domingo, 27 de maio de 2012

Pré - Memórias

Só tópicos

1 -1965  Coimbra: baile de gala de capa e batina, com as fitas, como exigiam os praxistas (a única mulher  - porque todas as outas optaram pelos vestidos cerimoniais e estavam lindas, mas sem as fitas a que sempre tinham tido direito, antes do "diktat" dos praxistas...)

2 1989? " Dragona", segundo Pinto da Costa. Numa gala anual do FCP. No dia seguinte era o que os colegas me chamavam nos corredores da AR. Estranhei, mas logo percebi que os jornais tinham dado a notícia

3 - 2010 - Prefácio dos "apitos finais, dourados e outros mais" do Dr. Sardoeira Pinto. Uma honra e um parzer, evidentemente. Li o livro por email (o meu 1º e-book) e tive de escrever o texto de um dia para o outro, com percalços à mistura, porque o computador ficou subitamente sem rede (avaria!)... Apresentação com uma ilustre audiência no salão dos Fenianos.

4 - 2008 Aderi à Net em Agosto  - e aprendi a escrever, digitalizando fotos de família, (milhares) e etiquetando-as. Assim nasceu o blogue "Círculo Aguiar".
Para contar a história da Avó Maria, na data do seu 120º aniversário. E, depois, de outros Aguiares e não só...

5 -2000?  USA: reencontro com o americano que tinha preparado a visita de Mota Pinto, a convite de Secretary of Defense, Shultz, em 84, salvo erro.
Contou-me que Mota Pinto lhe tinha dito no voo para S Francisco:
 "Vai conhecer uma jovem política com grande futuro".
Bom, teria sido mais futuro com ele. Sem ele, na república de Cavaco foi o que se viu....
De qlq modo, que surpresa esse inesperado relato do americano...

6 -1986 -  Demissionária no governo Cavaco por corte do Orçamento.
Braço de ferro com o "Petroleiro", Pires de Miranda, que teve de restituir 300.000 contos à paupérrima SECP - quase um terço do total. Mesmo assim foi  um retrocesso... Recusei candidatura pela emig e saí do governo, de vez, qd o governo foi derrubado pela moção de censura do PRD em 1987.
Já antes, em 1981, tinha protestado contra o orçamento da SECCP, dizendo que era vergonhoso (manchete, naturalmente). Braz Teixeira, na Cultura, dizia que o seu orçamento era ridículo.
Fomos ambos corridos por Balsemão na remodelação seguinte, no verão...

7 -1987 -  Fui candidata pelo Porto, a convite da Distrital, e, depois, feita Vice Presidente da AR (par le fait du prince, embora teoricamente eleita (a eleição tem de ser ganha por voto secreto, é certo, depois da indicação do nome pelo partido - e há os que têm dificuldade em conseguir, ou não conseguem mesmo, os votos necessários... mas não foi  o caso da 1ª mulher proposta para o cargo,.seria machismo a mais... Suponho que foi uma escolha do Prof Cavaco, lui-même.

8 - 1ª estada na AR qd saí do governo Balsemão em Agosto de 1981. Primeiros debates no hemiciclo com o PCP Custódio Gingão. A partir do momento em que lhe agradeci o tirocínio que me estava a proporcionar, esmoreceu.
Acabamos num relacionamento cordial. Não com o PCP, mas com muitos membros do partido, ele incluído. Tinha sido emigrante, conhecia os problemas e era bem simpático!

9 - Momentos felizes a ouvir os cantores de Coimbra - o grupo de An tónioBernardino o "Berna" - por esse mundo fora.
Cabo Verde, Brasil, Uruguai, Argentina, EUA, França... Iam a nosso convite, como voluntários da cultura, sem cobrar "cachet". Como o orçamento era de miséria, nós agradecíamos. E eram fabulosos! Que voz, a de Berna - inegualável!

10 - qd, uma vez, o António Portugal foi ao meu gabinete perguntar porque convidava sempre os mesmos, expliquei que eles iam por amor à arte e ao convívio com as comunidades, sem cachet.
Não tiveram nunca concorrência.

11 - Outros que, anteriormente, em 1980, foram ao Brasil, RAS, etc, também sem cachet, a pedido deles, eram os amigos do Dr Vieira Araújo, essa personalidade encantadora, um Coimbrão genial, humorista,  poeta, músico, médico,  um conversador brilhante (colega o meu pai desde os bancos do colégio dos Carvalhos). São dele alguns dos melhores dos fados eternos de Coimbra - letra e música...

12 - O princípio do fim da política, para mim, começou em Paris 2004, estava eu numa reunião semestral da UEO, com toda a Delegação portuguesa. Apanhados de surpresa, recebíamos novas por telemóvel.
Muito nos divertimos!
Decidi que terminava ali mesmo, dando lugar aos mais novos...
Não que me sentisse velha ou que os achasse mais jovens de espírito. E havia a questão dos funcionários de Macau em impasse.

13 - Que jantar! Num restaurante parisience muito exclusivo, com toda a delegação a analisar a situação política, numa mesma mesa redonda, na qual se sentou também um inglês que estava eufórico e bebia imenso - ou vice-versa. Fazia comentários salazaristas a despropósito. Era o único salazarista. Não entendia nada, mas achava -nos animados...
E Anacoreta Correia a dar imensas entrevistas pelo telemóvel - os outros CDS's, no país, estavam todos em black out!

14 - Recusei que o Padre (Zacarias de Oliveira, amigo do noivo) dissesse a epístola de S Paulo no meu casamento. Ele resistiu, houve discussão forte. Por fim acedeu, ou o casamento seria celebrado sem missa...
Pelo mesmo motivo, já tinha primeiro convidado e depois desconvidado o Padre Sebastião, prof de direito romano em Coimbra...
(escreveu-me um telegrama de 2 páginas, terminado por um dubitativo "Oxalá sejam felizes".)
Tudo isto porque o Padre Leão, que me compreendia, estava nessa data em férias no estrangeiro.
Quando lhe contei pormenores destas peripécias, riu-se imenso! E comentou que a 14 de Agosto, véspera da assumpção de Nossa Senhora, se devia mesmo ler a epístola do dia. Bem escolhido, o 14 de Agosto. Estava escrito nas estrelas...

15 - Escritura antenupcial - separação absoluta de bens e a condição de passar ao regime do novo código mais favorável à igualdade.
O notário só cedeu qd apresentei pareceres dos meus Prof. de Coimbra...(que se divertiram a dá-los, pois conheciam o meu "radicalismo" feminista - do ponto de vista deles, claro).
O notário julgou que eu era milionária, a defender o património vasto - quie saber se eu era dos Aguiares (ricos) de Matosinhos.
Bens dos nubentes, perguntou: E nós, em coro: nenhuns!
A cara de espanto do Sanhor!...

16 - Escrevi os dizeres da  autorização marital para sair do País (para tirar o passaporte), assinei-a, em nome dele e, depois,  mandei- o reconhecer a assinatura ao notário... O Manel achava a coisa um pouco axagerada, mas lá foi...
Esta era a minha maneira de lutar contra uma verdadeira aberração - humilhante para qualquer mulher.

17 - Ganhei também a guerra de registar o carro comprado por mim, com o meu dinheiro, sem autorização do marido.
O Notário onde fazia o estágio (que simpatia!), escreveu sobre o assunto um cartão ao conservador do registo ( um colega a quem chamavam o João das Espanholas), dizendo:
"Ela tem razão" .
O dono do stand ficou admirado, quando consegui o registo . Era a 1ª mulher casada a comprar carro sem intervenção marital, tanto quanto ele sabia. Mas até a lei era bem clara a permiti-lo. A prática é que era ilegal... O carro era comprado com dinheiro ganho em trabalho profissional...

18 - Grande momento quando me coube, como VP da Comissão da Igualdade, em substituição da presidente, uma luxemburguesa, impugnar, em plenário, as credenciais da Irlanda, porque não cumpria o Regimento que interditava delegações unisexo. Ora a Irlanda, República presidida por Mary Robinson,, não tinha na Delegação uma só Mulher.
Portugal cumpria uma quota de 1/3, graças aos esforços que eu própria desenvolvi dntro do meu grupo paralamentar - Mª Elisa, Eduarda Azevedo e eu, só à conta do PSD. Acho que o PCP indicou a Luisa Mesquita. Do PS only men...

19 - Entrevistei o velho Capitão Sarmento Pimentel em São Paulo. Entrei com o Prof Soares Amora e uma equipa da TV Cultura, que começou logo a fimar. Depois como a conversa corria animadamente, ninguém quis interromper o curso do diálogo cordial.  O episódio vem contado num jornal, mas situando a entrevista num espaço público. Não foi - foi mesmo em casa do Capitão (então suponho que já promovido ao mais alto posto . Mas ele gostava de ser capitão!
Um encanto essa mítica figura, que falava de Mário Soares e de Mota Pinto, como se eles fossem muito novos... É tudo relativo

20 - Amizades, para mim, foram sempre indiferentes a cores políticas. Só nas delegações internacionais, Miguel Urbano Rodrigues(PCP), Anacoreta Correia (CDS),Luisa  Mesquita (PCP), Pedro Roseta (PSD), Raul Brito e Carlos Luíz (PS) - e,  embora num relacionamento mais formal, Vera Jardim, Medeiros Ferreira, Alberto Martins...

21 - A primeira mulher a chefiar delegações parlamentares, começando pelo Japão (com os partidos todos a indicarem líderes parlamentares - ou VP's, Narana, Octávio Machado, Lacão, Rui Silva)
Mais difícil liderar mulheres - sempre a quererem falar, mesmo a despropósito ( a delegação que visitou o Iraque, por exemplo ). Homens mais disciplinados?... Aceitando melhor a liderança feminina? Sei lá...

22 - Numa visita a Atenas a convite do meu homólogo, em 84, andava com escolta pela cidade (dois homens e uma mulher, elegantemente vestidos e muito agradáveis). E despistei-os, involuntariamente, com o meu passo rápido, nas ruas estreitas da Plaka. Tive de ir procurá-los. Eram tão simpáticos - seria mau chegar sem eles ao hotel...

23 - Hotel onde a adjunta, Isabel, ia morrendo de susto qd abriu a porta para colocar o impresso do breakfast e deu de caras com um soldado armado de metralhadora - a minha segurança nocturna...
O ambiente andava agitado, manif's na rua contra a reunião da NATO, que se realizaria na Turquia, e na qual participou Mota Pinto.

24 - Também fui à Turquia, de seguida, mas para uma reunião em Izmir, sobre migrações e desenvolvimento, onde participaram  o Manuel Porto e o Silva Penedo. Ainda estive, com o Prof. Mota Pinto em Istambul, de passagem.
No Hotel de Izmir, um gang de empregados do Hotel assaltou-nos, a mim e à Isabel, enquanto dormíamos, na última noite. A ela roubaram-lhe bastante dinheiro. A mim, nada, porque não tinha dinheiro vivo, só cartões... foi um susto ao retardador, no aeroporto, quando nos apercebemos da falta de dinheiro turco e relacionamos as dores de cabeça de que ambas sofríamos. com a possibilidade de nos terem dado um sedativo (ao jantar?).

25 - Em Atenas, recebida por Melina Mercouri, Ministra da Cultura, responsável pelo apoio aos gregos no estrangeiro. Ela chiquérrima, eu com um vestido tão feio, de malha preta, raiada de amarelo. A conversa foi banal, embora ela não fosse banal. A diáspora estava, pareceu-me, mais entregue ao Secretário de Estado do que à ministra. Lá como cá...
Dei-me sempre muito bem com os homólogos gregos - e todos me convidaram a visitar Atenas.
O último praticamente não falava inglês, só grego e alemão. O meu alemão é paupérrimo, mas mesmo assim conseguíamos conversar sem intérprete! Entre palavras cruzadas nas duas línguas germânicas e pura empatia.

26 - Em Israel, a convite do Governo, por intermédio da Emb. Colette Avital - uma diplomata de excepção. No domingo de Páscoa, visita à Cidade Santa, rodeada de segurança ostensiva, soldados de metralhadora. Sentia-me um alvo... detesto segurança e, sobretudo, armas de fogo à minha volta.

27 - Também a convite de Colette falei numa manifestação em Lisboa, de apoio a Israel, então sob ataque  de mísseis iraquianos. Falei de nós como uma nação em que os portugueses de dividem entre os que sabem que são judeus e os que sabem que talvez o sejam também...
Já toda a gente tinha dito o que eu me preparava para dizer...

29 -Israel: O mar da Galileia, o barco dos pescadores do tempo de Cristo... O Mar Morto, a fortaleza de Massada, o Museu do Holocausto. Os jovens acompanhantes tão simpáticos, mas em rotação, um, e logo, outro.
Senti muito mais a presença de Cristo em Belém do que  em Roma, no sumptuoso Vaticano...

30 - Grande amigos, entre diplomatas, como Vera e Alberto da Costa e Silva e, depois, José Aparecido de Oliveira.
Gente notável...
Com Alberto começamos as geminações entre as cidades do mesmo nome.
Amarante de Portugal com Amarante do Piauí, terra de origem do pai de Alberto, o poeta da saudade, Da Costa e Silva. Mais uma das sintonias entre as Amarantes. Ambas com culto a São Gonçalo, versinhos brejeiros, rio atravessando a cidade.
Lá um Poeta da saudade, cá outro, Pascoaes...
Bela cerimónia na nossa Amarante. Que bem falava Alberto - orador, para além de ser um grande escritor!

31 - Com José Aparecido tudo começou por acaso. Nem sabia que ele, ainda futuro embaixador, já estava em Lisboa. Fui à chancelaria dar um abraço de solidariedade ao Encarregado de Negócios, amigo de longa data e ele insistiu em me apresentar a Aparecido. Naquele momento o meu espontâneo gesto sensibilizou-o muito, como escreveu mais tarde num jornal barsileiro (ver recorte)
Estavam em causa brasileiros a aguardar expulsão na Portela, enquanto Cavaco se limitava a reafirmar que "eram estrangeiros como outros quaisquer".
Fiquei indignada!
Aparecido convidou-me a almoçar com ele na cantina, familiarmente. Uma conversa de 5 previsíveis minutos durou o dia inteiro...

32 - Anos depois, no clube português de Belo Horizonte, José Aparecido contou essa história e o significado que o gesto de uma VP da AR tivera para ele. Confesso que não me tinha apercebido da singularidade do gesto. Para mim, tinha sido uma reacção normalíssima...

33 - Como qd viajei no autocarro 24 para o MNE (nem sei porquê - avaria no carro, à última hora? não aparecia táxi?). Viu-me Pedro Cid e nem queria acreditar - um membro do governo nos transportes públicos...
 E não era show-off, como acontece com os governantes que viajam na económica da TAP, atrapalhando meio mundo, com certeza, e, quando a económica vai cheia, obrigando a companhia a fazer upgrade a quem paga bilhete de económica (eles na TAP vão de graça...)
Mas isto é só na Europa. Nas Intercontinentais, dispensam o sacrifício...

34 - Eu nunca viajei com despesas de representação, enquanto no MNE.
Não deve haver 2º exemplo... Limitava-me a ajudas de custo, como as de funcionários públicos e com elas pagava os hotéis e o resto.
E as embaixadas a reservarem-me suites enormes e caras, julgando que eu gozava das  tais verbas para despesas de representação... Ainda por cima nem gosto de grandes suites! Nalgumas até me perdia lá dentro.

35 - E as viagens que paguei do meu bolso, quando recebia convites das comunidades, na qualidade de VP da AR.!!!  O Victor Crespo achava sempre muito bem que eu aceitasse, mas à minha conta. Até perdia o subsídio diário a que os deputados têm direito em Lisboa.
Mas eu fazia-o com gosto. Pelos amigos das Comunidades, e para "chatear" o SECP Correia de Jesus, que entendia que eu estava a "invadir" os seus domínios... Foi uma alegra guerra de alecrim e manjerona

36 - Mais tarde contei-lhe: gastei muito dinheiro, em parte por sua causa, porque sabia que as minhas visitas o incomodavam e isso divertia-me...

37 - Aos EUA, não faltei a um só Dia Nacional nesse período de 4 anos. Em Connecticut, Adriano Seabra da Veiga telefonava-me a comunicar: "Tem de vir,  já pus o seu nome nos cartazes do 10 de junho". E eu ia.
A Newark, com o Sr Coutinho e a Dona Maria, também não podia faltar.

38 - Uma vez, em Waterbury, ofereceram-me uma vistosa águia. E eu não percebia porquê. Seriam benfiquistas? (o FCP tinha ganho pouco antes o campeonato). Seria uma inspiração do meu apelido?
De repente, lembrei-me: é a aguia símbolo da América!
Viajou comigo no avião da TAP. (em executiva)

39 - Mais difícil foi trazer comigo uma cadelinha "Yiorkie", oferecida por Rita e Adriano, na minha 2º ida a Connectucut, em Novembro de 1980.
Eu gostava muito dos cães deles, do Champions e dos outros - uma colecção, 6 ou 7, pequeninos, a contrastar com o enorme São Bernardo. o Tighny...
Foi uma surpresa... e uma preocupação. Como a traria na travessia aérea do oceano (embora com a papelada em ordem)? E como a poderia cuidar em Lisboa? (a Maria Póvoas já tinha morrido)
Mudei o voo de uma outra companhia para a TAP. Entrei com a pequenina cadela ao colo e um funcionário olhou e exclamou: "Oh, it looks real!"
"It is real" foi a resposta.

40 - A travessia foi incrível. Todos os passageiros vinham ver a cadelinha, que se tornou muito popular, e falavam comigo - não dormi nada!

41 - Outro grande amigo: o Doutor Cachadinha, Padre, hoje Monsenhor José Alves Cachadinha, tão Sá Carneirista como eu. O mesmo se diga de Adriano, Seabra da Veiga , que recebeu Sá Carneiro,  António Maria Pereira, Amândio de Azevedo, Leonor Beleza  (então Secretária de Estado) e tantos outros.
Mas também Zeca Afonso, para tratamento, Spínola e Veiga Simões, no exílio, a prima Amália Rodrigues... etc etc...
Era uma casa magnífica, sempre aberta para os portugueses. Uma mansão esplêndida, na zona do "country club" e na vizinhança de várias celeberidades de Hollywood.
Quantas vezes os visitei?  Inúmeras. Adriano era o Cônsul Honorário e, muito mais do que isso, um líder da comunidade, sempre a organizar eventos imperdíveis!

42- Macau

A questão da não reintegração de funcionários públicos de Macau na admnistração portuguesa foi uma das que me levou a abandonar a política. A não aceitar um lugar nas listas de deputados da emigração, pelo PSD, em 2005.
A promessa de reintegração daqueles que prematuramente tiveram de optar por Macau, antes da entrega do território à China,  fora feita pelo PSD (na altura eram já poucos os funcionários nessas condições - uns 150? - e não  regressariam todos de imediato...).
 Um requerimento ao governo em que  era exigida essa decisão foi assinado por mim, pelo José Luís Arnault e pela Natália Carrascalão. Um longuíssimo requerimento, com extensa  e boa fundamentação jurídica. O mais longo que jamais subscrevi - limitando-me a enquadrar nas fórmulas de estilo uma exposição bem elaborada pelos juristas da Secção do partido de Macau. Recebi essa incumbência do próprio Secretário- Geral J L Arnault.
Reafirmei, naturalmente,  a posição do PSD numa visita à Região, como deputada. Dei a minha palavra., absolutamente convencida que o partido honraria a promessa.
Que ingenuidade! Não cumpriram coisíssima nenhuma. O Arnault, que era Ministro influente, desapareceu desta história, como se nunca tivesse estado nela. E uma jovem Secretária de Estado de Manuela Ferreira Leite veio à Comissão de Negócios Estrangeiros dizer "não", com os mesmíssimos argumentos que o PS invocava no passado.
Pedi públicas desculpas aos Portugueses de Macau, com larga publicitação. Quis mesmo lá ir, dizê-lo de viva voz aos portugueses, mas não consegui, no tempo certo. Usei o sucedâneo. E deixei de ter condições de me recandidatar por um partido que lhes tinha mentido.
Sei que não é comum levar a sério estas coisas. Mas eu levava e não me arrependo. Senti-me traída, como eles.

43 - Lembro-me a propósito (não a propósito de Macau, mas do respeito pela palavra dada...) do ultimato que o PSD lançou, em 1985, ao General Firmino Miguel, dando-lhe um prazo para responder se aceitava candidatar-se a PR com o apoio do PSD. A resposta só podia ser não (que era o que o ultimato, congeminado pelos opositores do Prof Mota Pinto,  realmente visava...) .
Umas semanas depois, eu (grande admiradora de Firmino Miguel) falava do assunto num grupo de amigos. Alguns achavam que o General ainda podia repensar, invocando alteração de circunstâncias e interesse nacional. Responde um outro: " um político faria isso, um militar não.  A palavra está dada, é para cumprir".
Neste aspecto sou mais militar do que política.

44 - Sem Mota Pinto, o PSD iria mudar muito... Perda irreparável...
O sucessor acabou sendo Cavaco Silva, inesperado vencedor na Figueira (com o meu apoio - e o de todos os chamados "críticos").
E, com o General F M  fora da corrida,  também apoiava, mas espontâneamente, qualquer que fosse a posição do partido,  Freitas do Amaral para PR.
Por coincidência, Cavaco conseguiu impô-lo ao PSD, mas eu já antes tinha participado nas primeiras iniciativas de campanha. Por distracção, até fui à conferência de imprensa de apresentação da candidatura, que confundi com o lançamento de um livro do Professor. Na sala só estavam jornalistas...e eu!
O professor saudou-me efusivamente e eu lá fiquei a tentar não dar nas vistas, o que era tarefa Viimpossível.

45 - Em eleições para o PR faço o que quero, não sigo necessariamente o partido.
Votei Eanes na 1ª eleição, depois Soares Carneiro, depois Freitas, depois não votei Soares (porque achava a colagem do PSD um acto de profunda hipocrisia política), depois Cavaco (apesar da grande admiração por Jorge Sampaio - aí segui o diktat do PSD, com o caríssimo Fernando Nogueira à frente) e, finalmente,  Mário Soares!
Nunca tinha votado no Doutor Soares, pai fundador desta democracia e, como pessoa, uma pessoa fantástica!
Achava mesmo que a idade, a experiência, o imenso prestígio internacional, o tornavam o candidato ideal. Mas não para este povo, que idolatra a juventude. Sabia que, por isso, a vitória de Mário Soares era utopia, mas deu-me uma grande satisfação moral votar pelo melhor! Hoje, faria o mesmo.

46 -  Visita a Cabo Verde, viagem ao paraíso!
Fui a convite do MNE Silvino da Luz. Fiquei ao seu lado num jantar no Palácio das Necessidades e tive de confessar que ainda não conhecia o seu País. O convite foi feito logo ali, mas a viagem teve de ser adiada, porque, entretanto, mudou o Sec de Estado da Cooperação (o meu amigo Luís Gaspar da Silva deixou o cargo para ir continuar a carreira diplomática em Paris e foi substituído pelo chefe de gabinete de Gama, Eduardo Âmbar). Naturalmente, Âmbar queria ir antes de mim ao Arquipélago. E foi, levando os cantores do regime, a Lena d Água e Banda Atlântica (tenho mais certezas quanto à Lena do que quanto à Banda. mas acho que se chamava assim ...),  inaugurando centros culturais e bibliotecas. Belos gestos de cooperação, muito meritórios.
Parti duas ou três semanas depois, com a Presidente do IAECP, a Mª LuísaPinto, e com os 4 fadistas de Coimbra (a pedido do Embaixador Baptista Martins, que nos disse que o fado coimbrão era muito apreciado naquele país - no que estava certíssimo!).
Foi a Margarida Serra e Moura, do meu gabinete, que conseguiu convencer o grupo do Berna a fazer a "tournée", de um dia para o outro. Como eram os quatro funcionários públicos, pedimos aos respectivos serviços que os dispensassem - o que  foi conseguido em tempo útil.
O sucesso foi imenso! Salas de espectáculos cheias por todo o lado, aplauso infindáveis. E quando, a encerrar, convidavam os antigos estudantes de Coimbra a subirem ao palco para cantar "Coimbra tem mais encanto na hora da despedida" o palco ficava repleto. Políticos, funcionários, quadros, empresários... será que ainda hoje isso aconteceria?

47 - E, para além das conversações sobre temáticas da emigração, organização de estruturas e serviços, que obviamente interessavam  a um país de grande diáspora (sobretudo na Europa e na América do norte), queriam também que fosse naquele período assinado um acordo sobre os seus imigrantes em Portugal. O Ministro Maldonado Gonelha e a Sec De Estado Leonor Beleza eram os governantes que tinha os pelouros envolvidos no acordo. Pela parte de Leonor, todas as facilidades. Não assim da parte daquele ministro. Mas a sua oposição cedeu quando foi o próprio homólogo de Cabo Verde a pedir-lhe urgência  na assinatura... (sugestão minha - que resultou plenamente). E fi-la não porque tivesse interesse pessoal no acto, mas porque era importante para eles, para os imigrantes!
Mais um sucesso.

48 - Estávamos em 1985, nas vésperas da celebração dos 10 anos de independência de CV . Levei comigo uma medalha com os símbolos de CV e de Portugal e estes dizeres: 10 anos de renovada amizade. Foi muito apreciada.
Tudo correu às mil maravilhas.
Poucos meses depois foi editado um livro sobre essa década primordial. Lá vem uma grande foto minha tirada com os amigos de CV. Nenhuma do Âmbar. E, se é que Gama lá aparece é em ponto bem mais pequeno.
Não era o meu objectivo, mas, depois de tantas pequenas quezílias domésticas, acabou por me dar algum gozo (um gozo coimbrão...) Aliás, estou convencida que os fadistas, que eram amigos de meio mundo naquelas terras, ( e do meio mundo que mais mandava) tiveram nisso uma importância grande! Criaram o "ambiente" humano em que me movi! e o Embaixador também foi inexcedível. No banquete final na residência havia ministros por todo o lado . e mais de 400 convidados! E ouviu-se o fado, num recanto do jardim.
Inesquecível!

49 - Inauguração de uma estátua ao emigrante em São Pedro do Sul - promovida por portugueses da RAS. levaram lá enorme comitiva, muitos media, Embaixadores, Ministro Louis Nell, etc
Missa campal, sob um sol impiedoso, tive de discursar nas duas línguas e para as câmaras da RTP. Grande almoço no antigo hotel das termas. Seguranças à volta do Ministro. convidei-o a ir comigo dar uma volta pela terra. Não estava previsto... começaram a levantar-lhe muitas objecções... aina e sempre a segurança.
até que o ouvi dizer, corajosamente:
"Se ela vai, eu também vou"
E fomos, em pequeno grupo excursionista, gozar as belezas da terra, e o remanso da "pax" portuguesa. Perigo só mesmo na cabeça deles (dos serviços de segurança, que talvez nos tenham seguido, mas de longe, que por perto de nós eu não os queria).

 50 - o encontro com Walter SISULU, o famoso companheiro de prisão de MANDELA
O Emb Cutileiro organizou quando de uma ida minha a Capetown um encontro com Albertina Sisulu, feminista e notável senhora. Achou que gostaríamos uma da outra. Meeting no escritório do advogado (indiano) de Mandela e Sisulu. Chegamos cedo.  advogado pessoa introvertida, aconversa nã fluía. até que se abra a porta do gabinete e entra, não a senhora esperada, mas um homem de braços abertos e grande sorriso a iluminar -lhe o rosto!
walter, evidentemente.
A dizer, depois de um abraço cordial, que estava a substituir a Mulher, que caíra subitamente na cama, com forte gripe!
Foi encantador. Como é possível uma atitude de tão grande simpatia e abertura aos outros, qualquer que seja a cor, a religião ou a ideologia, num Homem que o apartheid tinha mantido prisioneiro até umas poucas semanas atrás?
Mas é essa atitude, essa qualidade humana que explica o milagre da nova RAS, onde todos convivem em liberdade.
Há problemas, mas não os que se esperariam na convivência intercultural e na democracia...

 51 -  conferência dos Ministros responsáveis pela migrações do Conselho da Europa.
Roma 1983
Anita Gradin, Ministrada Imigração da Suécia e eu, Vice-Presidentes da conferência, juntamente com o homólogo grego. Presente a Sec Estado da Imig da França Georgina Dufois.
Aí se traçou uma "entente" que durou anos. Duas poderosas aliadas, com visões semelhantes da imigração e das questões de género. (elas socialistas, eu, nestas duas matérias, ainda que não porventura em outras, tanto ou mais esquerda do que elas...)
Eu fazia a ponte, até do ponto de vista linguístico - inglês com Anita, francês com Georgina. Era amiga das duas, por igual, mas elas nunca tiveram entre si o mesmo grau de intimidade ou à vontade.
Já nem sei ao certo o que disse - só em termos de linha política, que essa foi sempre a mesma: defesa da dupla cidadania, com factor de integração, igualdade de direitos face aos dois países...
Anita convocou de seguida uma grande conferência sobre a dupla nac em Estocolmo

52 -  Difícil converter os nórdicos à dupla nac... mas correu o melhor possível.
No fim os ministros partiram todos menos eu. Acompanhada da Mª José Cabugueira do meu gabinete, seguimos com Anita e Bertil para a casa de campo numa ilha encantada...
Vizinhos eram só dois ou três, dispersos pela pequena ilha.
A casa ficava entre bosques1

53 - Fui com Anita apanhar cogumelos, com Bertil pescar de barco.
Eu remava, enquanto ele lançava as redes. salvei a vida de muito peixes, porque, apesar dos aviso, remava depressa demais. Só trouxemos um para casa, mas deu um belo prato para o jantar.
A Anita sabe mesmo cozinhar!
Anos depois, estiveram ambos nno meu apartamento de Espinho. Visitamos Aveiro e o castelo da Feira, mas no domingo o ICEP trocou-nos os planos... Souberam que ela (então Ministra do Comércio) já estava em Portugal e insistiram em lhe oferecer um passeio pelo rio Douro, para o qual, naturalmente, me tiveram de convidar.
Esta era um visita pessoal, seguida da oficial, mas em eventos vários, primeiro a meu convite, depois, trazida por outras entidades, sempre arranjava maneira de nos encontrarmos. Tinha e tem dois amigos em Portugal: o António Guterres (foram colegas na APCE, ele sucedeu-lhe como presidente da comissão das migrações - cargo para o qual também fui eleita, mas bastante depois) e eu.
54 - Numa dessas visitas convidei-a a ir à Comissão da Igualdade na AR (que eu então presidia), falar sobre o sistema de quotas, que ambas defendemos. Ela era presidente da Internacional Socialista de Mulheres - e explicou-nos como dentro do PSD sueco tinha conseguido, décadas antes, introduzir as quotas.
Os homens davam sempre a desculpa de que não havia candidatas. Ela e outras organizaram uma lista de voluntárias com excelente curriculum e, assim, responderam ao velho argumento. Vingaram as quotas, apesar da relutância de muitos...

55 - Em Portugal, na 1ª tentativa de introduzir as quotas (na lei, não internamente num partido, à sueca) fui a única a votar a favor do projecto do PS... E andei fazendo campanha nos media com o António Costa, que é um convicto da causa. como eu!

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