo de adeptos do Once Caldas, à
> saída de estádio
> Eles, provocatoriamente, em coro: Tiendes plata! Tiendes plata!
> Lello: E vocês têm pó branco!
>
>  Fui, em tempos idos, nos anos 80, membro do Conselho Cultural do FCP,
> e sou agora membro do Conselho de Delegações e Filiais , e, nessa
> qualidade, estive em inúmeras festas portistas, por todo o  país  (com
> Fernando Gomes, Aurora Cunha,  Vermelhinho, Lima Pereira, Folha,
> Séninho e várias outras glórias do clube) e, por duas vezes, no
> estrangeiro - com Paulinho Santos  em Long Island, com Vitor Baía em
> Toronto.
> Tudo esplêndido na América - uma recepção em grande, festa muito bem
> organizada, hotel óptimo, uma hospitalidade bem à portuguesa. Paulinho
> Santos levou a filha, uma menina encantadora, muito bem educada,
> precoce, óptima companhia.
> Toronto organizou um festa concorridíssima - Baía é um fenómeno, até
> muitos benfiquistas  compraram mesas e quiseram pedir-lhe autógrafo!
> Mas achei verdadeiramente estranho que me tivessem excluído do convite
> para um jogo de hóquei sobre o gelo! Creio que o presidente da filial
> considerou que uma mulher gostaria mais de ir às compras do que a um
> estádio. no que se enganava. Será que se o representante do Conselho
> de Delegações do FCP fosse um homem a atitude seria a mesma?
> Obviamente não. E eu detesto discriminação sexista. Falei a um amigo
> que tem lugar cativo no estádio (o Virgílio Pires, por sinal um dos
> tais benfiquistas, que é admirador de Baía) e fui ver o jogo com ele.
> Ao contrário do futebol americano, que, para mim, é um desporto
> "cabalístico", que eu não entendo mesmo, o hóquei tem regras
> perfeitamente acessíveis para quem está habituado a futebol (soccer)
> ou a hóquei em patins. Gostei, apesar de não ter sido dos melhores
> espectáculos. Mas o ambiente , sim, era espectacular - e, na parte
> central, um conjunto de ecrãs mostrava cenas de choques e violência de
> outros "derbies" mais excitantes. Foi o que achei mais curioso...
>
>  Sou filha de portista e neta de portista. O que quer dizer que há
> portistas na ascendência directa desde a fundação do clube...
> O Pai falava de Pinga (Artur de Sousa Pinga, madeirense) e de Ciska
> (húngaro, se bem recordo) como eu falo aos mais novos de Hernâni ou
> Jaburú... Ou, na geração seguinte, de
> Fernando Gomes ou Pavão...
> Frequentei as Antas desde a inauguração do estádio, com o Pai (depois,
> com o Tio Serefim e o Tónio).
> Dorival Knipel (Yustrich) foi o grande herói da minha adolescência!
> Aos júniores, ia com o Tio David. Ele convenceu-me com um grande
> argumento: se queres ver o Porto ganhar sempre, vem ver esta equipa.
> E falava-me de um jogador que ia ser um "craque": Fernando Gomes.
> Só consegui constatar a qualidade do jovem à 3ª tentativa (1º estava
> castigado, depois lesionado...). Finalmente, qd cheguei ao campo de
> treinos, já o jogo tinha começado há alguns minutos e, no topo norte
> um artista da bola desenhava uma jogada magistral e marcava golo. "É o
> Gomes!" . pensei. Era!
>
>
> 87 -  Com o Avô Manuel nunca fui ao futebol (embora tenha partilhado o
> stress de muitos relatos). Com ele, ia ao cinema quase todas as
> semanas (ele era assíduo, frequência quase diária...), algumas vezes
> ao teatro.
> Coisa rara na minha geração, frequentava muito os cafés,  com Pais ou
> Avô. Os cafés do Porto eram ambientes masculinos, mas admitiam
> excepções, e nunca senti qualquer  fenómeno de estranheza e muito
> menos hostilidade...
> Cena cómica só uma, em frente ao Batalha e ao café Chave de Ouro, de
> onde vínhamos: o vento arrancou o chapéu da cabeça do Avô e um carro
> passou-lhe logo por cima.
>
>  Muito cinema, também, com os pais, no verão, em Espinho (quase todos
> os dias, qd não duas vezes ao dia). O cinema era a nossa maior
> distracção. Víamos tudo, até filmes medíocres,  qd já tínhamos
> esgotado os melhores.
>
>  Passeios ao fim de semana eram outro "must" - no mínimo à Foz, a Vila
> do Conde, Póvoa,  Santo Tirso, mas, em regra, mais a norte, até Braga,
> Bom Jesus, Viana, Ponte de Lima... grandes almoços...  Em grandes
> grupos, com os tios e os primos, um comboio de carros. Melhor volante:
> o Tio david com um daqueles famosos "Citroen" dos anos 40 e 50. era o
> meu transporte favorito, Andar com o meu Pai, devagar, causava-me
> dores de cabeça
> Termas no verão para visitar as Avós - Vizela, Caldelas, Aregos, Chaves...
>
> 88-  O gosto pela velocidade é uma constante. Nos Ministérios, os
> motoristas sabiam isso e esforçavam-se... Contam-se muitas histórias,
> inclusive, que eu própria tomava o volante qd os achava lentos. Poucas
> dessas histórias são verdadeiras, mas as que são, são!
> Sendo certo que nunca, em viagens oficiais, removi o motorista do seu
> posto, Só fiz isso uma vez, numa viatura particular, em campanha
> eleitoral, O jovem que me estava destinado, perdia a caravana de
> vista. Aí, sim, passei para o volante, para acompanharmos o ritmo...
>
> O 1º motorista era um pasmado, o tal que me perguntou: "Como é que
> vossa excelência deseja ser chamada - Senhor Secretário de Estado ou
> Senhora Doutora (escolhi o feminino, é claro).
> O 2º foi o Senhor Caravana, que era um ás! Passava sinais vermelhos e
> tudo! Tinha um pistola à mão, porque achava os tempos perigosos (eu
> nem tanto e não gosto de armas de fogo, mas não me atrevi a
> desapontá-lo. Ele era tão simpático!
> Tentei, mais tarde, levá-lo para meu motorista na AR, o que lhe teria
> permitido reformar-se com uma pensão a dobrar, mas a secretária-geral
> do Mº do Trabalho opôs-se, porque não quis prescindir dele. Estúpido
> gesto de um evidente egoísmo,
> Pela minha parte, podia até passar "raspanetes" aos homens, mas seria
> incapaz de os prejudicar dessa maneira... Ao contrário daquela
> suavíssima criatura.
>
> No regresso de Fermentelos, em Agosto de 1980, com o Sr Rodrigues ao
> volante do velho Citren, que pertencera ao Dr Sáragga no antigo
> regime, a alta velocidade por estradas estreitas, em direcção à
> autoestrada.
> Garcez Palha estava lívido e queria que eu lhe desse instruções para
> abrandar. Mas eu recusei-me. Seria entrar em contradição com o meu
> perfil psicológico . e nem o homem entenderia. Mas aceitava que o
> Garcez Palha lhe desse essa indicação, falando em seu nome. Ele assim
> fez, na 1ª paragem para tomar um café. E perguntou ao Sr Rodrigues se
> el não tinha a noção do que podia acontecer se rebentasse um pneu.
> Resposta: morremos todos, mas é assim que quer a Sec Est...
> Eu acho que eles também queriam - em particular aquele, que sabia o
> que era guiar bem.
> Mas nessa viagem, teve de reduzir a velocidade...
>
>  Alguns dos motoristas eram funcionários de secretaria, tentados pelo
> vencimento, que, com horas extraordinárias eram muito superiores. Um
> que era impecável, e até portista (!), acabou destruindo o Citroen no
> 1º dia em que estava de férias, mas decidiu levar o carro para a
> "noite" lisboeta, com um grupo de amigos. Impossível valer-lhe no
> processo disciplinar que lhe foi imediatamente levantado. Voltou, com
> o processo às costas, para a secretaria. Nunca mais o vi.
> Outro, também um ás do volante (que fazia Chaves-Lisboa em pouco mais
> de 4 horas, no tempo em que as autoestradas ainda não tinham chegado a
> Trás-os-Montes). Fazia curvas de montanha a velocidade estonteante,
> como se estivesse num rally. Em 2ª naturalmente. E também se achava um
> perfeito guarda-costas. Era um atleta e obviamente um tipo aguerrido,
> nunca foi preciso actuar  - o perigo estava na cabeça deles. Eu nunca
> me senti em risco...
> Esse acabou a missão num dia de concerto em honra de Isabel II no
> Teatro Dona Maria. Era também noite de jogo de Benfica (o seu clube).
> Preveni-o de que o concerto seria muito curto, convoquei-o para daí a
> 45 minutos.
> Esperei por ele mais de uma hora. Não tinha alternativa porque a
> carteira, com as chaves de casa, tinha ficado no carro (era pequena
> demais a que levava comigo..).
> Só não fiquei sozinha, especada no Rossio, com um longo vestido a
> esvoaçar ao vento, porque Sampayo e Melo, o chefe de gabinete não me
> abandonou. Ele e o seu motorista.
> É escusado dizer que já nem fui com o meu, no regresso a casa, Troquei
> logo ali de condutor, embora o do chefe de gabinete fosse um
> "atrapalhado" . Mas serviu para aquele percurso curto. O outro voltou
> para a secretaria no dia seguinte, O jogo de futebol saiu-lhe caro...
> Ou melhor, a irresponsabilidade.
> Imediatamente a seguir ao Sr Rodrigues, que se reformou,  optei por um
> retornado, que tinha sido motorista do último Governador de Angola. Na
> cidade, não notei grande inabilidade, embora não pertencesse à classe
> do antecessor. Mas, na primeira viagem de estrada, a caminho de
> Miranda do Douro, foi um desastre, um desastre mesmo! Chocou com um
> camião enorme, numa tentativa de ultrapassagem, que todas - a Fernanda
> Agria, a Graça Marcelino e eu -  vimos que não podia resultar. Vinha
> um carro em sentido contrário, a estrada não dava para 3, e o homem
> nem travou, nem acelerou.  A Fernanda, ao meu lado,  gritava, a Graça,
> na frente, tentava sair para trás. E eu olhava, prevendo o choque, mas
> não vendo vantagem em fazer ou dizer alguma coisa... O carro ficou
> bastante amolgado, do meu lado. Tive  de sair pela porta esquerda. O
> motorista estava sem fala. Fui eu que tranquilizei  o condutor do
> pesado, assumindo a responsabilidade do Citroen no acidente.
> Depois, o resto da viagem foi um pesadelo. Ele era um condutor apenas
> "urbano"  -  curvas e ultrapassagens não eram a sua especialidade.
> Mas chegamos, sem mais tragédias, a Miranda, onde o Júlio Meirinhos
> nos conduziu, sempre, no carro da Câmara. O velho retornada passou os
> 2 dias que lá estivemos, postado em frente ao Citroen, o olhar, por
> mais que lhe sugerissemos  uns  passeios pela cidade. ele não tinha
> disposição. Na volta, a pretexto de que queria comprar um daqueles
> modelos em 2ª mão, e gostava de o experimentar, guiou a Graça...
> Depois, houve que arranjar o carro e procurar outro condutor (o tal
> que acabaria por o destruir).
>  Assim começou a minha "lenda negra" em matéria de motoristas... Ainda
> houve mais alguns insucessos menores, até me fixar num excelente
> profissional, o Sr Ventura, que vinha de gabinetes do "antigamente" e
> tinha linha, competência, classe. O substituto, o Sr Guerra, era um
> jovem, que gostava de deslocações aos fins de semana, (sobretudo no
> verão, quando as as missões a Trás-os-Montes eram constantes),
> poupando o outro ao desgaste. Uma  dupla perfeita. Acabou o
> encadeamento de sucessores, mas a "lenda" ficou.
> Com eles apenas pequenos incidentes:
> O Sr Guerra preparava-se para atropela um cão qd eu gritei que
> travasse e le travou, evitando a tragédia. Justificou-se dizendo que
> tentava garantir a minha segurança. Respondi:"Para mim, cão é gente".
> Uns tempos depois, apareceu com um guarda lamas amolgado .
> desculpou-se. dizendo que fora contra um muro, para não atropela um
> cão.
> Aceitei, na dúvida...
> O Sr Ventura levou-me, uma noite a Alvalade, e combinamos um ponto de
> encontro, na da 2ª circular, logo a seguir à saída do estádio. Findo o
> jogo fui para esse lugar e...nada de Sr Ventura. Fui caminhando,
> caminhando... O piso estava enlameado, era uma berma de autoestrada,
> só passavam autocarros cheios e nem havia paragem por perto e eu ali
> sozinha!
> O engarrafamento era monumental, mas não resolvia o meu problema -
> estava só no meio da multidão de carros. De súbito, ouço uma voz que
> chamava o meu nome. Olhei, olhei, até que vi uma mão a acenar à janela
> de um carro e, atrás da mão, o rosto amigo do Miguel Anacoreta
> Correia. Por entre os carros, lá me dirigi ao salvador!
> O que tinha acontecido? O sr Ventura decidira improvisar  e ir
> esperar-me à saída de uma das muitas portas do estádio... Ouviu o que
> não queria!
>
> 89 - Ainda Fermentelos  - 1980
> Sá Carneiro presente e, curiosamente, por uma única vez, com o seu
> governo no feminino...
> Pelo PSD, eu,  (Emigração). Pelo CDS. a Teresa Costa Macedo,
> (Família). Pelo PPM, Margarida Borges de Carvalho, (Ambiente  -a
> .Margarida haveria de aderir mais tarde ao PSD).
> Um Agosto quente, também politicamente, nas vésperas de campanha
> eleitoral. Sá carneiro tinha programa intenso nesse domingo, até ao
> fim subsistiu a dúvida se poderia ou não ir. Foi de helicóptero.
>
>  O largo da Pateira de Fermentelos era ainda de terra batida. No largo
> acumulava-se uma multidão compacta. Deixamos um pequeno círculo em
> aberto, e postámo-nos, as 3 Sec de Est na primeira linha, como comité
> de recepção. Todas e todos ignorantes das coisas do ar. Não percebemos
> a razão porque a "nave" nos sobrevoava, incessantemente, sem pousar.
> De súbito, porém, pica em direcção ao solo, em direcção a nós num
> movimento assustador, O povo atira-se por terra, o mais longe
> possível. Parecia a guerra! Eu fui arrastada por um director geral
> para o sopé de uma pequena elevação, onde supostamente estaríamos em
> segurança. Vimos o héli aterrar, levantámo-nos do chão a sacudir a
> poeira parda que nos cobria totalmente e corremos para a fila de
> cumprimentos, no preciso momento em que o Pm, de sorriso aberto, saía
> para o solo.
> Que cena deve ter gozado! De comédia "non sense", em reality show.
> Compreendemos, enfim, que um héli precisa de espaço para a manobra de
> pouso, com o mínimo de segurança... e que só no simulacro de aterragem
> sobre as nossas cabeças, conseguiu afastar-nos...
> Foi ainda cheias da poeira remanescente em nós, que nos sentamos na
> mesa de honra, ao lado de Sexa...
>
> A odisseia não terminou aí... A segurança era inexistente. A multidão
> cercava Sá Carneiro e muitos efusivamente batiam-lhe nas costas. Fiz
> eu de guarda costas! Coloquei-me estrategicamente atrás e não permiti,
> pelo menos, as pancadas amigáveis (sabia, como toda a gente,  que ele
> tinha grandes problemas de coluna). Depois, lá dentro houve um heckler
> (coisa sem importância, emigrante recalcado, ao serviço de um qlq
> partido, talvez). Brilhantíssimo discurso de Sá Carneiro sobre a Nação
> de Comunidades, mais cultura do que organização rígida...  Uma
> desinspirada intervenção minha sobre as reformas em curso na SEECP...
> Apareceu Fernando Nogueira, que apresentei ao 1º Mº como
> "Sácarneirista, mas todos sabíamos que não era, pelo menos então. O 1º
> Mº conhecia bem os seus artigos de imprensa. Falaram disso,  foram
> ambos muito cordiais.
> A saída foi tão espectacular como a chegada. mas sem sobressalto para
> ninguém. O héli sobrevoou a pateira de porta aberta, com o dr Sá
> Carneiro a acenar à multidão durante largos minutos. Imagens
> fantásticas, que foram, depois, muito vistas na campanha eleitoral -
> um héli no ar com a porta aberta e um político destemido a sorrir,  lá
> de dentro, era coisa memorável e inédita.
>
> 90 - 2011 Comemorações do 5 de Outubro em Fânzeres no Centro Republicano
> Como é que uma monárquica (embora "res publicana", democrata,
> feminista e admiradora das feministas republicanas do início de
> novecentos) é convidada como oradora de um dos sobreviventes Centros?
> Só a mim me acontece... Que seja em memória dos tios republicanos,
> irmãos da Avó Maria...
> Comentário de um ourives que me falou muito do pai:
> "O seu Pai era um homem exageradamente honesto"
> Lá isso, era! Boa observação.
> 62 - A conferência comemorativa dos 250º aniv da criação do MNE (com
> outra designação, juntando as relações exteriores e a guerra)
> A conferência de Vasco Pulido Valente foi mais guerra do que
> diplomacia. Do alto da mesa de honra, onde era apenas figura
> decorativa, tinha a visão ideal das reacções do público. Foi
> espantoso,, sobretudo para quem, como eu,  acha  VPV um génio (com
> génio, mas tudo menos diplomata). Na 1º fila, sereno e confortável
> perante o discurso, Sá Machado.
> Quando uns dias depois, em conversa com ele, lhe disse que era a única
> pessoas bem disposta naquela audiência, ele rectificou:
> "Bem dispostos estávamos dois, a Manuela e eu"
>
>  Muitos diplomatas actuais não mereciam a zurzidela geral de VPV. Mas
> um Walter Rosa a difundir no cocktail para o corpo diplomático, a 10
> de Junho de 1980, o discurso do PR, num gravador de baixa gama, cheio
> de ruídos e intermitências, estava mesmo a reclamar as diatribes de
> VPV!
> E um outro que no Brasil se queixava publicamente (fê-lo na Tv
> brasileira diante de mim!) de ganhar muito mal. Qd contei esse
> episódio ao MNE Jaime Gama, ele indignou-se: É o Emb de Portugal mais
> bem pago no mundo! (na altura ainda a vida em Brasília era barata).
> E o outro, muito simpático, por sinal, que se opunha ao envio das
> exposições que a SECP tinha em circulação (uma de artesanato de
> qualidade -  com colchas de Castelo Branco e tudo! - e outra de
> serigrafias da Cooperativa Árvore). Foi um diálogo de surdos. Para o
> Emb aquela comunidade era particularmente rude e desinteressada. As
> outras podia conhecer eu, aquela conhecia ele. Por fim, informei-o de
> que as exposições também iriam àquela capital, porque eu assim tinha
> decidido. Ponto final. E rematei: "Recuso-me a encarar o meu trabalho
> nas comunidades como o pique-nique dos parolos"
> E, por sinal, quem teve razão fui eu - as expo's foram um sucesso naquele País!
>
> E qd me depositavam num hotel, para me repousar em pleno dia? Não fico
> em quarto de hotel de dia, excepto para ver um jogo de futebol, ou as
> olimpíadas...
> Em Harare, de uma das vezes, o Emb recomendou que não saísse à rua,
> porque era muito perigoso (não se via um branco no centro da cidade,
> explicou). Mas eu quis saber ao certo de que perigo falava: "Matam?"
> Ficou chocado: "Não, não matam, mas roubam"
> Eu vinha de JNB, na altura epicentro de violência. Daí a pergunta. O
> roubo não me assustava nada . Mal o Emb virou costas, eu fui mesmo
> para a rua. Na verdade, os brancos não abundavam, Mas ninguém me
> incomodou. Comprei t-shirts, bananas a vendedores ambulantes... foi
> agradável.
> Idêntica recomendação, muitas vezes, em São Paulo, no Rio... Nunca me
> abstive de andar na rua, com ar de quem pertence à cidade, e nunca fui
> incomodada...
> Idem em S Petersburgo, onde usei o metro, constantemente. Parece que
> consideram cidade perigosa para estrangeiros, Não sei. Sei que o
> segredo para escapar incólume é não parecer estrangeiro. Em S
> Petersburgo, em 2 dias apenas, 3 ou 4 russas (sempre mulheres) vieram
> pedir-me informações.
> Devo ter um ar credivelmente eslavo. E a indumentária não me
> distinguia das locais. Mas tinha de  lhes responder: Sorry, I can't
> speak russian"
>
>
>  Susto só em Brasília qd o nosso Deputado Lourenço (nascido em
> Portugal!) me levou para dentro do hemiciclo, em plena sessão, e
> insistiu em interromper o orador, com quem tinha um passado de
> desavenças, para me apresentar.
> Para já, em Lx, ninguém entra no hemiciclo, os visitantes são
> recebidos nos camarotes. .Assim, por uma questão "cultural", sentia-me
> uma intrusa... E, depois, estava à espera de me ver no centro de uma
> azeda discussão parlamentar. Mas não! Foram todos muito simpáticos ,O
> orador interrompido fez suas as palavras de Lourenço, para me elogiar,
> como grande amiga do Brasil.
>
>  Simpático também Chávez, na sua visita ao hemiciclo (vazio) da AR. Eu
> era a única deputada, e estava lá, não porque, à data, pertencesse à
> Mesa da AR, mas porque me pediram para substituir alguém do PSD.
> Lembraram-se da deputada da emigração e Chávez  desfez-se em elogios
> aos nossos compatriotas, alguns dos quais gostarão dele, mas,
> certamente, não a maioria....
>
>  São encontros breves, mas deixam-nos uma determinada ideia das personalidades.
> Simpático, numa versão triste, o Príncipe Bernardo da Holanda, que me
> coube acompanhar no cortejo até ao salão nobre e na volta - falamos de
> ambiente, era um dos seus temas. A Rainha era um encanto, cheia de
> vivacidade e de interesse pelas pessoas, pelas particularidades do
> sistema político, Tínhamos sido industriados para evitar comentários
> políticos. Comentar, não comentamos... mas respondemos a muitas
> perguntas de Sua Majestade.  Não parava de disparar perguntas, à cada
> interlocutor que se lhe apresentava. Nós, os da Mesa da AR, ali
> estacionados, bem perto, pudemos testemunhar o desenrolar da conversa,
> no bom aproveitamento do um a um... disseram-me que a Rainha queria um
> debate com deputados, mas não lhe fizera, a vontade e aquele foi o
> processo que encontrou de chegar ao resultado.
> Voltaria a vê-la no hemiciclo de Estrasburgo, onde Monarcas ou
> republicanos eleitos são recebidos da mesma maneira (não entre nós: na
> sala de sessões, só os eleitos, os outros no Senado - uma excepção
> apenas para Don Juan Carlos, que, aliás, até falou em bom Português).
> Mas aí, de longe, e vestida de uma forma extraordinária, a meio
> caminho entre uma soberana vestida para séculos recuados e para o
> nosso, numa indumentária solene...
>
> 63 -  A visita do PR da Índia. Na mesa do salão, colocados os
> presentes que seriam trocados. Um vistoso elefante cinza, recamado de
> pedrarias coloridas (coisa grandiosa) e. a seu lado, um simples livro,
> embrulhado sem espavento, Comentário ácido do PR Soares sobre o
> presente da AR...Eu não podia reclamar, Crespo ficaria irritado, mas
> podia transmitir ao chefe de gabinete o aparte presidencial. Agiu de
> imediato. No minuto seguinte um contínuo fardado de gala depositou um
> enorme jarrão da VA, ao lado do elefante, ganhando, pelo menos, na
> altura.. "Que bonito" - espontânea reacção do PR indiano ao ver o
> jarrão.
> Pasmei com tão afortunada decisão, não sabia que a AR adquirira,
> finalmente, um stock de ofertas decentes.
> Mas não! Era apenas um dos jarrões da casa, ao qual deram uma
> espanadela rápida, depois de terem despejado a areia do seu interior.
>
>  Margarida Serra e Moura e o Rei Juan Carlos (viagem no interior da
> AR, com mostra do retrato de Dom Manuel II...) para o acompanhar à
> casa de banho dos homens (não seria mais "cozy" a do gabinete do PAR
> Crespo?
> O sentido de humor da Margarida valorizava muito o relato do episódio...
>
> 64-   En attendant Godinho, foi o que me saiu. Mas por pouco tempo,
> felizmente. (na transição do 1º para o 2º provedor, antes que este,
> sentindo talvez alguma latente hostilidade. Em breve seria o nosso
> bem-amado
>
>  Almoço com Mário Neves e Dr. Godinho
> Insisti em pagar e paguei. (é a 1ª vez na minha vida que uma senhora
> me paga um almoço). Ficaram desconfortáveis. Questão de género e de
> geração...
>
>  Um dos versos divertidos do Dr. Godinho (poeta repentista!) para mim
> (houve-os para todos)
>
> Se a querem ver satisfeita
> E com um ar prazenteiro
> É darem vivas ao Porto
> E ao Dr. Sá Carneiro
> )
>
>   Só eu discutia política com o PJ - da discordância à amizade, que
> não olha a essas questões...
> Ele Soarista, eu Sá Carneirista... qt histórias da História. memória
> viva da 1ª República
>  Fui eu que disse umas palavras, simples, de improviso, pela sua morte (na AR).
>
>  A ida para o SPJ com o Coronel Costa Brás.
> não esperava que eu gostasse das tarefas, mas gostei. Resolvia os
> processos, em bom tempo. Às 6.00 da tarde, sessão de cinema quase
> quotidiana... Dou-me bem com as rotinas agradáveis,,,
>
>  Casos memoráveis: a pensão do ex.PIDE (que Luís da Siveira referiu no
> seu recente jantar de homenagem)
> A inconstitucionalidade  da rejeição do serviço militar para mulheres
> ( a cabo da F Aérea)
>
>  - Já no governo, o convívio com o ex Provedor e os colegas,
>
> 65 – 1967 e anos sgs Centro de estudos
> A bibliotecária de roxo
> OIT explic de inglês (econ...
>
>  Cabral Basto e o elogio lisboeta; "A Manuela nem parece de Coimbra"
> Eu adoro Coimbra, mas percebi a magnitude do elogio, para alguém como
> ele. Um bom amigo, (herdou o meu artº sobre o corporativismo - uma
> libertação...)
>
> No Centro de Estudos havia um vasto leque partidário, como se viu depois de 74;
>  CDS (N Brito, que foi Sec de Estado,  deputado - e que dizia, no gab
> de Cortez Pinto que as casas do povo tinham sido criadas à bofetada),
> PSD (Rui Machete, que já lá não estava, Sérvulo, ambos membros de
> governos, eu própria, também)  PS (Monteiro Fernandes, Sec Estado,
> Santos Ferreira, que esteve à frente da CGD e do BCP)
> Sem partidos, mas com quadrante ideológico. Cortez Pinto e Geraldes
> Cardoso (que foi director do SNI, ambos do regime: Silva Leal, centro
> esquerda, sem partido, Bernardo Lobo Xavier, monárquico, conservador,
> Fernanda e Branca, centristas, - a Branca mais à direita -   o Eduardo
> Costa, suponho que da área do Bloco Central, o Luís Galvão Telles mais
> à esquerda. Carlos Branco, Nuno Cabral Basto, mais dados à filosofia
> do que a alinhamentos partidários - nem sei como os situar ao certo.,
> mas esquerda não eram.
>
> Partilhei o gabinete do 1º andar da Praça de Londres com o Cabral
> Basto e, qd ele saiu para administração de uma empresa (antecessora da
> Galp),  com o C Branco,
> Ele debatia comigo os seus escritos do momento - em discurso
> caudaloso. Mais monólogo, muitas das vezes...
>
> Depois de 74, cada um de nós seguiu o seu curso, com o fim do Centro.
>  Ao Carlos Branco fui eu buscá-lo a uma "prateleira". onde estava a
> ser desperdiçado (quadro geral de adidos, ou nome semelhante...). Uma
> sorte. Um assessor mais do que qualificado em domínios múltiplos,
> filosofia, sociologia, planeamento, gestão, finanças, direito do
> trabalho... E o meu precioso e único "ghost writer". Muito impaciente
> com as minhas pressas e impaciências... "Lá vem a Catarina de todas as
> Rússias ". Eu detestava a comparação - muito descabidasendo eu tão bem
> comportada em matéria de costumes!
> Fiz no antigo Centro o "braindrain" possível - a Fernanda Agria,
> requisitada, a Branca . em comissão. o Eduardo, em voluntariado no CCP
> (tinha regressado milionário da emigração na Amazónia, não precisava
> de cachet...
>
>  Deste Centro de Estudos se dizia que era um "alfobre" de futuros
> directores.- gerais (frase do tio Manuel, qd soube do meu ingresso .
> mas eu nunca acreditei que fosse o meu caso...). Na verdade.. a
> profecia só não se realizou completamente porque quase todos vieram a
> ser mais do que isso, na política.
> Foi-o o Geraldes Cardoso, de outras entidades públicas o Santos
> Ferreira. a Branca Amaral (equiparada, como Chefe de gabinete
> ministerial_), a Fª Agria (Sec Geral do CCP). Eduardo Costa (Banco de
> Fomento), houve os que permaneceram na carreira de investigação
> (Bernardo, Carlos Branco). ou seguiram a advocacia /Sáragga)  ou a
> vocação das Artes (LG Telles)
> No governo, Machete, Sérvulo, Monteiro Fernandes, eu mesma...
>
> Nestes centros de investigação, que todos os ministérios deviam ainda
> manter (para não recorrerem a "out sorcing"), só se entrava com média
> de 16 de licenciatura. A margem de manobra para promover amigos ficava
> bastante reduzida...
> Primeiro acedíamos ao quadro de "auditores. Só qd abria vaga éramos
> promovidos a "assistentes". Em regra, por antiguidade. no meu caso o
> Directo  Cortez  Pinto enganou-se e propôs-me antes do Eduardo. Abri
> logo o caminho à rectificação, mas vagou outro lugar e não foi precisa
> a rectificação.
> Depois, não havia mais promoções, mais competitividade... o que muito
> facilitava as excelentes relações entre todos.
>
> Não tínhamos horários - eu gosto de trabalhar concentrada - em minha
> casa de preferência, ou num café, à maneira de Coimbra. ..Os gabinetes
> do ministério eram para conviver, trocar impressões, trazer e levar
> papéis...
>  No SPJ era quase a mesma coisa. Cada um tinha o seu pelouro, não
> queria os dos outros, e menos ainda, o lugar de coordenador, que era
> muito burocrático.,  Uma família feliz, sobretudo no tempo do
> encantador dr J Magalhães Godinho... Aí, redigia minutas de ofícios,
> mas os pareceres mais desenvolvidos continuavam a ser feitos em casa -
> às vezes na varanda, com uma cafeteira eléctrica de café e a companhia
> da minha "serra de Aires" Endora. ( a incrivel Endora, devorada de
> cantos de móveis e cadeiras. com a sua irrequietude e o seu altíssimo
> QI  - a menina querida da Maria Póvoas.
>   Até dormia no quarto da Maria, mas qd trovejava, vinha apavorada ter
> comigo e só acalmava se a pegasse ao colo. Uma cadela enorme, que nem
> cabia no colo!
>
>   Sempre perigoso classificar politicamente colegas, que não se
> "acusam"... Aconteceu-me no SPJ.
> Havia um que era PCP assumido e eu que era assumidamente Sá
> Carneirista,  tal como as duas secretárias do dr Godinho, a Mª da Luz
> e a Ana Maria  (ele socialista não levou "camaradas" para o
> gabinete...).
>  Os  outros não andavam pelos corredores a anunciar o seu partido.
> Havia, por exemplo o Caupers, que eu achava progressista e não me
> terei enganado), e o  Manuel Marcelino, que me parecia CDS. Não por
> isso, mas por ser grande especialista de Direito Administrativo, foi o
> que eu convidei para Chefe de gabinete no MT, em 78. Só vim a
> descobrir que ele era socialista, quando em 1980 lhe pedi que voltasse
> às mesmas funções, comigo, na SEECP . Disse-me que não podia, porque
> era anti-AD. No governo Mota Pinto não tinha tido problemas - era um
> governo de independentes e ele grande admirador do Prof . que lhe
> tinha dado Teoria Geral. Mas AD, não!
>  Compreendi perfeitamente, mas fiquei surpreendida! E com muita pena,
> porque ele foi um fantástico chefe de gabinete  - sem ele teria vivido
> em stress permanente naqueles agitados 9 meses. Assim, não, bastava
> ele dizer-me: "podes assinar, eu li várias vezes",  que eu nem
> hesitava. Lia por alto e assinava por baixo... Não lhe escapava nada.
> Era sábio, atento aos menores detalhes, e honestíssimo, Por isso eu
> afirmei, no 1º encontro com Sá Carneiro que fora fácil ser SET  - para
> grande espanto dele...
>
> Já que o Marcelino não integrava a equipa, convidei a mulher, a Graça
> (casais num gabinete é complicado...).  Ela era UEDS, mas não se
> importou de trabalhar para o gabinete AD . e, chegada às eleições, sem
> que ninguém a tentasse converter (era o que faltava!), confessou que
> deu o voto àquele governo, porque o achou competente, Depois, não sei
> mais que escolhas fez...
> De  princípio, gozei com ela: "Acabo de saber que a Graça é uma esquerdista!"
> Ficou indignada: Quem  é que disse isso?"
> E eu, prontamente: "Foi o seu marido"
> De novo, muito irritada: "Esquerdista? Que ideia! Eu até votei UEDS"
> Bem, em Economia, onde ela estava a terminar o curso, a UEDS era
> possivelmente a direita. É tudo relativo,,,
>
> 66 .  O colóquio na London School of Economics .  Doutor S Leal,
> Adelina SC, Bernardo LX . o episódio das escadas do metro...
>
> 67 -  Os primeiros gabinetes foram excepcionais;
> No MT um equipa reduzida, de uma capacidade de tº incrivel .
> Chefe Gab M Marcelino (especialista em Dº Admin)
> Adjuntos Fª Agria e um velho senhor, em part time (porque estava
> doente, mas dava óptimos pareceres) Eram ambos "da casa",
> especialistas em Dº do Tº.
> Secretárias: Mº Lurdes Escudeiro (Milú) e Ana Pinto de Sousa (ambas
> diplomadas pelo ISLA)
> (agora, muitos gabinetes cheios de assessores fazem bem menos...)
>
> Na SEECP
> Chefe Gab Luís Garcez Palha (ex inspector.geral do Tº)
> Adjuntos Gonçalves Pedro (diplomata) e Milú
> Secretárias: Mª Luísa Ribeiro Ferreira a Graça Marcelino
>
>   Mª Luísa. Mulher do Conselheiro da Revolução. Nos banquetes, ficava
> sempre no topo hierárquico das mesas. Eu acenava.lhe, lá de baixo.
> Achávamos a situação muito divertida.
> Que choque, qd, anos depois, na AR, perguntei ao marido se ela estava
> bem e, el, mal escondendo a emoção, me disse que ela tinha morrido.
> (fazia-me  lembrar a prima Cristina - pelo feitio e até fisicamente,
> morena e bonita, sempre bem-disposta)
>
> 68 - Os motoristas foram escolha mais problemática. Há uma longa
> sucessão, a que perdi a conta... Coisa difícil, encontrar um com todas
> as qualidades requeridas. O 1º, que não durou muito, começou com esta
> pergunta: "Como é que vossa excelência deseja ser tratada, por Senhor
> Secretário de Estado ou por Senhora Doutora?"
> E eu, sem hesitação: "Senhora Doutora!"
> (A lenda negra dos motoristas continua no MNE. Ainda há dias mo disse
> o Fº Castro Brandão, dando-me, aliás, toda a razão...).
>
> O masculino do cargo era coisa, ao tempo, muito discutida. Lembro-me
> do Bernardo ser um dos acérrimos defensores do "Senhora Secretário de
> Estado", ou "Senhora Ministro" (eu discordava, é claro...)
> O motorista limitou.se a manter a concordância...
>
> 69 - Então havia poucas mulheres no governo...A minha nomeação para a
> Sec Estado do Trabalho levou o Marcelo R de Sousa a dedicar-me um
> editorial do Expresso... (elogiando Mota Pinto pela decisão)
>
> 70 - A Ana P S vinha do governo anterior, supostamente PCP. Quiseram
> que a despedisse. Não despedi.
> Foi-me dito pelo Mº:"se houver fugas de informação é do seu gabinete"
> Os nossos são de confiança".
> E eu: "com certeza, não há problema! Se houver fuga, é do meu
> gabinete. Ela fica".
> Ai, se soubessem que, como funcionária da Presidência do Conselho de
> Ministros,a Ana tinha sido intérprete de Vasco Gonçalves!!!
> O que ríamos no meu gabinete, a imaginar a cara deles, se eu lhes
> dessa essa informação. À cautela, não dei, para evitar crises
> cardíacas...
>
>  71 - Nomeações de Directores-gerais badaladas: Ela só nomeia
> directores.gerais com mais de 1,80m
> Coincidências - eles eram o Garcez Palha e o Joaquim Fernandes Marques
> Ao Garcez Palha o meu ex-colega Nuno, disse, um dia, que achava que
> estranhava que MP tivesse convidado  uma "comuna" para o MT. G Palha,
> para nos divertirmos, insistiu que eu o interpelasse sobre isso, para
> o ouvirmos responder, pois ele tem sempre resposta. Eu interpelei, num
> acto de posse de dezenas de funcionários - entre eles, o Nuno. Foi
> cómico, mas ele ficou atrapalhado... Por mim, sabia que tinha essa
> fama, pelo menos para quem estava no quadrante da direita. Lá estáva
> nova prova da relatividade destas coisas...
>
>
> 72 - De facto! Lembro una conversa com o Doutor Pinto Coelho do Amaral
> - marido da Branca Amaral -
> "Nós, os de direita...".  Atalhei de imediato: "Senhor doutor, eu
> nunca fui de direita!
> E ele: "É tudo relativo. Agora é!
> Estávamos em 75 - à medida que o país guinava á esqª,  eu inclinava-me
> mais à dª.  Tinha razão,  o Doutor Amaral, embora fosse bem mais à
> direita do que eu... Um homem muito inteligente e muito mordaz,
> gostava imenso dele!
> Foi assistente de Fiscal em Coimbra mas, nessa altura, já só  ensinava
> em Lisboa. No IES, onde o meu pai foi seu aluno no curso de Política
> Social, Encontrei-o num dia em que tinha ido saber a nota de um teste
> do Pai. Comentário dele: "Então agora é encarregada da educação do seu
> pai?".
>
> A Branca estava feita uma contra-revolucionária - arrancava cartazes
> das paredes, provocava o povo em comícios da esquerda  e eu ao lado,
> sem fazer nada disso, arriscava as reacções. Como qd saímos do estádio
> 1 de maio, de táxi, apesar de ela morar a pouco mais de 100 m... Foi a
> salvação.
> De outra vez, também perto do Estádio, mas num comício do PPD,
> apanhamos boleia de um camião de garagistas da Graça - e militantes de
> 1ª, todos empunhando grandes bandeiras laranja.
> Comentava eu que devia ser interessante participar na marcha (lenta)
> do alto de um camião. E ela foi logo falar com um deles, que nos
> convidou a subir. Escalamos a  altura procurando apoio nos pneus, com
> a ajuda deles. O Doutor Amaral, que vinha também do comício, ficou a
> ver a cena de longe e voltou calmamente para casa. Não tinha perfil de
> viajante de camiões...
> Nós as duas passamos uma noite cheia de alegria e de sustos. No fim da
> Av dos EUA, uns cidadãos de barras de ferro em punho,  amolgaram
> vários automóveis, mas não o nosso camião.  Mais vulnerável ficou ao
> apedrejamento dos participantes que saiam do comício do MES, no Campo
> Pequeno. A Branca e eu encostamos o mais possível à cabine fechada do
> camião, com as mãaos a proteger a cabeça. Pelo contrário, a mãe dos
> camionistas e os filhos foram à luta, tentando devolver as pedradas.
> Mas, pelo menos, ali ninguém ficou ferido... Dissemos adeus àqueles
> companheiros qd soaram as badaladas da meia noite - era fim de
> campanha, já não iríamos a tempo para ouvir os discursos do Parque
> Eduardo VII (uma desorganização, com centenas de militantes do PPD,
> como nós, retidos num trânsito infernal).
> Cada qual tomou o seu táxi e,. depois, como sempre fazíamos, nestas
> aventuras ligeiramente perigosas, telefonávamos uma à outra. Nessa
> noite a Branca bradava: "Viu o exemplo da Mãe dos camionistas? Há que
> imitá-la. A burguesia tem de perder o medo!".
> Ri-me imenso... medo é palavra que eu não associo à Branca... as
> pedradas eram de evitar mesmo.
>
> Inesquecível aquele velhinho que, nessa noite, ouvimos a dizer, à
> saída do Estádio: "Grande partido este. Tenho a certeza de que o
> Salazar, se fosse vivo, era do PPD"
> Eu nem queria acreditar. Olhei a ver se ele tinha a intenção de
> provocar. Não tinha! Era genuíno. Ainda bem que o Dr Sá carneiro não
> estava ali para ouvir semelhante tirada.
>
> 73 - O inesperado na minha vida
> (acontece a quem navega à bolina, como os antigos portugueses) A quem
> não procura  nada, ou, pelo menos, nada do que lhe é proposto. Enqt
> tive um projecto (de estudo, por exemplo), as coisas correram sem
> surpresas. Mas isso foi na infância, na adolescência. Até acabar o
> curso de Direito, a 2 de Nov de 1965. 15 meses depois, com o primeiro
> emprego, atingia outro objectivo - um lugar de assistente num Centro
> de Estudos onde éramos todos iguais, não havia promoções, nem
> competição, nem exames, provas de doutoramento, de agregação, e por aí
> adiante. O paraíso terrestre dos empregos, com amáveis chefes e
> colegas inteligentes.
>
>  Mesmo nesta fase do previsível, já alguns happenings...
> - Prémio dos Rotários do Porto (jantar no grande Hotel do Porto,
> Diploma e... 500 escudos  - uma grande surpresa, porque o presidente
> tinha lamentado não poder oferece-nos uma recompensa material e só vi
> a vistosa nota qd abri o envelope, à saída, já na rua. mas ainda em
> conversa com colegas do prémio
> ( estranho o preconceito que havia contra os Rotários- a família não
> queria que eu aceitasse e os Rev Padres, que foram consultados, deram
> parecer negativo, mas eu não cedi e fui, acompanhada do Pai...)
>
> - 1960  - Prémio nacional pelo Liceu Rainha Santa Isabel no final do
> curso complementar do liceu e convite para uma viagem a Marrocos (era
> o ano do centenário do Infante - o SNI organizou e todos os liceus
> mandaram o seu representante). Primeira experiência de voo, na TAP,
> naturalmente.
>
>  - 20 a História, 19 a Filosofia e Organização Política (mas onde é
> que eu pude falhar, para perder um valor numa matéria tão simples?),
> dispensa a Latim (a mais inesperada) e a alemão. Só fiz oral a
> Português (outra surpresa, para quem tinha tido sempre notas altas a
> contrastar com o latim) e subi para 17.
> Curioso, como estes pormenores não esqueceram...
>
>  - Beneplácito paterno para passar o verão de 57 na Inglaterra.
> Primeiro duas ou três semanas no St Catherine's, um lar de freiras no
> centro de Londres, depois "au pair", a tomar conta de crianças de uma
> família de judeus ricos no sul do País (Brighton- Hove) durante dois
> meses.
>  Parti de São Bento, na primeira quinzena de Junho, de mala e mochila
> (cheia de enormes pacotes de bolacha araruta) com a Margarida Losa,
> minha colega do 6º ano do liceu, filha de Ilse Losa. Ficamos dois dias
> em Paris, no Grand Hotel St Michel, (com a esperança. infelizmente
> frustrada, de ver ao fundo de um corredor o vulto de Maria Lamas.
> hóspede ilustre.  Atravessamos a Mancha de ferry e despedimo-nos à
> chegada a Londres. na praça de táxis. No início. ainda nos encontramos
> para umas idas ao cinema e ao teatro. Ela contou-me um história sobre
> a velhinha que a  hospedada (não me  lembro se também estava
> contratada,"au pair") e que se enfureceu. na sapataria onde comprava
> sapatos, qd a Margarida comentou que lhe ficavam muito bem: não lhe
> interessava nada a estética, só o conforto. Era outro mundo, outra
> cultura...
> Regressei em finais de Setembro, sozinha e desembaraçada, de novo, via Paris.
>
>  E o que me aconteceu nesses dois meses de imigrante sazonal!... Lidar
> com crianças - coisa nova. Cães e gatos, sempre fizeram parte do meu
> mundo. Podia considerar-me uma competência nesse campo. Ainda a
> Madalena e eu andávamos na escola primária e já tínhamos no curriculum
> o salvamento de uma ninhada inteira de gatinhos, que a mãe-gata não
> podia amamentar (ministrando-lhes, à colherada, uma mistura adequada
> de leite e água).
> Crianças não havia. Na minha geração os mais novos faziam pequena
> diferença de mim e a futura geração de "sobrinhos" (primos -sobrinhos)
> ainda não tinha nascido.
> O que podia ter sido um desastre correu, afinal, bastante bem. Eu não
> gostava muito das duas meninas, mas elas gostavam de mim. Lilian, a
> mais velha ia nos 5 anos, era demasiado viva e irrequieta, fazia
> imensas perguntas. O meu inglês era básico, melhorou bastante naquele
> período, obviamente, mas eu dizia sempre  que só sabia responder em
> português. Lilian não se importava: "say it in portuguese". E eu
> bradava: "Menina chata!  Cala-te por um bocadinho. És insuportável".
> Enfim,  este género de desabafo, que, para Lilian, era música
> celestial. Olhava-me com uma atenção afectuosíssima. Hoje, penso que
> ela se parecia comigo, qd da mesma idade. Até fisicamente, magrinha,
> cabelo castanho  claro com reflexos aloirados, muito lisos, para não
> dizer espetados. Sempre em movimento. Há quem aprecie o género - que
> exige energia para corresponder à energia...
> Ruth, de 18 meses fazia um contraste enorme. Era uma linda menina de
> caracóis loiros e olhos azuis, muito calma, não questionava ninguém,
> praticamente ainda nem falava. Sempre contente, sentada na cadeira
> rolante em que a passeava e em que às vezes até a deixava sobre a
> areia da praia. A outra brincava, à vontade, com amigos da sua idade
> que abundavam ali, em Hove. Como não entrava nas ondas sem ser comigo,
> por medo, não havia risco. Quantas vezes passei as manhãs e ler livros
> de Agatha Christie, oferecidos pelos pais das meninas - sem me ralar
> nada com elas.  (O 1º policial que li, na íntegra, foi o delicioso "A
> body in the library").
> Poucos anos depois, na meia década de sessenta, os meus numerosos
> pequenos primos,  conviveram com uma Manuela bem diferente, que os
> levava à praia, à piscina, ao cinema, ao circo. Fazia a festa com
> eles, em puro voluntariado - e era muito popular, com bom fundamento.
> Com a Lilian também o era, mas sem semelhante mérito. Creio que
> despertava tão inesperadas reacções da sua parte, por ser o oposto das
> "nannies" suiças a que estava habituada. Impunha a disciplina, para
> infinito espanto dos pais, porque era inflexível - o que os adultos
> não costumem ser com as pequenas e astutas criaturas. Qd a prevenia de
> que não a levaria ao mar se não comesse a sopa toda cumpria a ameaça,
> por muitas lágrimas que ela, depois, nesse dia, vertesse sobre as
> areias da praia... Consequência: passou a comer a sopa e tudo o mais
> que estivesse na sua dieta.
> O que a Lilian chorou na minha despedida!
> Lembro-me bem dessa genuína manifestação de tristeza infantil. Depois,
> durante uns tempos, a mãe escrevia-me a contar que a Lilian falava
> muito de mim e andava a juntar "pennies" para me vir visitar o
> "Portuguese"  - que para ela, além da minha nacionalidade, era o nome
> do meu país.
> De qlq modo estava mais próxima da realidade do que a velhinha da casa
> ao lado, que todos os dias me perguntava se tinha recebido boas
> notícias da Irlanda. E todos os dias lhe respondia que era portuguesa,
> não irlandesa.
> Nunca percebi a razão do engano, tanto mais que não podia fundar-se na
> minha pronúncia, nem, infelizmente, na minha fluência na língua
> inglesa, que, ao tempo, estava num mínimo pessoal. Só muito
> recentemente me ocorreu outra explicação - de origem religiosa. Era
> católica numa vizinhança judia. Católica ou irlandesa seriam sinónimos
> para ela? May be!
>
> 74 - Inesperada tb a forma como consegui o meu 1ª emprego, em 1967.
> Depois, o  primeiro convite para assistente da universidade (Católica
> de Lisboa) em 1973, ou o  convite para assistente da Univ de Coimbra
> (1974) - posse a 23 de Abril, averbamento no BI a 24 de Abril...
>
>  A 1ª experiência como docente deve-se ao Carlos Branco. Foi
> convidado, não sei por quem a dar aulas de sociologia na Fac de
> Ciências Humanas da Católica e declinou, de imediato, ou não fosse o
> Carlos Branco, homem de gabinete. De facto, não estou a vê-lo a
> entender-se com os aguerridos jovens da "Catho", como se dizia em
> Paris. Acho que foi ele mesmo que sugeriu o nome de Álvaro Melo e
> Sousa para o substituir e, na passada, sugeriu o meu nome para
> assistente, uma vez que tinha acabado de regressar de França, com uns
> vagos estudos de sociologia (depois de maio de 68 tudo tendia a ser
> vago, em paris, nesse domínio  ou, em alternativa demasiadamente
> centrado no "fenómeno Maio").
> Era assunto urgente  - o Doutor Álvaro M S telefonou-me (com uma bela
> voz, impressionantemente calorosa) e tanto insistiu num encontro no
> dia seguinte, um sábado, que eu não consegui dizer "não"). Mas o C
> Branco não estava e nós não nos conhecíamos... recusou o velho
> expediente do cravo na lapela. Sugeri que nos descrevêssemos
> mutuamente. Eu, 1.68 m, cabelos compridos, claros, óculos, fato de
> saia e casaco castanho. Ele moreno, forte...
> 15.00, Café Londres.
> Cheguei antes da hora. Fui lendo "A Bola". Entrou um senhor que
> correspondia à descrição, mas seguiu em frente... Qd 15 minutos
> depois, tentei que um empregado bronco fosse perguntar àquele senhor
> se era o doutor Álvaro Melo e Sousa, a movimentação levou-o a vir à
> minha mesa. A dúvida que lhe ficou tinha a ver com o meu fato, que
> para ele era mesclado e não castanho... (na verdade era as duas
> coisas...)
> A relação de trabalho foi esplêndida - era uma simpatia e tratava-me
> regiamente. Qd era preciso alguém madrugar para vigiar testes, lá ia
> ele! Mais outro "patrão" ideal...
> Os estudantes eram bem mais agitados do que os que viria a encontrar
> no ano seguinte em Coimbra, apesar de vivermos o PREC (a capital e a
> província distinguem-se nestes pequenos detalhes).
>
>  Nunca tive problema com nenhum aluno! Visto retrospectivamente, muito
> me admiro, pois deveria ter havido ao menos uma excepção. Não me
> lembro de nenhuma.
> (nem mesmo qd, fazendo júri com Fº Nogueira, tive de chumbar um longa
> sucessão de cábulas, todos juntos no mesmo dia - para alarme do Doutor
> Alarcão, adepto de quotas. "vamos ser saneados". "Não vamos - todos
> mereciam igualmente o chumbo"- Ninguém, de facto se manifestou).)
> Com colegas, sim, tive diferendos em Coimbra - coisa rara, foi a tal
> excepção a confirmar uma regra da boa convivência.
> Coimbra, tempo feliz - primeiro nos cinco anos de curso, com romance à
> mistura, depois como assistente mais dois anos... Colegas
> excepcionais, o Cordeiro Tavares, o Fernando Nogueira, o Proença...
>
>  Inesperada tb a forma como consegui o meu 1ª emprego, em 1967.
> Depois, o  primeiro convite para assistente da universidade (Católica
> de Lisboa) em 1973, ou o  convite para assistente da Univ de Coimbra
> (1974) - posse a 23 de Abril, averbamento no BI a 24 de Abril...
>
>  O convite do Prof Eduardo Correia
> Encontrei-o numas jornadas sobre desenvolvimento económico, ou coisa
> semelhante e fiquei admirada de ver um insigne criminalista naquele
> meio. Mais admirada fiquei qd , de imediato, me convidou para
> assistente da Fac de Economia de Coimbra-
>  "Não sabia que  já havia economia em Coimbra!"
> "Há. Eu sou o Director"
> Que gaffe, a minha! Emendei a mão, aceitando prontamente o convite.
> Logo ali ficou assente que trataria da burocracia a partir do dia
> seguinte.
> Demorou mais do que o esperado - não era funcionária pública, apenas
> contratada pelo Centro de Estudos, que estava integrada na "Junta de
> Acção Social (Antes do 25 de Abril já havia, assim, uma espécie de
> "recibos verdes"). Tive de fazer vacinas, e eu sei lá mais o quê.
> foram mais de dois meses e, por isso, tomei posse só nas vésperas do
> 25 de Abril. Regressei de Coimbra a Lisboa precisamente a 24...
>
>  O convite do Prof Ferrer Correia
>  Encontrei, por acaso, o Doutor Ferrer Correia nos Gerais. Quando
> soube que eu estava em Coimbra, na tão jovem, jovem fac de Economia,
> nem queria acreditar: "Venha para a sua Faculdade!" Respondi
> imediatamente: "Claro que vou!"
> O Doutor estranhou a rapidez da decisão: "Eu não estou a brincar"
> (coisa que também era possível, porque o Doutor Ferrer era bem capaz
> disso  -  mas naquele caso dava para perceber que falava  muito a
> sério, embora em tom ligeiro...)
> "Nem eu, Senhor Doutor. Não tenho dúvida em aceitar".
> Diferente seria, certamente, a decisão se o Doutor Eduardo Correia se
> mantivesse á frente da Faculdade. Não o iria desapontar - impensável.
> Era um querido Mestre! A cadeira em que me examinou correu-me muito
> bem. Ganhei até ex-aequo (salvo erro, com o Manuel Porto e o Gomes
> Canotilho), o Prémio Beleza dos Santos de Direito Criminal.
> A verdade é que em Direito tinha os meus antigos professores, os meus
> amigos, as minhas matérias preferidas, as minhas raízes, e até uma
> antiga frustração, que me acompanhava ainda, de não ter sido
> contratada como assistente qd acabei o curso - talvez apenas por ser
> mulher. Era, assim, um regresso a casa ( ocupando, finalmente, a minha
> "cadeira de sonho"...).
> À Economia nada me prendia - acabava de chegar e de encontrar caras
> novas. Para eles, eu também não era mais do que isso, uma
> recém-chegada. Foi entrar e sair, sem causar dano!
>
> Não tardou nada, aliás, o reencontro com o Doutor Eduardo Correia,
> regressado após a queda brusca do 1º Governo Constitucional - e
> regressado a Direito, não a Economia. Pouco depois, vi-me, com ele,
> num conselho universitário, não o pedagógico - (de momento não me
> lembro da exacta designação - envolvia o corpo docente e o discente).
> Fiz parte da sua lista, que foi a vencedora.
>
> Para outro órgão, candidataram-me... Outro dos candidatos era Fº
> Nogueira, também não  muito interessado no cargo. Eu fiz campanha por
> ele, ele por mim Consequência: empatámos!
> Com muito esforço, consegui convencê-lo a aceitar, (afinal, para mim
> era mais difícil, passava metade da semana em Lisboa, no gabinete do
> Rui Machete - a trabalhar directamente com a Branca, que era a chefe
> de gabinete).
>
> 75 -  Um dos diplomas em que dei parecer nesse gabinete foi o
> anteprojecto dos transplantes! Não podia adivinhar que o meu primo
> Mário viria a ser um dos seus grandes defensores, e o iniciador dos
> transplantes no Hospital Sto António, no Porto.
>
> 76- O 1º emprego
> Foi, pois, assim que as coisas aconteceram e se encadearam:Em Janeiro
> de 1967, estava na entrada de um Instituto, onde o Pai era
> trabalhador/estudante, fazendo uma diatribe feminista contra a minha
> situação de desemprego. O Sec Geral (Dr Carneiro Leão) surgiu lá de
> dentro, sem que o visse, ouviu, por puro acaso, veio perguntar-me
> pormenores sobre o meu curriculum académico, e, em 2 ou 3 dias,
> transmitiu-me uma oferta de colocação num Centro de Estudos -
> exactamente o que eu gostaria...
>
> Um 2º emprego
> No início de 1974, fui a um colóquio, encontrei num átrio um antigo
> professor e acabei na fac de Economia de Coimbra. Semanas depois,
> atravessei um corredor na Universidade, encontrei outro antigo
> professor e mudei para a Fac de Direito...
>
> Mais (em regra,via telefone):
>
>  - em 1973, o do Doutor Álvaro Melo e Sousa, que fez questão de me
> levar como assistente para a Católica
>  - em 1974, o do Doutor Alarcão, que me convidou para ser sua
> assistente na cadeira de de Teoria Geral
>  - em 1976, o da Branca Amaral, em nome do Ministro Rui Machete, a
> perguntar se estava interessada em ser requisitada como assessora do
> Provedor de Justiça. Claro que estava (uma instituição nova, de
> inspiração nórdica. Bela oportunidade!
> - em Novembro de 1978, o do meu colega João Padrão, a sondar-me para
> integrar o Governo Mota Pinto, na Sec  de Estado do Trabalho
>  - em Janeiro de1980, o do Primeiro Ministro Sá Carneiro, a
> convidar-me para o seu  Governo.
>  - em 1987, o do prof Victor Crespo, para  fazer parte da sua "chapa"
> para a AR, como Vice-Presidente (outro cargo a que nunca me ocorreria
> candidatar-me, por iniciativa própria...).
>  - e, entre outros, muitos anos mais tarde, o do Dr. Artur Jorge, a
> convidar-me para a sua lista à Federação Portuguesa de Futebol, como
> candidata à presidência da AG (batendo, talvez, o record da
> imprevisibilidade)
>
> 77 -   Mário Neves, meu antecessor como SE Emigração ( no governo Pintesilgo).
> O almoço com o Dr Godinho. A oferta de uma publicação sobre Maria
> Lamas, de quem foi muito amigo (o feminismo deve ter sido discutido ao
> almoço, talvez até o Dr Godinho tenha comentado o meu parecer sobre o
> serviço militar para mulheres, mas já não me lembro...). E depois,
> discreta, mas firmemente, pedi a conta, para grande desconforto dos
> dois (O Dr G confessou que nunca uma senhora lhe tinha pago um almoço,
> em quase 70 anos de vida...).
>
> 78 - Ruth Escobar
> Conheci-a num jantar na residência do Cônsul-Geral em S Paulo.
> Convidou, para me receber na residência, um grupo variado de notáveis
> da comunidade, entre os quais, ela, actriz, política, activista de
> muitas causas.
> O diplomata era um homem interessante e uma simpatia - estou a vê-lo
> distintamente, com todo o seu charme e um bonito sorriso, mas ainda
> não me recordei do nome. Teve nessa noite muitas razões para sorrir.
> Ruth e eu fomos a alma da festa, qual de nós a mais efusiva. Qd, já
> depois do café, quase à despedida, se apercebeu  de que tínhamos
> acabado de nos conhecer, nem queria  acreditar - julgou que éramos
> amigas de infância. Mas não, apenas ambas do Porto, muito nortenhas e
> extrovertidas, feministas e deputadas (ela na Assembleia do Estado de
> São Paulo, a 1ª mulher a ser eleita - e, ainda por cima, ao abrigo do
> Estatuto de Igualdade, pois nunca se naturalizou brasileira  - eu na
> AR).
> Vi -a pela última vez, em 2002 ou 2003, num outro jantar em São Paulo
> - muita da sua  vivacidade perdida, com visíveis sinais de doença. Uma
> pena!
>
> Nesse jantar (com numerosos convivas) encontrei o antigo MNE de
> Marcello Caetano Dr. Rui Patrício. Esse, muito vivo, muito divertido.
> Estávamos numa das mesas redondas, lado a lado, o que nos permitiu
> falar do Tratado de Igualdade, que, em contextos e momentos diferentes
> da política, ambos defendemos. Les beaux esprits...
> Altura tb para recordar seu irmão António, antigo Sec Geral do MNE,
> com quem sempre tive um excelente relacionamento.
>
> 79 - Anos 80
> Ainda como SEE, em Mainz, no Festival da Canção Migrante do Padre Cabral.
>  Depois de uma tarde inteira  de audições, entra em palco o Rancho
> Gonçalo Sampaio e chamam-me para aquela gracinha de dançar um vira
> minhoto. O pior é que fiquei a actuar com eles durante meia hora!!!
> (goradas várias tentativas de discreta retirada...)
>
> 80 -  Paris, 1969/70
> O meu período argentino começou depois de ter sido "corrida", tal como
> uma "trintena de residentes",  que o Director da Casa de Portugal
> considerava os "católicos progressistas" (nisso vendo um perigo para a
> paz e estabilidade da Casa!). Cada um foi parar a uma residência
> diferente, o que, aliás, não nos impediu de nos encontrarmos
> regularmente na da Gulbenkian, onde do nosso grupo restava o Padre
> Mário e, talvez, mais um ou dois .
> Coube-me em sorte a Fundação Argentina, edifício antigo, mas
> agradável, mesmo no centro da Cité, com  vista para o Blv Jourdan e o
> parque Montsouris. Uma sorte! Um director fantástico, o Prof Covian, a
> filha, a engraçadíssima Morita, e outros argentinos e sul-americanos
> de muitas Repúblicas desse continente, com quem rapidamente fiz
> amizade. Foi como se tivesse emigrado para a Argentina, que passou a
> ser, para mim, um país muito especial. Claro, eu sei que lidei com
> elites - mas, depois, de visitar o país, por diversas vezes, a partir
> de 80, convenci-me que o cosmopolitismo é um traço da cultura
> argentina que as elites partilham com o povo.
> Na altura achava os colegas argentinos uns simpáticos exagerados, qd
> me diziam: "Tens de ir a BA! É uma cidade incomparável, com parques
> como os de Londres, mas maiores, e avenidas maiores do que as de
> Paris".
> Muito me lembrava dessas comparações, ao percorrer, anos depois, por
> exemplo, a Av. 9 de Julho...
> Sim. BA é incomparável, o que não tem a ver apenas com a dimensão de
> ruas  e jardins, teatros e palácios...
> Numa dessas visitas, o Embaixador Baptista Martins fez-me uma grande
> surpresa: localizou a família Covian, de quem lhe tinha falado, e
> convidou-os para uma noite de fado (com António Bernardino e Durval
> Moreirinhas). Foi um belo e emotivo reencontro, com os pais da Mora  -
> e seria a última vez que estaria com eles. Mas não mais perdi o
> contacto com a Morita - telefono-lhe e ela aparece sempre, ou para um
> jantar ou mesmo para os eventos da comunidade, como aconteceu com os
> "encontros para a cidadania" na Biblioteca Nacional (no anfiteatro
> Jorge Luis Borges).
>
>  Paris 68/70
>  Eduarda Cruzeiro -  a descoberta de Agustina.
> Ao serão, contava histórias de família - e, na minha família,
> histórias insólitas são sempre no feminino. E ela comentava:"essas
> tuas antepassadas parecem personagens  dos romances de Agustina".
> Havia que ler Agustina, que se tornaria a minha escritora favorita.
>
> O Padre Mário Lages e a descoberta de PG Wodehouse.
> O primeiro Bertie Wooster, que me emprestou, pareceu-me um pouco
> desmesurado, caricatural, mas logo me converti ao seu fantástico mundo
> de humor num movimento imparável de aventuras hilariantes. Tão
> britânico, que não imagino que possa ser traduzido. Sei que há
> traduções, mas nunca tive a curiosidade de ver como se cumpriu a
> missão que me parece impossível...
> Também não imaginava que fosse o erudito Pe. Mário, Doutor em Estudos
> Arménios, a "apresentar-me" PGW, quinta essência do "non sense"
> britânico. Mas foi.
> O Pe. Mário e o Pe. Micael terão sido, em grande parte, os
> "responsáveis" pela designação do nosso grupo de amigos como os
> "católicos progressistas".  Nada de mau nessa apressada
> caracterização, mas o certo é que nenhum de nós estava empenhado em
> "incendiar" a casa. Só mesmo no obsessivo ambiente português de época
> se podia tomar a nossa procura de são e despreocupado convívio por
> vontade de intervenção revolucionária... À volta do café arménio do Pe
> Mário falávamos de tudo e mais alguma coisa, mas não conspirávamos
> contra ninguém.
> Foi um grupo esplêndido, um tempo feliz.  Uma tertúlia quotidiana,
> depois que regressávamos das aulas, depois das aulas.
> Às vezes, apareciam o Alfredo de Sousa, via Eduarda, de quem era
> compadre, e o Padre Januário Torgal Ferreira. Ambos viviam fora da
> Cité, em diferentes "quartiers".
> Ou um residente já então famoso, que não era propriamente da
> "tertúlia", mas de quem todos gostávamos, Nadir Afonso. Animava sempre
> imensamente qualquer reunião. Por mim, nunca tive dúvida sobre a sua
> genialidade como pintor...
>
>   A Ani Bettencourt, que depois reencontrei, como deputada na AR e,
> mais recentemente em Espinho, onde veio fazer uma interessante
> palestra sobre Educação (tema central nos programas da 1ª República,
> e, naturalmente, nas rememorações  do "centenário"). Lembrava-se bem
> do meu proclamado feminismo, e também do facto de ter nas paredes do
> quarto enormes "posters" dos Kennedy (John e Robert), num tempo em que
> estava mais na moda a imagem de Che Guevara.
>
>  Os quartos individuais eram pequenos, mas práticos, com a mesa de
> trabalho junto à janela (de onde avistava a Igreja de Gentilly), e uma
> cama/sofá ao fundo, enquadrada lateralmente entre a parede e uma
> estante, que também servia de mesinha de cabeceira. Foi aí que
> instalei um gira-discos, que funcionava automaticamente com o simples
> premir de uma tecla. Adormecia ao som do mesmo disco, pois enquanto
> estivesse acordada ia sempre accionando o botão. De princípio, os
> discos eram poucos, o que não tinha importância, porque a qd gosto,
> gosto - e ouço, vezes sem conta...
> Serge Reggiani, Barbara, Léo Ferré, Aznavour, Piaf...
> Na Casa da Argentina, o quarto era enorme, a mobília mais antiga, mais
> simpática...
> Tinha uma cafeteira eléctrica, tomava imenso café. Se estava de manhã
> no quarto era interrompida pela mulher a dias, que vinha zelosamente
> fazer a limpeza, e aproveitava para lhe oferecer um cafézinho. Ela
> aceitava sempre. Sentava-se e contava histórias de sabor popular, às
> vezes téctricas. Era uma francesa  de meia idade, gordinha  e pesada,
> simpática, rural, apesar de décadas de vivência parisiense.  Começava
> muitas frases com "Et bas bien"...
> É curioso como me recordo dela e não das empregadas ou empregados da
> Casa de Portugal, com excepção do porteiro, um francês detestável, que
> controlava entradas e saídas e todas as movimentações dos
> residentes...
>
>  Nesse 1º ano, a Mãe foi visitar-me a Paris e ficou uma semana. Andei
> a ver os hotéis da vizinhança, mas depois achei mais fácil e mais
> prático convidá-la para o meu quarto (pus o caso à direcção) enquanto
> eu me mudava para a Casa da Noruega, onde havia uma vaga. A Mãe gostou
> muito - conviveu com todos os meus amigos. O Padre Micael e o Padre
> Mário foram os principais "cicerones".
>  Depois do regresso a Portugal  ainda mantive contacto com o grupo dos
> "católicos progressistas" durante alguns anos. Depois, apenas
> encontros esporádicos, com a Maria Emília, a Laura, a Adelaide, o
> Padre Mário, muito recentemente com a Luísa e o António, (no
> lançamento de uma bela publicação de homenagem ao Prof Mário Lages, na
> Universidade Católica, onde fez, como previsto, uma grande carreira
> académica).
>
>  Ìamos muito, em grupo, ao cinema, menos vezes ao teatro ou a
> concertos - no Bobinno, por exemplo.
> Ao "Parc des Princes", fui sózinha, ver o SLB perder por 3-0 com os
> holandeses do Ajax (suponho que era o Ajax...). Um vizinho de bancada
> (francês) deu-me boleia de volta para o centro de Paris. Muito
> simpático, elogiando o meu francês, mas corrigindo a pronúncia de um
> "maintenant" com accent de Marseille (influência dos discos de
> Mireille, certamente...).
> Na tv da casa de Portugal, vi muita televisão - na sala, porque nos
> quartos não havia esse luxo, agora corrente, mesmo num hotel pífio. Vi
> o homem pousar na lua, o Eddy Merkxs, meu herói belga, ganhar o
> Tour...
> Outro grande divertimento nas noites de fim-de-semana, não
> regularmente, mas de vez em quando: a canasta! Eduarda, eu e algumas
> das outras, quando jogávamos, não conseguíamos parar. Sobretudo quem
> estava a perder, queria mudar de sorte. A luz, na parte social, era
> cortada às 3.oo. Continuávamos à luz de velas...
>
> 81 -Em criança, em jovem, gostava muito de jogar cartas, damas,
> dominó. Em Espinho, nos cafés, em tardes de nortada não fazíamos outra
> coisa. a Madalena, a Rosa Maria, as primas, eu...
> Alguns anos, vinha connosco, para ajudar a criada e tomar conta de
> nós. a Ana Sousa, vizinha da tia Rozaura. Era uma óptima parceira para
> a sueca e a canasta: perdia sempre...
> Também me lembro de jogar, de longe a longe, com o Avô Manuel, com o
> Pai. Acho que a mãe não jogava (só no casino e pouco...) e as Avós
> ainda menos.
> Há muito que isso não acontece. A última vez, foi em Connecticut, com
> o nosso cônsul  Dr Seabra da Veiga, um Padre e um empresário amigos
> dele. Faltou um outro senhor padre, que era parceiro dos serões de
> sueca, à 4º feira.
> Rita, a mulher de Adriano, é americana, nem sabe o que é a sueca.
> Aprendeu a falar muito bem português, mas não certas minudências da
> nossa cultura, uma das quais é esta.
> Estavam os 3 em simples conversa, as cartas quietas sobre o pano
> verde, quando Adriano olha para mim e faz uma afirmação mais do que
> interrogação: "A Manuela joga sueca"
> Tem alguns inconvenientes o não gostar de mentir, mesmo em coisas
> pequenas. Eu queria dizer que não, mas fiquei apenas embaraçosamente
> calada por alguns segundos a mais e , depois, entrei com desculpas
> fracas, embora verdadeiras: há muito que não jogava, fora experiência
> de infância e nunca tinha sido grande perita, preferia a canasta...
> Fui imediatamente "arrematada" como parceira do empresário, enquanto
> cônsul e padre formavam uma dupla, em quem eu via os vencedores
> anunciados... mas por sinal, quem ganhou fomos nós, o par improvisado.
> Fiz um enorme esforço de concentração  e memória. Não gosto de perder
> (nem a "feijões", como diz o povo e o Passos Coelho, previsivelmente).
> Ali, como em Espinho ou em Paris, era assim que jogávamos - a dinheiro
> foi coisa que nunca tentei. O gozo era ganhar a competição, não ganhar
> umas moedas
>
> 82 - 1987 - Porto campeão europeu.
> Estava a jantar em casa da Fernanda Quintanilha, com a Mª Luísa e a
> Cipriano, creio que também a Fernanda Mota Pinto. Um grupo esplêndido,
> ríamos o tempo todo. O marido da Fernanda contava histórias
> engraçadíssimas. Às vezes convertiamo-nos numa espécie de "Eixo do
> Mal" da política da época.
> Nessa noite, ao serão, houve uma incomum separação de H/M. As senhoras
> na sala à conversa. Os homens ao lado numa salinha mais pequena a ver
> o jogo... (eu só lá não estava porque o jogo me "stressava" demais.)
> Só quando me anunciaram o 2º golo do Porto, o de Juary, me juntei ao
> grupo do futebol. E, sendo a única portista, ninguém festejou mais do
> que eu...
>
> No fim do ano nova vitória, no Japão, num campo coberto de neve.
> Contra o Penarol do Uruguai. Na semana seguinte, inusitados festejos
> numa embaixada (era VP da AR, os convites sucediam-se e acetá-los e
> representar a AR era parte do meu trabalho - agradável, diga-se, bem
> mais agradável do que dirigir as sessões qundo o Prof Crespo se
> recolhia ao gabinete). Mal entrei veio na minha direcção o Embaixador
> do Uruguai, de braços abertos a dizer:
> "Manuela, estou feliz com a vitória do Porto!"
> Fiquei tão surpreendida, que não devo ter conseguido esconder o
> espanto. Para mim, pensava: Estarei confundida? Será ele do Chile, ou
> do Paraguai?
> Mas logo ele desfez a dúvida: "Yo soy sempre contra Penharol!"
> Era um velho Senhor, muito alto e magro, diplomata de nomeação
> política, antigo presidente do parlamento, creio, com ar
> definitivamente "upper class" - um aristocrata e, como se via, pouco
> dado a hipocrisias, em matéria de futebol. Era bem simpático - gostava
> muito dele, sempre bem disposto!
>
> 83- 1960  - Coimbra, Lar das Dominicanas
> Foi onde fiquei no meu ano de caloira, com a Mª Emília Castro Solla.
> Escolha dos pais dela. Depois da experiência do sardão, não seria a
> minha. Mas acompanhei a amiga, que tinha conhecido no casamento da Mª
> Angélica. em Avintes.
> O lar ficava junto às escadas monumentais.
> Com as dominicanas não tive problemas - as regras eram aceitáveis. Com
> a Mª Emília foi uma alegria - não quem tenha mais sentido de humor. No
> quarto ao lado, ouvia-se uma língua estranha que depois descobri que
> era português micaelense. simpáticas vizinhas, que pronunciavam o "u"
> à francesa!
> Problemas tive com as veteranas, que nos queriam praxar. Depois de um
> 1º exercício, que considerei humilhante (não levei para a
> brincadeira... e elas não acharam nenhuma graça à minha presunção de
> citar Lord Byron, a meia de uma obrigação que me impuseram) recusei
> participar e fui "ostracizada". Nada que me ralasse. Mantinha o meu
> círculo de amizades, não precisava do convívio do lar para nada - pelo
> contrário, a vida daquela comunidade só me atrapalharia.
> Quantos aos colegas homens, que não podiam escapar às praxe, sempre
> procurei protegê-los, evitar que as trupes lhes rapassem o cabelo,
> depois do por do sol...  Uma caloira contava como senhora - bastava
> dar-lhes o braço, para estarem protegidos. Graças aos meus rápidos
> reflexos, salvei várias vezes o Manel e outros colegas.
> Mas, o Manel, que se aventurava na noite sem a minha companhia, foi
> rapado duas vezes!
> Detestei!
>
>  Uma noite, de madrugada, houve uma suspeita de assalto ao lar. Foi
> chamada a polícia, correram tudo, uma barulheira infernal. O meu
> quarto dava para uma varanda, por onde circularam, se não os ladrões,
> pelo menos os polícias e todo o mundo. no dia seguinte eu era famosa,
> porque tinha sido a única a não acordar com todo aquele estrondo.
> Muito mais tarde, numa madrugada, em Bagdad,  a história repetiu-se.
> Perante uma ameaça real ou suposta de invasão do espaço aéreo, toda a
> artilharia do exército iraquiano rebentou, acordando a cidade, sem me
> acordar a mim!
>
>  Uma vantagem do Lar: a quantas serenatas assisti! Dedicadas o outras
> jovens, evidentemente, mas todas vínhamos, discretas, atrás das
> cortinas, à janela e gozávamos o espectáculo. Genuíno! No final as
> homenageadas agradeciam.
>
>  Mal habituada às altas notas do Liceu Rainha Santa estranhei as boas
> notas do 1º ano de Direito, que eram muito mais baixas... Comecei com
> média de 13, subi um valor de média, anualmente, e acabei com 17. Só
> dois sustos: negativa na escrita de Colonial e de Corporativo, com
> Rogério Soares, (prova do meu progressismo...). Em todo o caso subi na
> oral para 14.
>
> A divertida triangulação Mª Emília, Manel Q e eu. Foi um ano
> particularmente feliz. Pena que a Mª Emília tenha desistido de Direito
> e enveredado pelas línguas modernas no Porto.
>
>  Uma amiga em  comum com a Lecas - coisa rara, pois os nossos círculos
> eram diferentes, como os nossos gostos e interesses. no dia em que a
> Lecas morreu tinham combinado ir ao cinema. Que choque para a Mª E
> telefonar lá para casa a perguntar a razão do atraso e responderem que
> a Lecas tinha acabado de partir...
> A Mª E entrou em depressão. Eu, por sinal, também - para além de ter
> entrado em  crise de fé,,,
>
> 84- O meu  entusiasmo "portista" desde que me conheço! Sobretudo em
> matéria de futebol e de ciclismo. Que emoção ver Dias dos Santos,
> vencedor da volta, no eléctrico de Gondomar para o Porto, que ele
> frequentava.
> Íamos, às vezes, ver passar a volta, em Espinho, no Minho - onde
> estivéssemos a passar o verão. E um ano o Pai esteve com o Tio Manuel
> na organização, através do diário do norte, que era o patrocinador
>
>  No Sardão, fazia relatos imaginários de futebol . muito apreciados
> nos recreios, ao serão... O Porto ganhava sempre-
> Lembro-me de ouvir os relatos de futebol e de hóquei no quarto do Avó,
> no seu rádio de cabeceira. Ele não perdia um.
> Qd estava deitado a descansa, tinha o rádio sempre ligado. Como o Pai
> e eu própria. Sempre fomos gente da rádio,,,
>
>  Antes de contar histórias, como ficção, contavas como pretensa
> realidade. Até aos 7 anos era um terror nesse aspecto. Ninguém podia
> acreditar em mim. Qd fui para a Escola mudei radicalmente, deixei-me
> de inventivas, excepto se apresentadas como tal, A verdade acima de
> tudo.
>
> 85- Como dirigente no Diário do Norte, o Pai não só participou numa
> "Volta", como tinha sempre bilhetes para o desporto, o cinema, o
> circo. Recordo um fantástico campeonato do Mundo ou da Europa no
> Palácio de Cristal.
>
> Circo e Carnaval não eram o meu forte. No circo, tinha pena dos
> animais e enervava-me com o perigo que corriam os trapezistas. No
> Carnaval detestava máscaras, bombas, bisnagas e água, inquietante,,,
>
> 86 - Dragão de ouro, depois da guerra aberta com Mota Amaral, por
> causa da obstrução a participação nos vitórias europeias do
> FCP...Sevilha , Geselkirchen (ich war da, como diziam as t-shirts que
> não consegui comprar):
> Sevilha . olhos fechados no últimos quarto de hora...
> Geselkirchen, - não houve stress.
> Yokohama . fugi a ver os penalties, buscando refúgio nas casas de
> banho de senhora, onde não havia ecrá de tv... Contei ao Maniche,
> Perdeu-se a rir!
>
>  Troca de palavras de Lello com um grupo de adeptos do Once Caldas, à
> saída de estádio
> Eles, provocatoriamente, em coro: Tiendes plata! Tiendes plata!
> Lello: E vocês têm pó branco!
>
>  Fui, em tempos idos, nos anos 80, membro do Conselho Cultural do FCP,
> e sou agora membro do Conselho de Delegações e Filiais , e, nessa
> qualidade, estive em inúmeras festas portistas, por todo o  país  (com
> Fernando Gomes, Aurora Cunha,  Vermelhinho, Lima Pereira, Folha,
> Séninho e várias outras glórias do clube) e, por duas vezes, no
> estrangeiro - com Paulinho Santos  em Long Island, com Vitor Baía em
> Toronto.
> Tudo esplêndido na América - uma recepção em grande, festa muito bem
> organizada, hotel óptimo, uma hospitalidade bem à portuguesa. Paulinho
> Santos levou a filha, uma menina encantadora, muito bem educada,
> precoce, óptima companhia.
> Toronto organizou um festa concorridíssima - Baía é um fenómeno, até
> muitos benfiquistas  compraram mesas e quiseram pedir-lhe autógrafo!
> Mas achei verdadeiramente estranho que me tivessem excluído do convite
> para um jogo de hóquei sobre o gelo! Creio que o presidente da filial
> considerou que uma mulher gostaria mais de ir às compras do que a um
> estádio. no que se enganava. Será que se o representante do Conselho
> de Delegações do FCP fosse um homem a atitude seria a mesma?
> Obviamente não. E eu detesto discriminação sexista. Falei a um amigo
> que tem lugar cativo no estádio (o Virgílio Pires, por sinal um dos
> tais benfiquistas, que é admirador de Baía) e fui ver o jogo com ele.
> Ao contrário do futebol americano, que, para mim, é um desporto
> "cabalístico", que eu não entendo mesmo, o hóquei tem regras
> perfeitamente acessíveis para quem está habituado a futebol (soccer)
> ou a hóquei em patins. Gostei, apesar de não ter sido dos melhores
> espectáculos. Mas o ambiente , sim, era espectacular - e, na parte
> central, um conjunto de ecrãs mostrava cenas de choques e violência de
> outros "derbies" mais excitantes. Foi o que achei mais curioso...
>
>  Sou filha de portista e neta de portista. O que quer dizer que há
> portistas na ascendência directa desde a fundação do clube...
> O Pai falava de Pinga (Artur de Sousa Pinga, madeirense) e de Ciska
> (húngaro, se bem recordo) como eu falo aos mais novos de Hernâni ou
> Jaburú... Ou, na geração seguinte, de
> Fernando Gomes ou Pavão...
> Frequentei as Antas desde a inauguração do estádio, com o Pai (depois,
> com o Tio Serefim e o Tónio).
> Dorival Knipel (Yustrich) foi o grande herói da minha adolescência!
> Aos júniores, ia com o Tio David. Ele convenceu-me com um grande
> argumento: se queres ver o Porto ganhar sempre, vem ver esta equipa.
> E falava-me de um jogador que ia ser um "craque": Fernando Gomes.
> Só consegui constatar a qualidade do jovem à 3ª tentativa (1º estava
> castigado, depois lesionado...). Finalmente, qd cheguei ao campo de
> treinos, já o jogo tinha começado há alguns minutos e, no topo norte
> um artista da bola desenhava uma jogada magistral e marcava golo. "É o
> Gomes!" . pensei. Era!
>
>
> 87 -  Com o Avô Manuel nunca fui ao futebol (embora tenha partilhado o
> stress de muitos relatos). Com ele, ia ao cinema quase todas as
> semanas (ele era assíduo, frequência quase diária...), algumas vezes
> ao teatro.
> Coisa rara na minha geração, frequentava muito os cafés,  com Pais ou
> Avô. Os cafés do Porto eram ambientes masculinos, mas admitiam
> excepções, e nunca senti qualquer  fenómeno de estranheza e muito
> menos hostilidade...
> Cena cómica só uma, em frente ao Batalha e ao café Chave de Ouro, de
> onde vínhamos: o vento arrancou o chapéu da cabeça do Avô e um carro
> passou-lhe logo por cima.
>
>  Muito cinema, também, com os pais, no verão, em Espinho (quase todos
> os dias, qd não duas vezes ao dia). O cinema era a nossa maior
> distracção. Víamos tudo, até filmes medíocres,  qd já tínhamos
> esgotado os melhores.
>
>  Passeios ao fim de semana eram outro "must" - no mínimo à Foz, a Vila
> do Conde, Póvoa,  Santo Tirso, mas, em regra, mais a norte, até Braga,
> Bom Jesus, Viana, Ponte de Lima... grandes almoços...  Em grandes
> grupos, com os tios e os primos, um comboio de carros. Melhor volante:
> o Tio david com um daqueles famosos "Citroen" dos anos 40 e 50. era o
> meu transporte favorito, Andar com o meu Pai, devagar, causava-me
> dores de cabeça
> Termas no verão para visitar as Avós - Vizela, Caldelas, Aregos, Chaves...
>
> 88-  O gosto pela velocidade é uma constante. Nos Ministérios, os
> motoristas sabiam isso e esforçavam-se... Contam-se muitas histórias,
> inclusive, que eu própria tomava o volante qd os achava lentos. Poucas
> dessas histórias são verdadeiras, mas as que são, são!
> Sendo certo que nunca, em viagens oficiais, removi o motorista do seu
> posto, Só fiz isso uma vez, numa viatura particular, em campanha
> eleitoral, O jovem que me estava destinado, perdia a caravana de
> vista. Aí, sim, passei para o volante, para acompanharmos o ritmo...
>
> O 1º motorista era um pasmado, o tal que me perguntou: "Como é que
> vossa excelência deseja ser chamada - Senhor Secretário de Estado ou
> Senhora Doutora (escolhi o feminino, é claro).
> O 2º foi o Senhor Caravana, que era um ás! Passava sinais vermelhos e
> tudo! Tinha um pistola à mão, porque achava os tempos perigosos (eu
> nem tanto e não gosto de armas de fogo, mas não me atrevi a
> desapontá-lo. Ele era tão simpático!
> Tentei, mais tarde, levá-lo para meu motorista na AR, o que lhe teria
> permitido reformar-se com uma pensão a dobrar, mas a secretária-geral
> do Mº do Trabalho opôs-se, porque não quis prescindir dele. Estúpido
> gesto de um evidente egoísmo,
> Pela minha parte, podia até passar "raspanetes" aos homens, mas seria
> incapaz de os prejudicar dessa maneira... Ao contrário daquela
> suavíssima criatura.
>
> No regresso de Fermentelos, em Agosto de 1980, com o Sr Rodrigues ao
> volante do velho Citren, que pertencera ao Dr Sáragga no antigo
> regime, a alta velocidade por estradas estreitas, em direcção à
> autoestrada.
> Garcez Palha estava lívido e queria que eu lhe desse instruções para
> abrandar. Mas eu recusei-me. Seria entrar em contradição com o meu
> perfil psicológico . e nem o homem entenderia. Mas aceitava que o
> Garcez Palha lhe desse essa indicação, falando em seu nome. Ele assim
> fez, na 1ª paragem para tomar um café. E perguntou ao Sr Rodrigues se
> el não tinha a noção do que podia acontecer se rebentasse um pneu.
> Resposta: morremos todos, mas é assim que quer a Sec Est...
> Eu acho que eles também queriam - em particular aquele, que sabia o
> que era guiar bem.
> Mas nessa viagem, teve de reduzir a velocidade...
>
>  Alguns dos motoristas eram funcionários de secretaria, tentados pelo
> vencimento, que, com horas extraordinárias eram muito superiores. Um
> que era impecável, e até portista (!), acabou destruindo o Citroen no
> 1º dia em que estava de férias, mas decidiu levar o carro para a
> "noite" lisboeta, com um grupo de amigos. Impossível valer-lhe no
> processo disciplinar que lhe foi imediatamente levantado. Voltou, com
> o processo às costas, para a secretaria. Nunca mais o vi.
> Outro, também um ás do volante (que fazia Chaves-Lisboa em pouco mais
> de 4 horas, no tempo em que as autoestradas ainda não tinham chegado a
> Trás-os-Montes). Fazia curvas de montanha a velocidade estonteante,
> como se estivesse num rally. Em 2ª naturalmente. E também se achava um
> perfeito guarda-costas. Era um atleta e obviamente um tipo aguerrido,
> nunca foi preciso actuar  - o perigo estava na cabeça deles. Eu nunca
> me senti em risco...
> Esse acabou a missão num dia de concerto em honra de Isabel II no
> Teatro Dona Maria. Era também noite de jogo de Benfica (o seu clube).
> Preveni-o de que o concerto seria muito curto, convoquei-o para daí a
> 45 minutos.
> Esperei por ele mais de uma hora. Não tinha alternativa porque a
> carteira, com as chaves de casa, tinha ficado no carro (era pequena
> demais a que levava comigo..).
> Só não fiquei sozinha, especada no Rossio, com um longo vestido a
> esvoaçar ao vento, porque Sampayo e Melo, o chefe de gabinete não me
> abandonou. Ele e o seu motorista.
> É escusado dizer que já nem fui com o meu, no regresso a casa, Troquei
> logo ali de condutor, embora o do chefe de gabinete fosse um
> "atrapalhado" . Mas serviu para aquele percurso curto. O outro voltou
> para a secretaria no dia seguinte, O jogo de futebol saiu-lhe caro...
> Ou melhor, a irresponsabilidade.
> Imediatamente a seguir ao Sr Rodrigues, que se reformou,  optei por um
> retornado, que tinha sido motorista do último Governador de Angola. Na
> cidade, não notei grande inabilidade, embora não pertencesse à classe
> do antecessor. Mas, na primeira viagem de estrada, a caminho de
> Miranda do Douro, foi um desastre, um desastre mesmo! Chocou com um
> camião enorme, numa tentativa de ultrapassagem, que todas - a Fernanda
> Agria, a Graça Marcelino e eu -  vimos que não podia resultar. Vinha
> um carro em sentido contrário, a estrada não dava para 3, e o homem
> nem travou, nem acelerou.  A Fernanda, ao meu lado,  gritava, a Graça,
> na frente, tentava sair para trás. E eu olhava, prevendo o choque, mas
> não vendo vantagem em fazer ou dizer alguma coisa... O carro ficou
> bastante amolgado, do meu lado. Tive  de sair pela porta esquerda. O
> motorista estava sem fala. Fui eu que tranquilizei  o condutor do
> pesado, assumindo a responsabilidade do Citroen no acidente.
> Depois, o resto da viagem foi um pesadelo. Ele era um condutor apenas
> "urbano"  -  curvas e ultrapassagens não eram a sua especialidade.
> Mas chegamos, sem mais tragédias, a Miranda, onde o Júlio Meirinhos
> nos conduziu, sempre, no carro da Câmara. O velho retornada passou os
> 2 dias que lá estivemos, postado em frente ao Citroen, o olhar, por
> mais que lhe sugerissemos  uns  passeios pela cidade. ele não tinha
> disposição. Na volta, a pretexto de que queria comprar um daqueles
> modelos em 2ª mão, e gostava de o experimentar, guiou a Graça...
> Depois, houve que arranjar o carro e procurar outro condutor (o tal
> que acabaria por o destruir).
>  Assim começou a minha "lenda negra" em matéria de motoristas... Ainda
> houve mais alguns insucessos menores, até me fixar num excelente
> profissional, o Sr Ventura, que vinha de gabinetes do "antigamente" e
> tinha linha, competência, classe. O substituto, o Sr Guerra, era um
> jovem, que gostava de deslocações aos fins de semana, (sobretudo no
> verão, quando as as missões a Trás-os-Montes eram constantes),
> poupando o outro ao desgaste. Uma  dupla perfeita. Acabou o
> encadeamento de sucessores, mas a "lenda" ficou.
> Com eles apenas pequenos incidentes:
> O Sr Guerra preparava-se para atropela um cão qd eu gritei que
> travasse e le travou, evitando a tragédia. Justificou-se dizendo que
> tentava garantir a minha segurança. Respondi:"Para mim, cão é gente".
> Uns tempos depois, apareceu com um guarda lamas amolgado .
> desculpou-se. dizendo que fora contra um muro, para não atropela um
> cão.
> Aceitei, na dúvida...
> O Sr Ventura levou-me, uma noite a Alvalade, e combinamos um ponto de
> encontro, na da 2ª circular, logo a seguir à saída do estádio. Findo o
> jogo fui para esse lugar e...nada de Sr Ventura. Fui caminhando,
> caminhando... O piso estava enlameado, era uma berma de autoestrada,
> só passavam autocarros cheios e nem havia paragem por perto e eu ali
> sozinha!
> O engarrafamento era monumental, mas não resolvia o meu problema -
> estava só no meio da multidão de carros. De súbito, ouço uma voz que
> chamava o meu nome. Olhei, olhei, até que vi uma mão a acenar à janela
> de um carro e, atrás da mão, o rosto amigo do Miguel Anacoreta
> Correia. Por entre os carros, lá me dirigi ao salvador!
> O que tinha acontecido? O sr Ventura decidira improvisar  e ir
> esperar-me à saída de uma das muitas portas do estádio... Ouviu o que
> não queria!
>
> 89 - Ainda Fermentelos  - 1980
> Sá Carneiro presente e, curiosamente, por uma única vez, com o seu
> governo no feminino...
> Pelo PSD, eu,  (Emigração). Pelo CDS. a Teresa Costa Macedo,
> (Família). Pelo PPM, Margarida Borges de Carvalho, (Ambiente  -a
> .Margarida haveria de aderir mais tarde ao PSD).
> Um Agosto quente, também politicamente, nas vésperas de campanha
> eleitoral. Sá carneiro tinha programa intenso nesse domingo, até ao
> fim subsistiu a dúvida se poderia ou não ir. Foi de helicóptero.
>
>  O largo da Pateira de Fermentelos era ainda de terra batida. No largo
> acumulava-se uma multidão compacta. Deixamos um pequeno círculo em
> aberto, e postámo-nos, as 3 Sec de Est na primeira linha, como comité
> de recepção. Todas e todos ignorantes das coisas do ar. Não percebemos
> a razão porque a "nave" nos sobrevoava, incessantemente, sem pousar.
> De súbito, porém, pica em direcção ao solo, em direcção a nós num
> movimento assustador, O povo atira-se por terra, o mais longe
> possível. Parecia a guerra! Eu fui arrastada por um director geral
> para o sopé de uma pequena elevação, onde supostamente estaríamos em
> segurança. Vimos o héli aterrar, levantámo-nos do chão a sacudir a
> poeira parda que nos cobria totalmente e corremos para a fila de
> cumprimentos, no preciso momento em que o Pm, de sorriso aberto, saía
> para o solo.
> Que cena deve ter gozado! De comédia "non sense", em reality show.
> Compreendemos, enfim, que um héli precisa de espaço para a manobra de
> pouso, com o mínimo de segurança... e que só no simulacro de aterragem
> sobre as nossas cabeças, conseguiu afastar-nos...
> Foi ainda cheias da poeira remanescente em nós, que nos sentamos na
> mesa de honra, ao lado de Sexa...
>
> A odisseia não terminou aí... A segurança era inexistente. A multidão
> cercava Sá Carneiro e muitos efusivamente batiam-lhe nas costas. Fiz
> eu de guarda costas! Coloquei-me estrategicamente atrás e não permiti,
> pelo menos, as pancadas amigáveis (sabia, como toda a gente,  que ele
> tinha grandes problemas de coluna). Depois, lá dentro houve um heckler
> (coisa sem importância, emigrante recalcado, ao serviço de um qlq
> partido, talvez). Brilhantíssimo discurso de Sá Carneiro sobre a Nação
> de Comunidades, mais cultura do que organização rígida...  Uma
> desinspirada intervenção minha sobre as reformas em curso na SEECP...
> Apareceu Fernando Nogueira, que apresentei ao 1º Mº como
> "Sácarneirista, mas todos sabíamos que não era, pelo menos então. O 1º
> Mº conhecia bem os seus artigos de imprensa. Falaram disso,  foram
> ambos muito cordiais.
> A saída foi tão espectacular como a chegada. mas sem sobressalto para
> ninguém. O héli sobrevoou a pateira de porta aberta, com o dr Sá
> Carneiro a acenar à multidão durante largos minutos. Imagens
> fantásticas, que foram, depois, muito vistas na campanha eleitoral -
> um héli no ar com a porta aberta e um político destemido a sorrir,  lá
> de dentro, era coisa memorável e inédita.
>
> 90 - 2011 Comemorações do 5 de Outubro em Fânzeres no Centro Republicano
> Como é que uma monárquica (embora "res publicana", democrata,
> feminista e admiradora das feministas republicanas do início de
> novecentos) é convidada como oradora de um dos sobreviventes Centros?
> Só a mim me acontece... Que seja em memória dos tios republicanos,
> irmãos da Avó Maria...
> Comentário de um ourives que me falou muito do pai:
> "O seu Pai era um homem exageradamente honesto"
> Lá isso, era! Boa observação.
>90 - 2011 Comemorações do 5 de Outubro em Fânzeres no Centro Republicano
Como é que uma monárquica (embora "res publicana", democrata,
feminista e admiradora das feministas republicanas do início de
novecentos) é convidada como oradora de um dos sobreviventes Centros?
Só a mim me acontece... Que seja em memória dos tios republicanos,
irmãos da Avó Maria...
Comentário de um ourives que me falou muito do pai:
"O seu Pai era um homem exageradamente honesto"
Lá isso, era! Boa observação.

91 -  Quantas horas passei em programas de TV e rádio...
Primeiramente sobre políticas de emigração, mas mais tarde, também
sobre futebol:
 - durante mais de um ano, semanalmente, na Rádio Comercial, no
programa "os cinco violinos" (um violino por dia, de 2ª a 6º - eu acho
que era o de 3º feira). Gravava pelo telefone, de onde estivesse,
Austrália, Paris, Vancouver... Nunca falhei.
 - durante uns meses, num programa de Paulo Catarro , como comentadora
residente (já não me lembro como chamavam o programa: Fora de jogo?
qlq coisa do género). Foi onde uma vez defendi tanto o Jardel (embora
já no SCP), que o Lello no intervalo me dizia: " Estou farto de a
ouvir a defender o Jardel. Parece a Santinha da Ladeira".
 - em dois magníficos programas de Mª Elisa. Um, que teve enorme
audiência e aplauso só com mulheres de diferentes clubes, com a Mª
José Nogueira Pinto pelo SCP e a Rosalina  Machado pelo SLB. Outro,
paritário, com a Leonor, fanática SLB, o Fernando Dacosta, o Miguel
Portas e outros. Eu, com uma tosse horrível, de origem alérgica, e o
Dacosta a dizer-me: Tussa à vontade, não se preocupe - até tem
graça!". Fiquei-lhe gratíssima. Descontraí-me e nem cheguei a tossir
para dar um ar de graça...
 - um "Expresso da Meia Noite", dedicado a um campeonato que o FCP
tinha vencido - uma festa, que simpáticos!
 - variados convites da RTP, em dias de jogo, nacional ou
internacional, do FCP, ou em Campeonatos do mundo ou da Europa
 - um longo programa, a partir de Aveiro, sobre o Euro 2004,
juntamente com Victor Hugo.
 - um programa da tarde da SIC só com mulheres - uma jogadora, uma
mulher de um jogador, uma árbitra, uma seleccionadora nacional e eu,
simples espectadora. A jogadora e eu éramos as únicas que aprovávamos
palavrões durante o espectáculo. Se se admite no teatro (pelo menos
desde Gil Vicente, porque não no estádio?). Eu não uso essa linguagem,
questão de hábito ou recalcamento de educação de menina de colégio e
neta da Avó Maria, mas sou liberal...
 - em Manaus, num programa chamado "rebola a bola", em parceria com o
Cônsul de Portugal, Sr Pedras, também grande adepto de desporto (fomos
arrematados pelo apresentador, que gostou de nos ver num anterir
espaço destinado à comunidade portuguesa,,,).
Tempo houve em que fui comentadora residente na Praça da Alegria sobre
exemplos de resistência à desgraça.
E fui quase comentadora residente do "Portugal no Coração" com Malato
e Merche. Sempre voluntária para estar com eles! Como me diverti!
 - em Maracaibo, aguentei meia hora na "Radio Fé", a fazer de conta
que falava castelhano!

Engraçado como muda a imagem de um  (a) político (a) falar de outras
coisas! Alarga horizontes. Torna-se muito mais simpático a muito  mais
gente. Confesso que isso me surpreendeu bastante. Não imaginava que
falar de política cria tantos anti-corpos enquanto  de outros "faits
divers" concita simpatias.
O 1º vislumbre foi logo depois do programa de Mª Elisa. Um homem
desconhecido atravessou uma rua de espinho para me vir cumprimentar:
"Sabe? Já a tinha visto muitas vezes na TV e não gostava nada de si.
Mas vi-a ontem com a Mª Elisa e gostei imenso!
Há vários outros que qd me conhecem,  acham por bem informar: É muito
mais simpática em pessoa do que vista na TV.
Fico admirada. Qd me vejo nessas imagens, julgo-me muito igual a mim
própria. Mas, sem dúvida, os outros devem ter razão. Continuo sem
saber o que faz a diferença, dentro e for do ecrã...

92- Tempestades na vida

 - em Hong-Kong ameaça de tufão. recolho ao hotel, onde passo a tarde.
Afinal, apenas um ventinho suportável e chuva forte, coisas que ne
minha terra não se chamam tufão...
 - mais a sério uma chuvada tropical no Zaire. A estrada para o
aeroporto tinha meio metro de água de altura, como se atravessássemos
um infindável ribeiro. uma sorte o carro da embaixada não ter
submergido... Comentava o Emb  - aliás bastante assustado com a ideia
de ficarmos parados à mercê de assaltantes... -  que nunca tinha visto
o chauffer a conduzir tão  bem.
Inesquecível, sempre, a chegada a Kinshasa. Abria-se a porta do avião,
era meia noite, e nós recebíamos uma lufada de ar quente e húmido que
mais parecia bebível do que respirável...
O calor era o meu inimigo nº 1 - sufoco e incha o meu pé esqº, depois
de uma entorse mal curada na juventude.  Brasil, Venezuela, EUA,
Canadá... Uma vez em Montreal, também fui aconselhada a recolher ao ar
condicionado do hotel e aí segui o conselho. Uma nuvem de poluição
pairava sobre a cidade. de resto, tudo bem, neve a rodos era óptimo. a
1º em Providence, proibida até a circulação. A Cônsul , Anabela e eu
incumprimos a ordem.


93 - Ante da política, apenas poesia publicada. Um soneto na revista
"Modas e Bordados", tinha eu 12 ou 13 anos e fui surpreendida pela
iniciativa da Tia Glória (lola). Fiquei muito embaraçada...
A segunda foi uma participação na Tábua I, com o pseudónimo Maria
Manuela Barbosa (nome de família da Avó Maria e da Mãe). A revista era
financiada por um grupo de amigos, o Rui Barbot, o Manel Queiroz  e
vários artistas plásticos do Porto (todos éramos do Porto). Hoje esse
número I é histórico, porque aí o Rui se estreou como Mário Cláudio.
O Manel fez crítica de cinema  ("Antonioni, ou a tentação do absurdo",
com abundantes citações, Cesare Pavese, Albert Camus, W Faulkner...) e
eu contribuí com um pequeno poema feminista. (o primeiro e o último).

Mulher do Rosto de Vento

Vai
pela Terra Mãe adormecida,
que em ti hiberna,
as mãos vazias
das  rendas de outrora,
Vai dar sentido ao dia!

Vai
para que a terra Mãe
seja em ti
no cair do momento
Vai
rosto de vento
em busca de alma!

Vai
da noite moribunda
do teu ser negado
Vai
que agonizas
no corpo mutilado
os sonho perdidos da manhã.

Muito estranho! O  meu "forte" eram as rimas, os sonetos medíocres.
Aqui tentei, mediocremente, outra coisa e não voltei a tentar, apesar
dos elogios recebidos, por exemplo, de Carlos Porto... (nosso amigo,
crítico literário e proprietário de uma livraria que frequentávamos
muito, a Divulgação).

94 REP? -  O convite mais inesperado de todos: o de Artur Jorge, para
integrar a sua lista para a Federação Portuguesa de Futebol, como
candidata à presidência da Assembleia Geral. Uma mulher metida nestas
andanças - foi um estrondo.
Não podia recusar. Era a lista da ética e da competência! Mas ainda
tentei recuar, amadora no meio de tantos nomes ilustres. Mas AJ
invocava os apoios ao meu nome, incluindo de António Carraça.
AJ receava que a lista fosse muito conotada à esqª. Isso não me
preocupava nada - em matéria de futebol, o bom e o mau não passa por
esqª e direita


95 - Mesmo no campo politico essa dicotomia não me preocupava. Viver e
deixar viver. Ter um quadrante, respeitar os dos outros, colaborar em
tudo o que for necessário ou possível. Dentro deste espírito se
entenderá a promoção que eu sempre fiz ao meu serviço de origem o SPJ,
que era insuficientemente conhecido na emigração. Defesa dos direitos
dos cidadãos contra a Administração Pública, independentemente do
facto de o meu governo ser o responsável pela Administração... acima
de tudo a lei e a justiça.
Ora um desses emigrantes apresentou mesmo uma reclamação ao PJ e
referia-se a mim, como uma "missionária" que tinha passado pela
comunidade e lhe tinha dado esse contacto. A Mª da Luz e a Ana Mª,
secretárias do Dr Godinho, mostraram-me a carta, durante uma das
visitas que fazia ao meu bem amado SPJ. Rimos todas perdidamente.
Mas, em boa verdade, o emigrante estava certo: eu acho que parecia
mais uma missionária africana do que um membro feminino de um governo
europeu...



96 - Outro ex dessa ausência de preconceito ideológico; Thatcher.
sendo embora absolutamente contra as suas posições no plano da
política interna, admirava a sua capacidade de intervenção
internacional, na triangulação com os EUA e a URSS, na África. A meu
ver, ela por si mesma, restituiu ao reino Unido, um lugar de 1º plano
que há muito estava perdido.
Um dia, em conversa com Lord Russel- Johnston, o meu amigo Russel,
então presidente do Grupo Liberal da APCE, no qual tão bem me sentia
(antes de mais por causa de Russel himself). Dei-lhe conta desta minha
opinião. Ele ficou horrorizado, embora sem argumentos para me
contradizer. Limitou-se a clamar: "Por favor, não diga mais nada, não
me converta agora à Thatcher!". Compreensivelmente,  detestava-a. Eu
se fosse britânica, partilharia o sentimento...
Na APCE, a ninguém admirava mais do que a R-J. Era o mais brilhante, o
mais divertido, o mais simpático de todos. Um grande humanista, Um
grande democrata. Chegou à presidência da Assembleia, apesar do seu
humor caustico e da sua descontracção, que eu tanto apreciava, mas
outros colegas nem tanto. Era um nº1, sem dúvida - primus inter pares.

Curiosamente, foi com alguns dos ingleses que tive uma maior
colaboração. Logo nos primeiros tempos foi Lord Finsberg, um
conservador, ex-presidente da APCE, outro "monstro sagrado", que me
propôs para uma vice-presidência  da Comissão  do Regimento, o 1º
cargo para que fui eleita.
E não porque fosse mulher, como esclareceu (feminista não me parecia
ser muito, mas aceitava a regra da igualdade, que é coisa fundamental
para o acesso das mulheres a qlq cargo). Mais tarde, também o líder
trabalhista da delegação foi um bom amigo.
Outros bons aliados: os espanhóis!
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97 - 1987 - Porto campeão europeu.
Estava a jantar em casa da Fernanda Quintanilha, com a Mª Luísa e a
Cipriano, creio que também a Fernanda Mota Pinto. Um grupo esplêndido,
ríamos o tempo todo. O marido da Fernanda contava histórias
engraçadíssimas. Às vezes convertíamo-nos numa espécie de "Eixo do
Mal" da política da época.
Nessa noite, ao serão, houve uma incomum separação de H/M. As senhoras
na sala à conversa. Os homens ao lado numa salinha mais pequena a ver
o jogo... (eu só lá não estava porque o jogo me "stressava" demais.)
Só quando me anunciaram o 2º golo do Porto, o de Juary, me juntei ao
grupo do futebol. E, sendo a única portista, ninguém festejou mais do
que eu...
No fim do ano nova vitória, no Japão, num campo coberto de neve.
Contra o Penarol do Uruguai. Na semana seguinte, inusitados festejos
numa embaixada (era VP da AR, os convites sucediam-se e aceita-los e
representar a AR era parte do meu trabalho - agradável, diga-se, bem
mais agradável do que dirigir as sessões quando o Prof Crespo se
recolhia no gabinete).
Mal entrei veio na minha direcção o Embaixador do Uruguai, de braços
abertos a dizer:
"Manuela, estou feliz com a vitória do Porto!"
Fiquei tão surpreendida, que não devo ter conseguido esconder o
espanto. Para mim, pensava: Estarei confundida? Será ele do Chile, ou
do Paraguai?
Mas logo ele desfez a dúvida: "Yo soy sempre contra Penharol!"
Era um velho Senhor, muito alto e magro, diplomata de nomeação
política, antigo presidente do parlamento, creio, com ar
definitivamente "upper class" - um aristocrata e, como se via, pouco
dado a hipocrisias, em matéria de futebol. Era bem simpático - gostava
muito dele, sempre bem disposto!

98 - 1979 - O caso dos jogadores do SCP que emigraram para Boston
(para os T-Men).
Considerei contrária à Constituição, ao princípio de liberdade de
circulação a PRT que proibia a saída de jogadores com menos de X anos
e menos de 3 anos de permanência no clube (esta regra , mais do que a
da idade era injustificável...).
Qt pressão vermelha! (do FCP, nenhuma, mas suponho que estaria do mesmo lado).
 Eu era uma novata, SET, o despacho era exclusivamente meu. Usei o
poder que tinha, sem ceder ao SE Desportos, aos clubes, aos organismos
desportivos. Fiz o que entendi ser certo, à luz  da Constituição e das
leis da República.
Curiosamente, mais tarde, sem ter nada a ver directamente com as
decisões do futebol (graças a Deus!), sempre foi o SCP o clube que
mais colaboração pediu, e, naturalmente, obteve (para deslocação de
desportistas, para torneios nas comunidades. Os outros tê-la-iam, por
igual, se a requeressem...
Apoiei, juntamente com o SE Cooperação, Luís Gaspar da Silva, os dois
primeiros Congressos do FCP -  com pequena verba simbólica -  pois
tinham uma forte componente de emigração e de lusofonia. E fui,
algumas vezes convidada do SCP e do FCP (do SLB nunca não sei porquê -
terei ficado "persona non grata" desde o episódio de79?).
Foi em Alvalade que um jornalista me perguntou: "Então é deputada do
PSD e sócia do FCP?"
Resposta: "Sim, sou, mas inverta a ordem: do FCP sou para sempre e
deputada do PSD posso deixar de ser amanhã."

Nas Antas, no final de um campeonato, mais um, ganho pelo PCP, estava
no Camarote, junto a Pinto da Costa  e ao General Ramalho Eanes,
quando a polícia começou uma alucinante perseguição a uns miúdos que
tinham entrado no relvado e festejavam, como todos nós, pacificamente.
Depois, até prestei o meu depoimento por escrito, num inquérito,  mas
não sei como acabou esse processo.

99 - 1987 A última viagem ao Algarve, na qualidade de SECP.
Lembro-me de que andei a ver propriedades de ex-emigrantes, que se
distinguiam pela modernização da agricultura, à base de estufas.  Um
Padre, muito interessado nas coisas da emigração e muito atento às
condições do regresso, foi o meu guia, nessa jornada, que terminou num
grande jantar com folclore e cantigas ao desafio. Não sei como,
algumas foram registadas e resistem até hoje:

 A doutora Manuela
Amiga das Liberdades
Quando se for embora
Que será das Comunidades?

(profético, porque sairia da SE no mês seguinte, mas as comunidades
não sentiram a falta - na verdade não precisam dos governos, Ai, se
precisassem...)

A doutora Manuela
Que de apelido é Aguiar
Os meus votos vão para ela
Por também ser popular

A Doutora Manuela
Veio ao Algarve a  guiar
Tenho boa impressão dela
Boa ideia de nós há-de levar

Ora aqui está, quem acertou em cheio: guardo a melhor das recordações
desse dia e dessa noite de festa! Um belo ambiente sulista, a mostrar
que o Algarve pode ser tão alegre e hospitaleiro como o Minho, lá no
outro extremo...


100 - Divórcio, com a aprovação do mais católico dos Tios, e não só
com a dele...
A reacção do jornalista de Bagdad - o abismo cultural e a humana simpatia

101 - Marrocos
La demoiselle sans visa
As vaquinhas pretas e brancas...

102 - Sardão
As medalhas e o mau uso das distinções, dependuradas nas mangas  ou à
volta da gola alta da camisola... Apreendidas...
Cometer uma boa acção...
Madre Correia - Definição de JC Passou, fazendo o bem
Bom castigo: a reclusão nas salinhas de piano, a escrever poemas
Redacções para as colegas - a última já pouco inspirada...

103 - O amigo que acreditava mais na notícia do que no Pai..,
(mensagem na inauguração da estátua de SC em SP). Portador da mensagem CS
Tornar a notícia verdadeira... se diziam que eu ia ao evento, porque não ir?

104 - Iconografia nas paredes dos salões... BH: Caetano, Soares,
Eanes, lado a lado
M Caetano em Espinho  -  na rua 19,  o entusiasmo materno - à beira-mar, a Lé.
Toronto, notícia do falecimento.

105 - Convite para  duas semanas de palestras e convívio em 2
"colleges" americanos - Oregon e Illinois (tão perto de Northwestern,
onde podia ter mudado de vida,,,)

106 - O acaso de que se faz ou não se faz a vida: férias na Córsega e
perda de um lugar na lista de deputados do Porto...(1979)
Para SC, a Sardenha...

107 - Tio David e os jogos de juniores – o craque que se confirmou (Fº Gomes)
A medalha de ouro ( a transmitir ao portista mais fanático das
gerações seguintes, segundo decisão da Tia Lena)
As corridas de Citroen...
Bobby, Fusca e os gatos

Paixão pelos carros  - sabia todas as marcas aos 5 anos...(a dizer os
nomes das marcas, à janela da R Firmeza, para delícia dos Tios)
Carrinhos de feira
Ao volante do Jeep do Tio Eduardo
Férias de aventura... Milfontes, Zambujeira da Mar, São Torpes, Sines .
Dos acampamentos, ao episódio de nadar contra corrente junto às
fragas... (o susto...) e à boleia.

108 -  Volta a Coimbra e convívio familiar com o Zé Q e a J.
Vimos o PREC pela TV, sentados no sofá -  pontos de vista políticos à
partida diversos, mas que não se chocavam.

109 - Na noite da morte de Sá Carneiro
Notícia no restaurante, onde jantava com o SE da Comunicação Social.
Sousa Brito (Grande Gatsby), antes de um comício onde seríamos
oradores, no Lumiar.
Ângelo Correia vem ter connosco. Acompanhei o SECS à tv, onde nos
encontramos com F do Amaral. Daí para São bento. Até de madrugada. Uma
noite pavorosa.
Velório nos Jerónimos,  (SNU, mais tarde. no cem inglês). O funeral
(no carro de R Machete). Um pesadelo, com a multidão gritando, como se
estivesse num comício. Olhava  sem acreditar.

Entrevista do Tio David, à saída do Coliseu.
Portugal não seria o que podia ter sido...

Chegada a casa - a yorkie muito mal. As refeições de soja, receita do
vet. (she shares it with the dog)
Viagem para o Porto, com ela, no comboio. Detectada por um jornalista,
que deu a notícia. Cadelinha colunável... Anos mais tarde, fotos dos
meus gatos no programa de tv "A Praça da Alegria"

110 - Levar o Manel às Antas (passou o jogo a ler um pocket book- Não
tornou a ir...

111 - Os cadernos amarelos (excelente execução. M C Cunha Rego, Marg
Marques e Bento Coelho) e a reclamação do jornalista da Venezuela. que
queria justamente aquilo...
Stock das revistas dormia nas prateleiras do Consulado- não tinha sido
distribuído. eu mesma abri os pacotes, com a Rita Gomes, a acolitar...

112-  Encontro breve com Champalimaud em Maringá
(vejo que gosta do Brasil, como eu)
É verdade. Pisei solo do Brasil, no Galeão, e fiquei brasileira!!!

113-1980 – Boston Um magnífico hotel mesmo no centro (down town). Ao
pequeno almoço, Luís , Milú e eu. Ainda não havia telefones móveis nem
portáteis… Uma chamada para mim. Levanta-se ele, galantemente e
ficamos nós a v~-o e ouvi-lo, a poucos metros, no fundo da sala. “Yes,
yes, repetia. Estávamos cada vez mais cheias de curiosidade. Quando
ele regressa perguntamos o que queriam. Resposta: não sei.”Não percebi
nada. Era em inglês”.E ficámos sem saber… Tanto a Milú como eu
falávamos inglês, mas não tivemos a oportunidade…

114– 1985 – Cabo Verde

O programa do dia era pouco explícito, Sabíamos que envolvia a ida a
uma romaria. Coisa popular, pensamos. Como na véspera tínhamos ido  de
tacão e fato citadino visitar bananais, achámos por bem vestir de
ganga e sandálias – eu de vestido de ganga preta e a Mª Luísa de ganga
verde, cor de farda militar.
Levaram-nos para uma missa campal e, depois, um grande banquete em
casa do Mordomo da Festa.
Felizmente, como o dia estava tórrido, convidaram-nos para o interior
bem fresco da igreja, por trás do Padre, que dizia a missa virado para
um largo apinhado de gente. Todos muito chiques, nos seus fatos de ver
a Deus. O Mordomo, emigrante na Holanda, de fato de cerimónia, sob a
opa, a mulher e as filhas pequenas, com vestidos lindos, parisienses!
As mulheres da aldeia com lenço de seda sumptuosos na cabeça.
Destoávamos pavorosamente, encolhidas na sombra.
Porém, no fim da missa, eis que o pároco nos decide apresentar ao Povo.
Temos entre nós a Secretária de Estado da Imigração de Portugal, país
onde vivem tantos dos nossos irmãos. Para ela pedimos a vossa
saudação.
Grande aplauso para a senhora de ganga preta, que acena timidamente.

Está também entre nós a Presidente do Instituto de Imigração de
Portugal, que também trabalha pelos imigrantes…
Avança a Luísa, sorridente, de ganga verde.
E eu pensava – eles devem estar pasmados. Parecemos uma delegação do
Camboja ou de Cuba e não duas cristãs de Portugal.
Felizmente, Aguinaldo, o Sec Estado de Neg Estrangeiros de C Verde
também estava muito “sport”..
No banquete pedi desculpa aos donos da casa pela nossa indumentária,
explicando que não sabia exactamente ao que vinha, que era surpresa.
Melhor ainda, responderam-me simpaticamente por mesmo assim terem
aceite o nosso convite

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