segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Para o "jornal" Mensagem reencontrada!

CENTENÁRIO DA REPÚBLICA PORTUGUESA
Homenagem a Carolina Beatriz Ângelo
Espinho, 28 de Maio de 2010

Integrada num vasto e dignificante programa de comemorações do Centenário da República Portuguesa que se realizam em Espinho e pela mão da Dra. Manuela Aguiar, que merece o nosso maior aplauso, é hoje homenageada Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher que em Portugal exerceu o seu direito de voto, há exactamente 100 anos, interferindo assim na república dos homens, com a maior coragem e determinação.

Lamentando não poder estar presente, não queria deixar de me associar a este momento simbólico, como simbólica é esta sessão, no contexto do centenário da república portuguesa.

Apesar dos homens e das mulheres constituírem os dois sexos que compõem a Humanidade, as sociedades, em função das diferenças biológicas, foram construindo ao longo dos séculos representações, papeis e expectativas, também diferentes entre si, originando o que se passou a designar de género: género feminino e género masculino. Diferenças de género, que desde sempre estiveram impressas nas estruturas mentais e sociais da humanidade. No passado, as diferenças fundamentavam-se no reconhecimento aos homens e a exclusão às mulheres dos direitos inerentes à autonomia individual e à cidadania. As mulheres eram consideradas desiguais pelo Direito, cuja desigualdade se traduzia numa determinada hierarquia entre uns e outras: os homens, que constituíam um padrão em torno do qual e para a qual a sociedade se organizou; as mulheres, principalmente as casadas, uma “classe” inferior, com capacidade jurídica diminuída e, consequentemente, discriminada. Há 100 anos, Carolina Beatriz Ângelo, atenta aos ganhos civilizacionais e jurídicos, ousou interferir com o seu voto numa república recém criada, constituindo um modelo de mulher que ainda não era suficientemente aceite pela sociedade, mas que deveria ser uma referência para todas nós e que esta sessão dará a conhecer melhor esta figura.

Já passaram 100 anos desde esse momento histórico e, actualmente, o Direito português, no quadro dos Direitos, Liberdades e Garantias Fundamentais, considera ilegal a discriminação em função do género, reconhecendo a igualdade de homens e mulheres: duas expressões concretas do conceito abstracto que é a Pessoa - as duas componentes da Humanidade.

E, como tal, reconhece que todos os Direitos Humanos e Liberdades Fundamentais são inerentes ao mero facto de se ser Pessoa, de ser Mulher, ou Homem. Mulheres e homens têm hoje direitos iguais, porque a Humanidade se desenvolveu, porque as ciências avançaram, porque as sociedades evoluíram, porque a Justiça e a Democracia são assumidas como ideais em constante aprofundamento. Numa sociedade que se pretende justa e democrática, todos devem ter as mesmas oportunidades para aceder ao poder, mas importa que cada uma de nós tenha a coragem e a determinação de enfrentar todas as vicissitudes que encontre no caminho. Cada uma de nós aqui, tem certamente histórias de vida que testemunham os seus contributos para a renovação de uma organização partilhada entre homens e mulheres, a todos os níveis e em todas as esferas, num efectivo exercício de cidadania que sempre caracterizou tudo quanto a vida me fez confrontar.

Não querendo ser exaustiva e porque não gosto de falar de mim, mas porque me foi solicitado apresentar um testemunho pessoal, salientarei algumas vivências em diferentes contextos e, consequentemente, com diferentes tipos de intervenção.

Profissionalmente, a minha carreira docente universitária impôs a realização de doutoramento e, como na minha área científica ainda não havia em Portugal ninguém com esse grau, tive de emigrar, para em Paris e durante cinco anos, realizar os meus estudos conducentes à obtenção do grau de Doutor em Psicologia. Foram cinco anos difíceis, longe de casa, dos filhos, da família; sem bolsa de estudo. Mas consegui, tendo sido a primeira mulher que em Portugal obteve esse grau para as Ciências do Desporto. Depois, fui novamente a primeira a chegar a Catedrática, depois das provas de agregação e de ter ganho o concurso para este estatuto universitário.

No desporto, não foi difícil pertencer á primeira equipa de voleibol do Sporting Club de Espinho, onde agora e já desde há alguns anos sou Presidente da Assembleia Geral.

Ter sido Vice-Presidente dos Bombeiros Voluntários de Espinho, foi uma experiência enriquecedora, num contexto especial, com pessoas muito especiais, sobretudo porque me foi dado o privilégio de organizar as comemorações do seu centenário.

Ter sido uma das 18 Presidentes das 308 Assembleias Municipais Portuguesas é também algo a que não pude ficar indiferente, como também registo com muito orgulho e satisfação o resultado da votação para a actual Presidência da Assembleia Municipal de Espinho. Apesar de não ter sido eleita, votaram em mim todos os elementos do CDS-PP, da CDU, do BE e, obviamente, do Partido Socialista.


Associando-me assim a esta homenagem e agradecendo o honroso convite para nela ter participado, cumprimento com muita amizade desejando a excelência para esta sessão.

Espinho, 28 de Maio de 2010
Graça Guedes

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